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A interpretação dos sinais de fumaça da Câmara de Vereadores de Itabira

Câmara de Itabira antecipa pagamento do 13º salário para seus servidores

Foto: Divulgação/CMI

A fumaça negra foi vista de longe. O povo do Campestre, Caminho Novo, Bela Vista e Gabiroba notou a estranha ocorrência. Até moradores do Pedreira e Barreiro deram notícias do fenômeno. “Habemus papam!” exclamaram alguns desavisados- sem noção de tempo e espaço. Uma investigação criteriosa, porém, decifraria o enigma da esfinge de Mato Dentro. Não há uma nova santidade no pedaço, mas algo de muito diabólico abalou a “paz eterna” da terra de Drummond: uma baita crise institucional. 

O sinal de labaredas foi interpretado de forma diversa no terceiro andar da Prefeitura. O duro recado dos vereadores acertou o alvo com precisão. A mensagem é muito clara: os eventuais inquilinos do pomposo prédio da Avenida Carlos Drummond de Andrade estão “carentes”. Querem conversar.  Aparentemente, o sistema de coalizão desandou em Itabira. 

O mau funcionamento dessa jabuticaba tupiniquim (governo de coalizão) costuma ter graves consequências. O instituto da coalizão tem uma dinâmica bastante própria e pragmática: o Executivo e Legislativo precisam interagir (negociar) o tempo todo para manter a governabilidade.  Os parlamentares (deputados e vereadores) necessitam atender às necessidades de suas bases eleitorais. Essa “carência” só é suprida com benesses do Executivo. Nenhuma anormalidade. O procedimento não é ilegal. Pode até- em determinadas circunstâncias- beirar os limites da moralidade, mas jamais deveria ultrapassar a tênue linha da ética e espírito republicano. 

O deputado Lincoln Portela definiu essa aberração da política nacional com peculiar sinceridade: “o legislador cobra o ônus por apoiar o governo em ações impopulares”. Ele fazia referência às emendas parlamentares, a mais tradicional ferramenta do assistencialismo. Essa é a lógica do chamado Centrão, outra jabuticaba. 

O fogaréu que consumiu as entranhas do establishment local apesentou um elevado custo: R$ 70 milhões. Esse é o valor do empréstimo que a Prefeitura contrairia junto à Caixa Econômica Federal. Os nobres edis (o apelido arcaico de vereadores) entenderam que a operação financeira provocaria o endividamento do município (inclusive desembocaria nas gerações futuras) e derrubaram a proposta do Governo Marco Antônio Lage. 

O recurso (R$ 70 mi) pavimentaria o caminho da nova administração da cidade e praticamente garantiria a reeleição de Lage. Os vereadores nem tomaram conhecimento das futuras pretensões eleitoreiras do chefe do Executivo. Preferiram bancar as suas próprias convicções e atropelaram o PL 48/2021. O arremate de tudo isso é imprevisível. A coalizão emperrou e tem potencial para acabar em colisão.  

O secretário de Governo Márcio Magno Passos- numa entrevista à DeFato– deu a senha  dos próximos capítulos: “Tem vereador aí que é um balaio sem fundo. Marco (o prefeito) vai moralizar esse relacionamento da Prefeitura com a Câmara”, prometeu. É pagar pra ver. O “primeiro-ministro municipal” ainda ofereceu uma boa informação para os itabiranos: “com empréstimo ou sem empréstimo, as obras serão realizadas”. 

A corda, contudo, foi temerariamente esticada (como analisariam os ex-árbitros de futebol). Há risco real de coalizão se transformar em colisão. O Brasil tem dois exemplos que ilustram muito bem as consequências desse embate radical entre governo e Legislativo: os impeachments de Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff. Os dois detestavam receber deputados. “Não negocio com esse tipo de gente”, desafiava o enfadonho “Caçador de Marajás”. E deu no que deu. O resto é história.

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião da DeFato.

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