A discussão sobre a falta de resposta do Executivo a indicações aprovadas pela Câmara Municipal de Itabira — instrumentos que servem para sugerir ações à Prefeitura, mas cuja execução não é obrigatória — levou o presidente da Casa, Carlos Henrique Silva Filho, o Carlin Sacolão Filho (Solidariedade), a cobrar compromisso dos vereadores com a futura destinação de recursos das emendas impositivas para atender demandas da população.
A manifestação ocorreu durante a reunião ordinária realizada nesta segunda-feira (22), em Senhora do Carmo, durante a análise de três indicações apresentadas pela vereadora Jordana Madeira (PDT) para melhorias na infraestrutura do distrito.
As propostas tratam da reconstrução da ponte de acesso à Comunidade dos Formigas, melhorias em um trevo do distrito e intervenções em um trecho da rodovia AMG-1240 considerado perigoso. Ao defender as indicações, Jordana cobrou providências para demandas que, segundo ela, aguardam solução há mais de um ano. Outros vereadores também questionaram a demora do Executivo em responder e executar solicitações encaminhadas pela Câmara.
O debate, entretanto, ganhou um tom mais acalorado quando os vereadores Luiz Carlos de Ipoema (Podemos) e Bernardo Rosa (PSB) trocaram críticas sobre prioridades da administração municipal, limitações orçamentárias e a realidade enfrentada pelos moradores da zona rural. A discussão acabou desviando o foco das demandas apresentadas e levou o presidente da Câmara a intervir.
“Vou pedir aqui aos colegas para se ater nas matérias, porque a gente está aqui na comunidade do Carmo, a gente tem moradores do Carmo aqui, e o que a gente menos quer ver aqui é discussão, tumulto e toma lá, dá cá”, afirmou Carlin Filho.
A cobrança ocorre poucos dias após a Câmara aprovar, em segundo turno, a Proposta de Emenda à Lei Orgânica nº 1/2026, que institui o orçamento impositivo em Itabira. A medida garante aos vereadores a possibilidade de indicar diretamente a destinação de uma parcela do orçamento municipal, com execução obrigatória pelo Poder Executivo. Pelas regras aprovadas, cada parlamentar poderá apresentar emendas correspondentes a até 1,2% da Receita Corrente Líquida (RCL) do município, o que, com base nos números atuais, representa algo entre R$ 700 mil e R$ 900 mil por vereador. Metade desse valor deverá ser destinada obrigatoriamente à área da saúde, enquanto o restante poderá ser aplicado em setores como infraestrutura, educação, assistência social, cultura e esporte.
Foi justamente com base nesse novo instrumento que Carlin Filho cobrou uma mudança de postura dos colegas. Para o presidente da Câmara, os vereadores passarão a ter condições concretas de direcionar recursos para demandas frequentemente apresentadas por moradores dos bairros e distritos, reduzindo a dependência exclusiva das indicações encaminhadas ao Executivo. “O que a gente precisa aqui é fazer um compromisso. Cada vereador que vai ter orçamento de quase um milhão no ano que vem, vamos fazer um compromisso aqui agora. Vamos apertar a mão dos moradores e fazer alguma coisa concreta e objetiva, do que ficar nesse toma lá, dá cá, que você é feio, que você é bonito. Ninguém aguenta mais isso”, declarou.
Em outro momento, o presidente criticou o excesso de embates entre os parlamentares e afirmou que a população espera resultados práticos do Legislativo. “Vamos tomar postura de parlamentar, porque o povo está aqui vendo uma reunião que a gente trouxe a estrutura toda da Câmara para o distrito para ficar vendo conversa vazia, colocando culpa não sei em quem, não sei onde”, disse.
Na avaliação de Carlin Filho, as constantes discussões entre vereadores têm prejudicado a imagem da Câmara perante a população. Ainda durante a fala, o presidente seguiu pedindo que os vereadores demonstrem mais disposição para buscar soluções práticas e menos interesse em disputas políticas. “Quer ajudar? Vamos enfiar a mão no bolso, vamos fazer também, em vez de ficar aqui apontando dedo. Está muito ruim a imagem da Câmara. Acho que está tendo muita discussão, muita acusação e pouca produtividade. Se a gente quiser fazer alguma coisa diferente aqui, vamos fazer um compromisso agora”, afirmou.
Na sequência, Carlin sugeriu que os parlamentares aproveitem os recursos que estarão disponíveis por meio das futuras emendas impositivas para atender demandas das comunidades. Em tom de desafio aos colegas, ele chegou a simular o que considera ser a postura ideal diante das reivindicações da população. “Ah, eu quero resolver o problema do Carmo? Eu tenho um milhão no ano que vem. Então eu já vou apertar a mão da comunidade hoje e dizer: vou mandar R$ 100 mil para fazer ponte, para fazer pinguela, para colocar telhado, para melhorar estrada. Vamos fazer o compromisso, porque a gente vai ter o recurso para isso”, declarou.
Para o presidente da Câmara, a chegada do orçamento impositivo representa uma oportunidade para que os parlamentares deixem de atuar apenas como intermediários de demandas e passem a ter participação direta na solução de problemas apontados pelas comunidades, especialmente aqueles que há anos aguardam resposta do poder público.
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