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A solidão no meio da multidão

A solidão no meio da multidão

Foto: Noah Silliman/Unsplash

Há um silêncio que se espalha entre nós. Ele não é barulhento, não chama atenção. Ele se disfarça de rotina, de produtividade, de conexões múltiplas. Mas ele está ali — no cansaço de responder mensagens sem alma, na pressa de dar conta de tudo, no vazio que chega mesmo quando há gente por perto. É a solidão de quem vive no meio da multidão.

Talvez você também sinta. Talvez se pergunte por que, mesmo com tantas formas de contato, tantas notificações piscando, a sensação seja de que falta algo. Falta alguém. Falta encontro.

Vivemos tempos em que a solidão não é mais a ausência de pessoas — mas a ausência de presença.

A tecnologia que nos aproxima… e nos afasta

A promessa da tecnologia é encantadora: facilitar a vida, encurtar distâncias, otimizar tarefas. Mas quando a técnica deixa de ser uma ferramenta e passa a moldar a forma como existimos, algo essencial se perde.

O filósofo Martin Heidegger já nos alertava para isso ao refletir sobre o “esquecimento do ser”. Para ele, a técnica moderna tende a transformar tudo — e todos — em recursos disponíveis, funcionais, úteis. Quando tudo precisa “servir” para algo, até os vínculos humanos correm o risco de se tornarem superficiais, descartáveis, performáticos. Nessa lógica da eficiência e da aceleração, o ser humano se torna coisa, recurso, função. Já não habitamos um mundo que acolhe — habitamos um sistema que exige desempenho.

Nessa lógica, não há espaço para a lentidão de uma escuta verdadeira, para a presença que não exige produtividade, para o silêncio compartilhado que diz mais que mil palavras. Nos tornamos visíveis, mas não necessariamente vistos. Rodeados, mas não acolhidos.

Sabemos muito… e convivemos pouco.

É curioso — e angustiante — percebermos como as relações humanas se tornaram reféns do tempo. Dizemos que não temos tempo para responder uma mensagem com calma, para tomar um café com um amigo, para visitar alguém. No entanto, gastamos horas deslizando o dedo pelas redes sociais, observando a vida dos outros em silêncio.

Vivemos um paradoxo: vemos o outro, mas não o tocamos. Sabemos o que ele almoçou, onde viajou, o que comemorou. Mas não ouvimos sua voz trêmula num dia difícil, não testemunhamos sua vulnerabilidade, não sentimos sua ausência quando tudo parece pesado demais. Estamos perto em termos de informação, mas longe em termos de afeto.

Nas redes, tudo é bonito, leve, espontâneo. Mas a vida real — essa que pulsa com conflitos, angústias, desconfortos e pequenos perrengues — raramente aparece. A dor é filtrada, a tristeza é silenciosa, a solidão é escondida atrás de um “tudo certo por aqui!”.

E quando não conseguimos compartilhar nossas próprias dores nesse ambiente supostamente tão “conectado”, o que resta é uma sensação de inadequação e distanciamento. Como se a vida estivesse acontecendo para todo mundo, menos para nós.

A dor de não ser encontrado

Byung-Chul Han, pensador sul-coreano que tem tocado o coração (e os nervos) de nosso tempo, aprofunda essa discussão ao descrever a “sociedade do desempenho” — um tempo em que todos precisam ser positivos, ativos, eficientes… até emocionalmente.

Vivemos sob a pressão de estarmos sempre bem, sempre conectados, sempre interessantes. A exposição virou norma, e a intimidade virou exceção. As redes nos permitem falar o tempo todo, mas escutar — de verdade — virou artigo raro.

A consequência? Uma solidão que não se explica por falta de companhia, mas por ausência de encontro. Uma sensação de estar no palco, mas nunca no colo.

Foto: Divulgação

Quando a solidão fala, é preciso escutar

Na psicologia existencial, aprendemos a acolher a solidão como uma experiência legítima — às vezes, necessária. Em vez de silenciá-la, é possível escutá-la. Que tipo de vida você tem levado? O que suas relações têm oferecido? Você tem se sentido visto ou apenas consumido?
A fenomenologia existencial nos convida a retornar à experiência como ela é vivida, sem pressa de rotular ou corrigir. E talvez a sua solidão esteja dizendo algo importante: que está difícil ser você nesse mundo que exige versões otimizadas o tempo todo. Que o excesso de ruído está te afastando do que realmente importa. Que, apesar de estar “conectado”, falta presença.

Tecendo encontros em um mundo automatizado

A técnica nos trouxe inegáveis avanços. Ela pode, sim, facilitar encontros, promover acolhimento, construir pontes. Mas ela não pode substituir o humano. O toque, o olhar, a escuta — esses não se programam.

Se há uma solidão atravessando o seu caminho, talvez ela não seja um erro, mas um chamado. Um convite à autenticidade. Um lembrete de que, no fundo, seguimos precisando daquilo que é mais simples e mais raro: a presença sincera de alguém que nos veja com verdade, sem filtros, sem likes.

Que possamos, então, entre telas e tarefas, reaprender a encontrar. A olhar nos olhos. A oferecer tempo. A habitar menos as redes e mais os afetos.

Porque, apesar da técnica, somos — e continuaremos sendo — seres que precisam de encontro.

Talvez seja hora de descer do palco. De viver menos para ser visto — e mais para se encontrar. De reaprender a estar com o outro de verdade, sem filtro, sem roteiro, sem função.

Podemos começar com gestos pequenos: uma mensagem sincera, uma visita sem razão, um tempo sem distração. Podemos nos fazer colo. E acolher também.

Porque, mesmo vivendo numa era que sabe muito, o que mais precisamos é sentir junto. E talvez, só talvez, seja isso que possa nos curar.

Menos palco. Mais colo. Mais verdade.

Sobre o colunista

Eduardo Mendes Martins da Costa é psicólogo e mestre em Psicologia pela UFSJ, sócio proprietário da clínica Integrar Itabira, apaixonado por escutar histórias e refletir sobre as complexidades do existir. Atua com base na psicologia fenomenológica-existencial, buscando promover encontros mais humanos em meio à correria do mundo moderno.

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