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Compra de “cripto dólar” cresce no Brasil em meio ao vaivém do IOF e à consulta do BACEN sobre câmbio

Compra de “cripto dólar” cresce no Brasil em meio ao vaivém do IOF e à consulta do BACEN sobre câmbio

Foto: Pexels

O interesse do brasileiro por stablecoins, os chamados “cripto dólares”, como USDC e USDT, acelerou em 2025. A quarta edição do Panorama Cripto na América Latina, da Bitso, mostra que essas moedas atreladas ao dólar já responderam por 35% das compras no país no primeiro semestre, especialmente o USDC (24%) e o USDT (11%).

O dado reforça um movimento que vinha desde 2024 e ganhou força com o sobe e desce das alíquotas de IOF nas operações de câmbio. Ao mesmo tempo, decisões do Congresso e do STF derrubaram decretos que aumentariam o IOF, devolvendo, em parte, as alíquotas a patamares anteriores para remessas, cartões e outras operações.

Mesmo assim, a oscilação regulatória elevou a busca por alternativas mais baratas e rápidas para enviar e receber valores em dólar, e é aí que as stablecoins entram na rotina de parte dos usuários.

Por que o “cripto dólar” ganhou tração no Brasil em 2025

A combinação de custo, conveniência e velocidade explica boa parte da popularidade. Em remessas internacionais, a compra e o envio de stablecoins costumam ocorrer em minutos, com liquidação on-chain e sem a estrutura de tarifas do câmbio tradicional.

Hoje, a compra de uma stablecoin não é classificada como uma operação de câmbio e, por isso, não sofre incidência do IOF cambial, uma leitura jurídica sustentada enquanto o arcabouço regulatório específico não muda.

Segundo o tributarista Guilherme Peloso Araújo, como as stablecoins não são consideradas ativos financeiros pela legislação brasileira, pelo menos até agora, também não são afetadas pelo IOF no caso do câmbio.

Esse interesse também se alimenta do ciclo do mercado cripto. O bitcoin renovou recordes em julho e voltou a superá-los em agosto, em um ambiente de maior apetite global por risco.

A nova máxima acima de 124 mil dólares, registrada em meados do mês, recolocou o setor no centro das discussões e atraiu fluxo para soluções de “dólar digital” usadas no dia a dia. O mercado olha com atenção para instrumentos de derivativos como os futuros de Ethereum, nesse momento de liquidez e preço.

Ainda que sirvam a um público mais técnico, esses contratos são um termômetro do apetite a risco e ajudam a precificar custos de saída e entrada entre criptoativos e moedas fiduciárias, algo que influencia quem usa stablecoins para proteção cambial ou para transitar valores entre plataformas.

Dos dados à prática: O que mostra o relatório da Bitso

O Panorama Cripto registra uma guinada clara. No Brasil, a participação das stablecoins nas compras passou de 26% para 35% entre o fim de 2024 e o primeiro semestre de 2025. No recorte da corretora, USDC lidera no país, seguida de USDT.

Ao mesmo tempo, a Bitso também identifica a América Latina como um polo de adoção. A fatia de dólar digital chegou a 46% das compras na região no semestre. Em países vizinhos, a preferência muda. Na Argentina, por exemplo, USDT respondeu por 78% das compras, um reflexo do mercado local e da cultura de dolarização.

No Brasil, fica evidente o uso cotidiano de stablecoins e a preferência do investidor nacional por manter bitcoin como reserva. Essa combinação, moedas estáveis para transacionar e BTC para guardar, ajuda a entender por que brasileiros aceleraram o uso do cripto dólar no semestre.

Os dados das carteiras reforça a dupla vocação. Segundo o relatório, o Brasil é o mercado com maior concentração de BTC entre os analisados, o que sugere uso da criptomoeda como proteção patrimonial e investimento de longo prazo.

E o dólar cripto faz o papel de moeda de troca. Serve para compras em plataformas, envio de valores ao exterior ou manutenção de saldo pareado ao dólar sem enfrentar a burocracia do câmbio no varejo.

O pano de fundo de preços ajuda a explicar o comportamento. Em julho, o Bitcoin superou suas máximas anteriores e, em agosto, renovou o recorde acima de 124 mil de dólares. O rali aumenta a visibilidade do setor, eleva liquidez e consolida a percepção de que, em momentos de estresse local, parte do público recorre a criptoativos para fazer hedge de curto prazo.

IOF em 2025: o que mudou e o que pode mudar

O vaivém de regras pesou na decisão de muitos usuários. Em junho e julho, Congresso e STF suspenderam trechos de decretos que elevariam o IOF em operações de câmbio, restabelecendo alíquotas anteriores em remessas, cartões e outras modalidades.

A Agência Brasil detalhou que, com a derrubada, voltaram a valer parâmetros como 1,1% para compra de moeda em espécie e, em linhas gerais, percentuais que haviam sido reduzidos no desenho anterior.

Na cobertura econômica, também houve menção a 3,5% em remessas para contas pessoais e 1,1% para remessas classificadas como investimento, ilustração do quão confuso ficou o tema para o consumidor. O resultado foi um ambiente de incerteza que favoreceu soluções digitais com previsibilidade de custo.

Importante notar que a estabilidade dessas interpretações não é garantida. O Banco Central encerrou em fevereiro a Consulta Pública nº 111/2024, que discute a inclusão de prestadores de serviços com ativos virtuais no mercado de câmbio.

Se uma parte dessas operações vier a ser formalmente enquadrada como câmbio, especialistas avaliam que pode haver espaço para incidência de IOF em cenários específicos no futuro. O tema ainda depende de regulamentação secundária.

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