Contagem: marinheiro de primeira viagem quase derrota a “imbatível” Marília Campos
As últimas eleições municipais de Contagem quase produziram uma das maiores zebras eleitorais da história de Minas Gerais. Antes do processo, Marília Campos (PT) tinha amplo favoritismo para assumir a Prefeitura pela terceira vez. O pleito foi um dos mais concorridos do estado.
Dezesseis candidatos participaram da campanha. Contagem, com 400 mil eleitores, é o terceiro colégio eleitoral de Minas. Os resultados das urnas teriam um reflexo muito importante para Itabira. O ex-vereador Bernardo Mucida era primeiro suplente da então deputada Marília Campos.
O itabirano só assumiria uma vaga na Assembleia Legislativa se a petista saísse vitoriosa em Contagem. E Marília ganhou, mas foi no limite. Um advogado de 41 anos, que jamais disputou uma eleição, desbancou experientes políticos da cidade e foi para o segundo turno.
Felipe Maurício Saliba de Souza (Patriota) nunca havia se candidatado a cargos públicos. Apareceu e cresceu criticando os tradicionais políticos do maior município da Região Metropolitana de Belo Horizonte. E, até mesmo por isso, ele auto se define “outsider”. A disputa ficou muito acirrada na reta final.
O novato quase derrotou Marília, que se elegeu por uma diferença mínima de 1% dos votos. E, por muito pouco, Itabira não ficou sem um representante no legislativo mineiro. Na semana passada, Felipe Saliba visitou a DeFato e revelou todos os detalhes da mais estranha disputa eleitoral da história de Contagem.
Como e quando foi início de sua carreira na política?
Felipe Maurício Saliba de Souza: tudo começou em 2020 e, antes disso, eu nunca fui filiado a partido político e nunca ocupei cargo público. E, na ocasião, recebi um convite para ser candidato a prefeito de Contagem, que é o terceiro colégio eleitoral de Minas Gerais. A partir desse projeto de 2020, resolvi sair desse conforto da poltrona de casa e ir para a vida pública. Vale lembrar que Contagem é a terceira maior economia de Minas Gerais, mas é uma cidade muito mal cuidada, mal gerida. E eu sempre falo que não adianta a nossa vida estar boa, enquanto parentes, amigos e vizinhos estão em desconforto. Então, recebi esse convite e, com muita honra, disputamos uma eleição pela primeira vez. Não tenho nenhum familiar na política e, portanto, não tenho herança política. E essa eleição (de 2020) foi muito disputada, com a participação de 16 candidatos a prefeito. Mas conseguimos ir para o segundo turno e disputamos com Marília Campos, que já havia sido prefeita da cidade por dois mandatos. E foi a disputa mais acirrada da história da cidade. Com 94% das urnas apuradas, eu estava na frente com quatro votos de vantagem. Isso numa cidade com mais de 400 mil eleitores. No final, Marília ganhou com 1% dos votos.
E, vale lembrar que, no início do processo político, Marília Campos era ampla favorita para vencer as eleições. Um dos maiores favoritismo entre todos os candidatos a prefeito de Minas Gerais…
Felipe Saliba: a expectativa, inclusive, era uma possível vitória no primeiro turno. Mas nós levamos para as ruas um diálogo muito aberto e franco com a população, que se encontrava muito sofrida e, principalmente, desanimada com a política local. E, a cada dia, fomos conquistando a confiança do eleitor. Andamos muito pela cidade e, quanto mais andávamos, mais ficamos conhecendo os problemas da cidade. O diálogo (com a população) nos dava a esperança de fazer algo pela cidade.
Você estreou na política nas últimas eleições municipais. Mas, antes disso, qual era a sua atividade na iniciativa privada?
Felipe Saliba: sou advogado e atuo como advogado. Eu tenho um escritório de advocacia em Contagem e tenho uma unidade também aqui em Itabira. Temos unidades, que funcionam na parte de trânsito e na parte jurídica, espalhadas por vários pontos de Minas Gerais. Eu sempre me dediquei às minhas empresas e à advocacia especificamente.
E como, de repente, veio um flash na sua cabeça e o senhor decidiu candidatar-se a prefeito? O senhor tinha certeza de sua competitividade ou iria participar apenas para compor a paisagem?
Felipe Saliba: o interessante é que, quando me convidaram para participar das eleições, eu logo respondi: nunca disputei uma eleição, nunca pedi votos. Então, eu quis saber qual era a expectativa, qual era a estratégia. Era para ir apenas disputar espaço ou era para sair e ganhar as eleições? Eu estou disposto a fazer o que for melhor. Mas se for uma candidatura apenas para demarcar espaço, eu até ajudo na formação do grupo, mas eu não topo colocar o meu nome na disputa. Agora, se for para disputar a eleição, com vontade de ganhar, aí eu coloco o meu nome à disposição. O eleitor está muito desacreditado com a política, achando que a política é uma coisa ruim. Mas, na verdade, a política é boa. Nós temos, às vezes, o mau político, uma prática política indevida, mas eu fui construindo uma política com o eleitor. E, não podemos esquecer que o voto é a principal ferramenta de transformação à disposição do eleitor. E a gente precisa fazer esse discurso para conseguir algo diferente na cidade.
Então, diante desse seu posicionamento, até questionando a forma de se fazer política atualmente, o senhor se definiria um” outsider”?
Felipe Saliba: até mesmo por eu nunca ter exercido um cargo público ou ter participado de algum projeto político, mas tendo apenas o objetivo de levar a nossa experiência de gestão da vida privada para a vida pública. O nosso objetivo é buscar uma alternativa para se desburocratizar essa política dos órgãos públicos. Muitas vezes, os órgãos públicos têm muitas dificuldades para fazer políticas públicas chegarem aos locais mais necessitados. Então, nesse aspecto, eu sou um candidato outsider da política lá de Contagem.
Mais precisamente, em que aspecto o seu discurso tanto encantou o eleitorado de Contagem, a ponto do senhor receber uma votação tão expressiva?
Felipe Saliba: primeiro foi ter levado um discurso de compromisso com a retidão e a verdade. Eu sempre deixei muito claro que nós não estávamos ali para fazer uma promessa política. Nós estávamos ali para fazer compromissos com a população. Nós tivemos uma luta muito grande em face da cobrança do IPTU residencial na cidade. Contagem é uma cidade que há 27 anos não cobrava o IPTU residencial, de moradia. Só havia a cobrança de IPTU para estabelecimentos comerciais e industriais. Essa cobrança (de IPTU residencial) retornou em 2016 e a gente lutava para devolver esse direito adquirido para a população de Contagem. Então, até mesmo na condição de advogado, nós sempre lutamos pela redução dessa carga tributária, que é uma forma de retirar uma melhor condição de vida da população. Então, as altas cargas tributárias dificultam para que o cidadão comum tenha uma qualidade de vida melhor. E isso (redução da carga tributária) também é uma grande forma de se ter uma melhor redistribuição de renda. Quando um cidadão deixa de pagar imposto, ele passa a usar aquele dinheiro melhor para a família, oferecendo condições melhores de saúde, educação e alimentação. Então, essa foi uma bandeira muito importante da nossa campanha.
Então, pelo que se percebe, caso se elegesse, a sua primeira ação seria uma alteração no procedimento de cobrança do IPTU?
Felipe Saliba: Esse era o nosso compromisso na cidade. O nosso primeiro ato público seria devolver essa isenção do IPTU residencial para a população de Contagem. Em Contagem, nós temos cinco tipos de IPTU: comercial, industrial, profissional liberal e para imóveis acima de dois lotes. Todos esses pagavam. A isenção era para imóveis inferiores a dois lotes ou 720 m. Então, essa ação seria em benefício das pessoas mais carentes.
O senhor está filiado ao Patriota. Houve alguma motivação específica para o senhor ter optado por essa agremiação partidária?
Felipe Saliba: eu me identifico com as bandeiras que o Patriota defende. Sem dúvida, a gente fez um estudo das principais defesas do partido e a gente é guiado pelo que foi convencido. Então, o Patriota foi a nossa escolha baseada nas bandeiras defendidas pelo partido.
E, nesse caso, seria um antagonismo a Marília Campos, que tem um discurso mais socialista, pois se trata de uma petista histórica. E o senhor, naturalmente, tem um discurso liberal, e, portanto, se apresenta como um contraponto ideológico. É isso mesmo?
Felipe Saliba: é exatamente isso. A gente defende uma política com menos presença do estado no controle, de uma forma mais liberal. Essa situação provoca um desenvolvimento maior da cidade.
E, na sua avaliação, qual é o principal problema de Contagem na atualidade?
Felipe Saliba: Contagem hoje tem uma arrecadação de R$2.5 bi. A cidade faz divisa com a capital mineira e se encontra geograficamente muito bem localizada. A BR040 e BR381 cortam a cidade. Mas nós temos inúmeros problemas em Contagem. A área da saúde, por exemplo, tem um déficit de atendimento. É (uma cidade) extremamente deficitária. Temos inúmeras obras paradas ou inacabadas. Temos também problemas no transporte público. Então, são vários e vários problemas. Mas infraestrutura, saúde e transporte público são os principais problemas.

