Quase 40 dias após terem sido retirados de casa às pressas, em meio à madrugada, ao som de sirenes, os mais de 490 moradores de comunidades vizinhas à barragem Sul Superior, da Vale, em Barão de Cocais, ainda não sabem quando poderão ter de volta suas vidas normais. Com a maioria das famílias ainda em hotéis, o clima é de tensão, incerteza e insatisfação.
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No início desta semana, uma comissão de moradores das comunidades de Socorro, Tabuleiro, Vila do Gongo e Piteira teve um encontro com representantes da Vale e da Prefeitura de Barão de Cocais. Eles entregaram à mineradora um abaixo-assinado contendo 21 reivindicações, grande parte com cobrança de prazos. O principal, segundo os atingidos, é saber quanto tempo vai levar o descomissionamento da barragem prometido pela empresa e, consequentemente, quando poderão retornar para suas residências.
“Quanto tempo vai demorar para a gente ter nossa vida de volta ao normal? Muitos dos que foram retirados das comunidades tinham sítios, fazendas, áreas grandes cheias de animais. Agora estão confinados em hotéis. Tem gente que nunca tinha ficado em um hotel antes. Isso é muito ruim. Precisamos saber quando isso vai acabar”, cobra o aposentado José Wilson Magalhães, 69 anos, presidente da Associação Comunitária de Desenvolvimento do Socorro.
O líder comunitário está em um hotel em Santa Bárbara. De acordo com ele, pouco mais de dez famílias foram levadas para casas alugadas pela Vale até agora. Outra parcela já está com a nova moradia escolhida, mas ainda não fez a mudança. “Mesmo para os que já saíram do hotel e já foram para as casas, é uma mudança de vida muito grande. Eram pessoas acostumadas com muito espaço”, comenta José Wilson.
Na próxima segunda-feira, 18 de março, será realizada em Barão de Cocais, às 10h, um debate público sobre a mineração. O encontro é promovido pela comissão externa da Câmara dos Deputados que acompanha o setor desde o desastre de Brumadinho, no fim de janeiro. Representantes da comunidade, políticos, promotores, líderes de entidades de classe e outras pessoas estão confirmadas para a reunião que acontece na quadra do Cras, no bairro São Miguel.
O debate público foi acertado em reuniões que o prefeito de Barão de Cocais, Décio Santos (PV), teve em Brasília durante a semana. O gestor municipal se encontrou com o senador Carlos Viana (PHS), os deputados federais Padre João (PT) e Júlio Delgado (PSB) e o presidente da Agência Nacional de Mineração (ANM), Eduardo Araújo de Souza Leão, quando cobrou mais atenção aos ônus da atividade econômica.
Sem os pertences
Além de estarem fora de suas casas, os moradores removidos estão sem os pertences. A maioria deixou as residências na madrugada do dia 8 de fevereiro apenas com a roupa do corpo. José Wilson, por exemplo, deixou para trás documentos, utensílios pessoais e todo vestuário. Nem mesmo o carro pôde voltar para buscar. O acesso às localidades está bloqueado desde o episódio das sirenes e a barragem continua em nível 2 de risco de rompimento.
A Vale contratou uma empresa alemã para emitir novos laudos sobre a estabilidade da barragem em Barão de Cocais. As conclusões não foram divulgadas pela empresa, mas resultados preliminares mostraram que a situação de insegurança permanece. Enquanto o cenário se mantém, a empresa não pode dar início aos trabalhos de descomissionamento, ou seja, não pode esvaziar a estrutura.
Enquanto estão em hotéis, os moradores também não podem conviver com seus animais. A Vale tem tratado e disponibilizou equipes veterinárias para o monitoramento dos bichos. Em meados de fevereiro, o Ministério Público cobrou a retirada imediata dos animais das comunidades esvaziadas e encaminhamento para uma fazenda alugada pela mineradora.
A barragem
A barragem Sul Superior é uma das dez estruturas alteadas a montante inativas que a Vale pretende descomissionar em todo Brasil. O pano de desativação foi anunciado pela empresa em 29 de janeiro. A barragem recebia os rejeitos da produção da mina de Gongo Soco, desativada pela empresa em 2016.

