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Barrados: brasileiros que recorreram a outros países para conseguir visto dos EUA

vistos

(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Com a pandemia do novo coronavírus, muitas fronteiras se fecharam para o Brasil ou estabeleceram limites na hora de autorizar quem poderia, ou não, efetuar deslocamentos internacionais. Algo que afetou, ou alterou de alguma forma, o roteiro de viagens de inúmeros brasileiros que precisam sair do país para fazer intercambio ou trabalhar. Com exceção apenas de alguns estudantes e solicitantes que se encaixam no Número de Identificação de Estrangeiros (NIE). 

A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, por exemplo, interrompeu seu funcionamento logo no início da pandemia, em 17 de março do ano passado. Desde então, não retomou as atividades. Assim, a maioria dos viajantes nacionais, com datas agendadas para começar intercâmbio profissional nos EUA, que ainda contavam com a tão sonhada aprovação do visto, precisaram adotar novas medidas para cumprir com os prazos estabelecidos. 

Entre as alternativas encontradas por muitos brasileiros está a tentativa de retirada do visto em países que ainda estavam abertos para o Brasil, ao mesmo tempo que emitiam o documento para os EUA. Dessa maneira, Chile, Equador e Belize se tornaram alguns dos destinos escolhidos, como explica Raquel Cortes Souza. Sócia administrativa e financeira da Faustino, uma agência de suporte em emissão de vistos, ela conta que tais locomoções se intensificaram nos últimos meses.  

“É uma cultura que aparenta ser nova, mas na verdade sempre foi muito comum. Alguns solicitantes consideram mais fácil ter o visto aprovado em outros países. Entretanto, a pandemia intensificou esse movimento devido a oferta de vagas, para estrangeiros, em alguns consulados e embaixadas. Enquanto, aqui no Brasil, as portas permaneceram fechadas para os mesmos atendimentos”, detalhou Raquel Cortes. 

O Equador foi o primeiro país em que agência auxiliou brasileiros no processo de adquirir o visto. No entanto, como a oferta de vagas era menor do que no Chile, a maioria dos solicitantes escolheu agendar suas entrevistas em terras chilenas. No total, a agência já atendeu mais de 700 pedidos de autenticação fora do território nacional.

“Essa quantidade é a soma de vistos de diferentes tipos como de estudantes, intercambistas e de trabalho. Realizamos essa assessoria em lugares como Belize, Chile, Coreia do Sul, Equador, Holanda, Honduras, Panamá, Paraguai e Nicarágua”, destacou Raquel.

Mudanças no Cenário

Contudo, o status de viagem de cada país pode mudar repentinamente. Antes da pandemia, os solicitantes de visto podiam escolher qualquer consulado ou embaixada norte-americana, em qualquer país do mundo, para solicitar o seu carimbo estadunidense. Porém, tal política sofreu alterações durante o período. 

Raquel Cortes discorre que com o aumento dos casos de Covid-19, o surgimento das novas variantes e outras burocracias foram determinantes para que “cada consulado e/ou embaixada passasse a exercer sua própria autonomia na hora de decidir se aceitam, ou não,  o processo de estrangeiros. Alguns aceitam e depois param, outros recusam de cara. Não há um motivo específico para as organizações pararem de receber  brasileiros”, comenta.

Chile

Em razão da receptividade e flexibilidade do Chile, muitos brasileiros entraram com pedido de visto na embaixada americana do país. De acordo com a Raquel, com o assessoramento da agência, foram aprovadas cerca de 400 solicitações. 

Conquanto, no dia 1° de abril deste ano, o governo chileno endureceu as medidas restritivas contra a Covid-19 e anunciou o fechamento das fronteiras, com o intuito de conter a propagação do vírus. Assim, no dia 5 do mesmo mês, as balizas se trancaram para o mundo e o que era para durar 30 dias, já persiste há quase 3 meses. 

Mesmo assim, inúmeros brasileiros decidiram seguir com os planos de ir ao Chile, com ou sem agendamento de vistos. O medo de não garantir o tão sonhado carimbo americano, falou mais alto. 

“Os solicitantes de visto que ainda estão lá, ficaram por opção, na esperança de um reagendamento de sua entrevista. Para alguns, a espera foi bem longa, tivemos clientes que permaneceram no Chile por mais de 50 dias aguardando um reagendamento”, afirmou Raquel.

Incentivo e coragem

É o caso da intercambista Paula Lorena dos Santos, solicitante do visto J1 de au pair (intercâmbio cultural para adquirir fluência no idioma por meio do trabalho como babá). Ela teve seu agendamento no Chile cancelado e, logo em seguida, descobriu que as fronteiras do país iriam se fechar. Foi o estímulo que ela precisava para seguir viagem. Fora os 14 dias de quarentena obrigatória, ela teve de esperar mais 38, até que finalmente tivesse o visto aprovado.

“Foi um sopro de coragem, misturado com desespero. Eu tive muito medo das fronteiras não abrirem a tempo de eu ir no mês de maio. Então, quando comentei sobre essa possibilidade com a minha “host family”, a família com a qual trabalho aqui nos Estados Unidos, decidimos tentar. Até porque sabíamos da chance de adiantar o visto. O que acabou não acontecendo, e tive que ficar 52 dias no chile”, relatou.

Paula Lorena, na Cordilheira dos Andes, durante a temporada em que esteve hospedada no Chile. Foto: Arquivo Pessoal

Paula também disse o quanto a experiência no país acabou sendo mais positiva do que ela imaginava. “O Chile é um país hospitaleiro, tive uma temporada muito boa. Não senti medo. Também achei super interessante a forma como a população chilena respeita as regras de pandemia e distanciamento social. Os finais de semana eram extremamente silenciosos e as ruas sempre vazias”.

Empática à situação da maioria dos brasileiros presentes no país, a Embaixada Americana do Chile buscou proporcionar agendamentos emergenciais, como no caso da Paula. Porém, também foram necessárias algumas mudanças nas políticas de solicitação de vistos do país. 

A embaixada americana no Chile mudou seu posicionamento sobre o atendimento de estrangeiros, pois diminuiu a oferta de vagas e priorizou o atendimento de cidadãos e residentes chilenos. Em determinado momento, mais de 60% das autenticações emitidas lá estavam sendo para brasileiros”, pontuou Raquel.

El Salvador

Se no Chile foi possível manter as esperanças, em países como Equador, Honduras e El Salvador a situação foi outra. Cancelaram os agendamentos e não deram nenhuma justificativa aos solicitantes. El Salvador, por exemplo, foi um dos casos mais críticos, conforme situa o intercambista John Peterson. Solicitante de J1, ele já estava olhando passagem, hospedagem e alimentação, quando o país disse que não receberia nenhum estrangeiro. Ele já havia pagado a taxa de solicitação do documento no país: U$ 160, o equivalente a R$ 750, no Brasil.

“A sensação foi péssima, fiquei muito frustrado. Aquela era minha última alternativa. Então, tinha colocado todas minhas fichas em El Salvador. Óbvio que também teve um sentimento de revolta, pois a taxa da entrevista do visto, já havia sido paga. A embaixada americana havia aceitado nossa presença naquele lugar, e simplesmente do dia pra noite eles cancelaram. Na minha opinião isso é muito injusto, pois se não podiam receber estrangeiros lá, não deveriam aceitar no sistema que fizéssemos o cadastro e efetuássemos o pagamento. O mínimo que poderia ter sido feito era aceitar quem já havia feito o agendamento ou pelo menos reembolsado o valor pago”, desabafou. 

Especulações entre os intercambistas que buscaram El Salvador como opção apontam que o aumento no número de casos da Covid-19, bem como o surgimento da variante de Manaus, sejam os principais fatores para o fechamento do país para brasileiros. Vale ressaltar que, antes de março, algumas pessoas já haviam tido a solicitação aprovada.

Brasil

Em decreto divulgado no dia 27 de abril deste ano, pelo Secretário de Estado, foram definidos perfis considerados  “national interest exceptions”, exceção de interesse nacional, que poderão embarcar para os Estados Unidos a partir do dia primeiro de agosto, direto do Brasil. Um dos perfis em destaque é o de estudantes, solicitantes F1, que estão autorizados a embarcar sem a necessidade de quarentena, a partir de 30 dias antes do início das aulas, desde os estudos comecem à partir do dia 1° de agosto.. 

Para estes perfis os agendamentos de autenticação já estão acontecendo e podem ser efetuados a partir da terceira semana do mês de junho.

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