Matéria publicada na edição 70 do Jornal DeFato
Preocupação 24 horas
“Já trabalhei com pacientes infecto-contagiosos antes, como vítimas de H1N1. A grande diferença para mim, no caso do coronavírus é o risco de nos contaminarmos e, mesmo assintomáticos, transmitir o vírus para outras pessoas, levar a doença para dentro de casa. Com isso, não consigo me desligar por completo, nenhum médico consegue. Ficamos, na verdade, vigiando nossos sintomas. A mídia ajuda a nos mantermos ligados o tempo todo”.
Solidão
“A solidão dos pacientes com coronavírus é marcante. Vendo-se de frente para a morte, o que mais querem é ter quem amam ao lado. Já vi um paciente implorando para ver a família ‘pela última vez’. Isso é impossível, temos que nos manter irredutíveis, e isso dói.
Atendi a primeira paciente com coronavírus que veio a óbito em Minas Gerais. Foi a primeira morte registrada no estado devido ao Covid-19. O caso foi conduzido da melhor forma possível, porém não fomos capazes de deter a evolução para o óbito, mesmo com toda tecnologia e cuidados à disposição. A doença pode ser muito, muito grave. Não por acaso, nos Estados Unidos, país reconhecido pela excelência da medicina que detém, estão morrendo duas mil pessoas por dia”.
Acreditar na doença e na ciência
“É frustrante sermos ignorados quando reforçamos a importância e necessidade do isolamento social. Porém, é absolutamente esperado. O povo brasileiro não tem vivência com situações limites: não enfrentamos guerras ou tragédias como furacões ou terremotos. Para mim, não é surpresa a dificuldade das pessoas de seguirem regras rígidas de comportamento. Precisamos aprender a pensar na coletividade: eu só fico bem se todos que me rodeiam estiverem bem também. O brasileiro se acha um povo inatingível, acha que seremos abençoados e que conosco ‘será diferente’. Não é o que penso. Outros países já pensaram o mesmo e hoje choram seus mortos. O coronavírus se transformou em nosso país em uma questão política, né? Isso é muito, muito triste! A paixão política cega as pessoas. Precisamos acreditar na Ciência, a Ciência é imparcial”.
Tenhamos fé!
“A mensagem que passo enquanto médica que convive com pacientes que lutam pela vida é que todos sejam cuidadosos, mas nada de desespero! Mesmo que você faça parte do chamado grupo de risco, a doença tem cerca de 90% de chance de cura. Pense e mantenha seu foco nos casos recuperados. Reforce sua espiritualidade e acredite que, por mais difícil que seja uma situação, um momento, tudo na vida passa. Contaremos essa história para nossos netos e bisnetos. Tenhamos fé”.

