Site icon DeFato Online

As pachecadas de Rodrigo

As pachecadas de Rodrigo

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A política parece uma dimensão paralela, um mundo onde se vive à parte. Algumas personagens deste segmento social se assemelham a entidades de outra dimensão cósmica. São seres sobrenaturais que se manifestam repentinamente (ou a cada quatro anos). Não se sabe de onde vêm e nem o porquê do súbito aparecimento na dura realidade dos mortais comuns, onde se paga impostos e se come o pão que o diabo amassou para exercitar a arte da sobrevivência.

Um exemplar de espectro na política nacional tem nome e sobrenome: Rodrigo Otavio Soares Pacheco. O sujeito deu as caras inopinadamente nas montanhas das Minas Gerais. Não é natural destas bandas. O nosso “herói” é um produto importado de Porto Velho, capital de Rondônia. Aqui não se fala, portanto, de um mineiro clássico. Não é usual a variedade linguística “uai” em seu vocabulário. E isto é um diferencial notável.

O tal espírito aleatório tem apenas 48 anos de Idade. É, portanto, ainda muito jovem. O cara jamais ocupou cargo público antes de aterrissar nas alterosas. Em certo tempo, exerceu exclusivamente a profissão de advogado, de fato e direito. Mas, de repente, decidiu se aventurar no fascinante universo da vida pública. E bingo! Elegeu-se deputado federal.

Pacheco ficou em Brasília durante quatro anos. Neste período, transitou com rara elegância pelos corredores do baixo clero da Câmara. Nada produziu de útil. No capítulo seguinte da história, aconteceu a bizarrice das bizarrices. O “Ilustríssimo” e desconhecido parlamentar conquistou o direito de representar Minas Gerais no Senado da República. “Cê tá doido, sô”! Exclamariam alguns mineiros, mais uma vez, exibindo o seu maravilhoso dialeto. E pasmem! O malabarista Rodrigo recebeu o aval de três milhões de eleitores para desempenhar a empreitada. Nem Jesus Cristo seria capaz de tão complexo milagre. Convenhamos. É muito mais fácil transformar dois peixes em um cardume com cinco mil. Que circunstância mística possibilitou tão estrondoso êxito de um fantasma nas urnas? Esta é inexplicável pachecada.

O ”mineiro” de Porto Velho manteve-se oito anos no Senado. E o mais incrível. Ocupou o cargo de presidente da “egrégia casa” (que expressão mais ultrapassada) por duas legislaturas. A situação é estapafúrdia. Talvez o PT e cia. consigam desvendar o real caminho das pedras deste advogado político, ou vice-versa. E tomem pachecadas.

Rodrigo tenta, de todas as formas, imitar o jeito, trejeito e modo de agir das velhas raposas mineiras. Conversa cadenciadamente, anda vagarosamente e fala com voz quase inaudível. O seu discurso é  um  sussurro. Mas há padrão para se comparar este “doutor” com Tancredo Neves, Magalhães Pinto, Juscelino Kubistchek, Aureliano Chaves ou José Maria Alckmin, por exemplo? Claro que não.  Colocar todos esses atores no mesmo palco  com  Pacheco  seria  monstruosa  desonestidade intelectual. Esta tentativa de mistura demonstra total desconhecimento da história e tradição da terra dos inconfidentes.

Veja bem. A função de senador tem importância exponencial, já que é responsável pela defesa dos interesses dos estados federativos na União. Então, é hora da pergunta fatídica. Qual a realização mais relevante  de Pacheco em benefício do seu estado adotivo? Ninguém — em sã consciência ou  de supetão — responderá  esta indagação básica. Ao que tudo indica, Rodrigo permaneceu oito anos em Brasília apenas pachecando.

Nesta altura do campeonato, o ex-presidente da câmara alta conta com três alternativas para o próximo ano: tentar manter-se no Senado, disputar o governo de Minas ou sair de cena. Que dúvida cruel. Na verdade, o sonho maior deste causídico é se tornar ministro do STF. Tem chance. O decano Gilmar Mendes deixa a Corte em dezembro de 2030. Casualmente, Pacheco pode até se dar bem no Supremo. Afinal, tem fama de competente profissional do Direito. Se for para o bem de todos e felicidade geral das Gerais, que enterre uma toga nos vastos ombros. Virar “sinistro” do STF pode ser a melhor alternativa para Rodrigo. Eis aí uma pachecada de mestre.

Sobre o colunista

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião do portal DeFato Online.

Exit mobile version