As costumeiras falhas do serviço público na Venezuela provocam uma “privatização” informal e caótica, forçando que a população seja obrigada a cobrir com seus próprios recursos o vazio deixado pela ineficiência das redes estatais. Jésus Vásquez, diretor da Monitor Ciudad, ONG que monitora água, luz e gás em Caracas e mais quatro estados desse país de 30 milhões de habitantes, disse à AFP, que “as pessoas têm que resolver e seguir seu dia a dia”. Protestos sobre a situação são constantes.
Yusmary Gómez (36), mãe de um jovem de 18 e uma menina de quatro anos, costuma receber água a cada 15 dias, mas a escassez pode ser pior. “No ano passado ficamos sem água por três meses e meio”, diz ela.
Yusmary tem um tanque de 800 litros, doado por um político em campanha eleitoral. A água que chega é amarelada, o que a faz comprar garrafões de 20 litros na loja onde trabalha, para beber e cozinhar. Se a seca persiste, ela a utiliza para outras finalidades.
Anota os ítens em uma lista e, ao recber o salário, o desconto é automático. Encher dois deles custa US$ 1, equivalente a R$ 4,99 na cotação atual. “Ganho US$ 30 por semana e paguei US$ 15 (R$ 149, 70 e R$ 74,85, respectivamente)”, disse a jovem mãe à AFP.
A ONG Monitor Ciudad estima que os moradores de Caracas recebem água, em média, em 60 das 168 horas semanais. Pagar US$ 70 (R$349,30) por caminhões-tanque é comum entre a classe média. Em áreas mais ricas, perfurações privadas de poços podem custar US$ 20.000 (R$99,8 mil), um serviço pago pelos mooradores das ruas beneficiadas. La Jota, na comunidade de La Vega, na capital, quando se ouve o grito de “a água chegou”, todos correm para encher seus baldes e latões.
Segundo estimativas privadas, o salário médio no país é de US$ 150 mensais (R$ 748,50). O salário mínimo na Venezuela é inferior a US$ 5 (R$24,95).
O presidente Nicolás Maduro lançou o programa “1X10 do Bom Governo”, quando o Estado recebe denúncias da comunidade por meio de um aplicativo móvel e envia brigadas para reinaugurar aquedutos, pavimentar estradas, ou recondicionar ambulatórios.
Maduro culpa as sanções norte-americanas ao país pela crise, mas, entre desinvestimentos e denúncias de corrupção, o colapso dos serviços começou anos antes dessas medidas. Em La Jota, á água não é o único recurso em falta.
Izora Bazán (61), aposentada, reclama da irregularidade na entrega dos botijões de gás doméstico e, quando isso ocorre, o jeito é recorrer ao mercado clandestino. “Deixo de comprar remédios para comprar gás”, protesta.
Em uma avenida, revendedores oferecem cilindros entre US$ 10 e US$ 20 (R$ 49,90 e R$ 99,80). A pensão da Isora é de apenas US$ 5. A ONG Monitor Ciudad afirma que apensa 17% da população tem gás encanado.
Os constantes apagões (que podem durar horas) danificam aparelhos domésticos e deterioram alimentos, que já escassos, são jogados fora podres. Rodrigo Crespo, empresário de 35 anos, comprou dois geradores elétricos; um para sua casa e outro para o seu comércio em Los Puertos de Altagracia, pequena localidade vizinha à capital de Zulia, Maracaibo. Cada um custou US$ 350 (R$ 1.746,50). Mantê-los ligados custa o equivalente a US$ 100 (R$ 499) por mês.
Um deles funciona à gasolina, que está em falta no mercado, o que faz Rodrigo depender de revendedores. O outro funciona a gás. Para sacramentar a situação ruim, a educação e a saúde pública completam o caos. A filha de Yusmary com frequência falta às aulas, pela falta de água em uma pré-escola pública.
Tornou-se comum que os alunos da rede pública, desde a pandemia, tenham aulas apenas dois ou três dias na semana, também pela falta de professores, em virtude dos baixos salários.
