Habemus papam! Anunciou o cardeal protodiácono Dominique Mamberti, no início da tarde de 8 de maio, por volta das 14h. A Praça de São Pedro estava apinhada. Havia muita euforia na área. Terminou, naquele momento, um dos mais curtos conclaves de todos os tempos. O sucessor de Francisco foi definido em 48 horas. E, para variar, deu zebra. O cardeal Robert Francis Prevost — até então um desconhecido americano com cidadania peruana — apresentava desempenho irrisório nas casas de apostas.
Um panorama mítico é certo. A inspiração do eleitorado dos sumos pontífices vem de uma pomba. O tal Espírito Santo se manifesta na forma desta ave. Este bípede — nas condições normais de temperatura e pressão — é nojento e encrenqueiro. Conserva certa suavidade apenas em imagens religiosas. Mas, seja como for, o pássaro tem influência decisiva na escolha dos porta-vozes de Jesus Cristo.
Prevost adotou o apelido “Leão XIV”. Foi um cartão de visita animador. A princípio, o nome parece uma deferência a Leão XIII. Este velho felino foi CEO da Igreja Católica de 1878 a 1903 e promoveu uma revolução social cristã. Foi o primeiro sucessor de Pedro a demonstrar clara preocupação com a classe trabalhadora do planeta. É de sua autoria a encíclica Rerum Novarum (a Carta Magna dos Trabalhadores) — um documento que cobrava melhores condições de trabalho (e de vida) para os operários das insalubres fábricas da segunda fase da Revolução Industrial.
Mas, tudo bem. Leão XIV, no entanto, sinaliza estar mais para Pio XII. Explico o porquê deste pressentimento. O piedoso exerceu o papado durante a Segunda Guerra Mundial. O religioso, porém, muito pouco se manifestou sobre o banho de sangue. Manteve-se preferencialmente em obsequioso silêncio. Enquanto isso, o nazista Adolf Hitler aterrorizava a Europa, Ásia e parte do continente africano. Há uma situação bastante perturbadora nesta narrativa. O Santo Padre praticamente ignorou o holocausto. Não emitiu um só “pio” sobre o extermínio dos judeus nos campos de concentração.
E, então, existe alguma semelhança entre Pio XII e o novo Leão? Talvez. A história da humanidade é faceta sobre facetas. Nesta brecha, cabe a oportuna observação do filósofo Karl Marx. “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Hoje em dia, as cartas trocaram de mãos. Um israelita carniceiro pintou na face da Terra. O primeiro-ministro Benjamin “Bibi” Netanyahu patrocina claro genocídio na Faixa de Gaza. Uma geração inteira está sendo impiedosamente exterminada pelo facínora. Note-se. Genocídio, neste caso, rima com holocausto.
Mas, lamentavelmente, o atual líder do catolicismo ainda não fez nenhuma declaração contundente sobre o dramático cenário do Oriente Médio. Por sinal, também não tem nenhuma opinião formada sobre a forma como a Rússia esmaga a Ucrânia há mais de três anos. E por que o Bispo de Roma se comporta tão timidamente? Não sei. A resposta a esta indagação se encontra na ponta da língua do Espírito Santo. Provavelmente, o peso do ministério seja demasiado para os ombros do peruano. E mais. A eleição do pontífice provocou expectativas. As comparações com os antecessores são inevitáveis, até desproporcionais. Afinal, esperava-se a consagração de alguém semelhante a João Paulo II ou Francisco, apesar do paradoxo. Mas, mesmo com toda percepção negativa, nutro sincera simpatia por Leão XIV. Aqui se fala de um homem simples, generoso e humilde. Que a “pomba sagrada” ilumine os seus tortuosos caminhos.
P.S.: Mas Leão XIV não está sozinho na omissão. O genocídio contra o povo palestino é assistido passivamente pelos principais líderes do planeta. E pior. O conterrâneo Donald Trump é o principal cúmplice de Bibi na matança da Faixa de Gaza.
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.
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