Dorival Junior sempre foi um técnico com bom cartaz entre os clubes da Série A, reconhecido pela seriedade do trabalho e pela eficiência que impõe em suas equipes. Mas isso poucas vezes se refletiu em conquistas. À exceção de estaduais, o treinador amargava 11 anos sem um título relevante. Pois bastou ele ter o qualificado elenco do Flamengo sob sua batuta para quebrar essa escrita.
A conquista da Copa do Brasil diante do Corinthians, na quarta-feira (19), passou muito pelas mãos de Dorival Junior. O treinador assumiu o Flamengo no início de junho, após a decepcionante passagem do português Paulo Sousa pela Gávea, e fez o simples. Escalou os melhores jogadores em suas devidas posições, rodou a equipe e deixou todo o elenco a postos. Assim, eventuais desfalques passaram a ser apenas ausências temporárias que não afetaram o modo de o time agir. Tanto é assim que a ausência do volante João Gomes na finalíssima nem foi sentida pelos rubro-negros.
É verdade que Dorival Junior meio que separou o elenco em duas equipes. Uma delas, a com os considerados titulares, virou “o time das Copas”, seja a do Brasil ou a Libertadores. A outra foi usada nesta reta final do Brasileirão. Mas não dá para chamar exatamente de reserva um time que tem Vidal e Everton Cebolinha.
Independentemente da nomenclatura, o Flamengo de Dorival Junior impôs um jeito de jogar, e muito graças ao tato do treinador. Com ele, Everton Ribeiro voltou a se destacar no meio-campo e Pedro conheceu sua fase mais artilheira.
Também é verdade que o Flamengo de Dorival Junior nunca foi exatamente brilhante; pelo contrário, muitas vezes foi capaz até mesmo de arrancar algumas vaias no Maracanã. Mas o time foi, desde sempre, o que se espera de um elenco milionário, montado por seus cartolas para vencer: foi competitivo, impositivo e capaz de ser mortal ao menor erro. Foi assim contra o Athletico na Arena da Baixada, nas quartas de final; foi assim diante do São Paulo, nos dois jogos semifinais. E foi assim nessa quarta-feira, diante do Corinthians no Maracanã.
O jogo
O empate sem gols no jogo de ida havia deixado a decisão sem nenhum grande favorito, mas à boca pequena todos no Rio – e provavelmente a maioria Brasil afora – davam como certo o título para o Flamengo. Afinal, o time jogava em casa, onde conta com ótimo retrospecto, e ia para a final com um elenco, entre titulares e reservas, mais qualificado.
A questão é que, do outro lado, tinha o Corinthians. E, ainda que reconhecesse as dificuldades, o time não estava disposto a ir para o jogo como mero coadjuvante. O técnico Vítor Pereira sabia que, assim como fora na primeira partida, era possível equilibrar forças com um time atento e bem postado. E desequilibrar com alguma surpresa.
A surpresa veio na escalação. Quando se esperava uma formação tradicional, o treinador optou por colocar o lateral Lucas Piton na vaga do meia Adson, recuar Fábio Santos para uma linha de três defensores e, assim, dar mais força ofensiva pelas alas.
O problema é que a estratégia começou a ruir com apenas seis minutos. Mesmo o povoado setor defensivo corintiano não foi capaz de evitar uma rápida troca de passes entre Arrascaeta, Everton Ribeiro e Pedro, que concluiu a jogada tocando na saída de Cássio. O gol que fez explodir o Maracanã foi seu 28º na temporada.
Também não funcionou porque Piton parecia em outra rotação. Ainda que Rodinei lhe concedesse generosos espaços pelo lado esquerdo, o lateral corintiano passou os primeiros 30 minutos sem conseguir concatenar as jogadas. Só foi se encontrar em campo na reta final.
Com o revés no placar e a demonstração de inoperância do primeiro tempo, Vítor Pereira desistiu da surpresa e retornou com o básico para a etapa final, com Adson no meio e com Fábio Santos de volta ao lado do campo.
A mudança surtiu efeito. O Corinthians passou os primeiros dez minutos no campo de ataque e conseguiu exercer alguma pressão. O que o time não conseguiu foi concluir, porque Roger Guedes não saía do flanco esquerdo, Yuri Alberto não saía do encalço de David Luiz, e Renato Augusto não conseguia espaço para seus chutes da entrada da área.
Mas a história da final começaria a mudar aos 30, quando Giuliano e Mateus Vital entraram em campo. Seis minutos mais tarde, foi Vital quem iniciou a jogada que culminou no gol de Giuliano, que alcançava Germán Cano na artilharia da Copa do Brasil e levava a decisão para os pênaltis.
Nos pênaltis, o torcedor do Corinthians começou em festa, após Cássio defender a cobrança de Filipe Luís. Fábio Santos, Giuliano, Renato Augusto, Yuri Alberto e Maycon também converteram, enquanto Fagner bateu a segunda no travessão. David Luiz, Leo Pereira, Everton Ribeiro, Gabriel Barbosa e Everton Cebolinha deixaram tudo igual. Aí, Mateus Vital isolou e Rodinei marcou o gol do título
Mais do que o tetracampeonato da competição, o título dá ao Flamengo uma vaga direta à fase de grupos da Libertadores do próximo ano e forra os cofres do clube com R$ 60 milhões em premiação – fora tudo o que se arrecadou nas fases anteriores. E coloca na história da competição o nome do Flamengo como o merecido campeão de 2022.

