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Crianças lançam jornal artesanal em Santa Maria de Itabira e conquistam leitores com humor e olhar crítico

Foto: Reprodução/DeFato

O que começou como uma brincadeira entre amigos virou projeto, ganhou circulação nas ruas e virou assunto na cidade. Criado por três estudantes de 11 e 12 anos, o jornal artesanal “O Bárbaro” transforma episódios do cotidiano de Santa Maria de Itabira em notícias carregadas de humor, crítica e criatividade, tudo escrito à mão, sem filtros e sem medo de opinar. Os responsáveis pelo jornal são os amigos João Torres Bretas (11), Leandro Jorge Gomes (12) e Mateus Martins de Oliveira (12), alunos da Escola Estadual Agenor Guerra. Juntos, eles escrevem, desenham, recortam imagens, montam as páginas e ainda saem às ruas para vender os exemplares pela cidade, principalmente na feira municipal, nos dias de sábado.

O projeto surgiu de maneira espontânea e crítica. O garoto Mateus Martins conta que a ideia apareceu depois de um período em que ele ficou restrito à programação da TV aberta, diante de notícias excessivamente violentas. A partir daí, resolveu brincar com os amigos de criarem um próprio jornal, relatando aquilo que seria do cotidiano e interesse do trio. 

Inicialmente, o jornal tinha outro nome: “O Nótícíáríó”. A escrita propositalmente exagerada, com repetidos acentos, veio através da dúvida sobre como seria a grafia correta. Em tom irônico decidiram colocar o sinal gráfico em todas as vogais da palavra, fazendo uma sátira direta ao estilo do noticiário tradicional. Com o tempo, no entanto, os meninos decidiram mudar o título. A escolha por “O Bárbaro” veio da vontade de reforçar a ideia de algo fora do padrão, mais ousado e menos formal. “É porque é diferente, fora do normal”, explica João Torres Bretas (11), destacando que o novo nome combina melhor com o humor e a identidade do jornal.

Parte das notícias publicadas tem como base fatos reais que circulam na cidade. Algumas delas, segundo João, são retiradas da DeFato Online. A partir dessas informações, os meninos adaptam os textos ao estilo do “O Bárbaro”, acrescentando comentários, críticas e observações próprias. “A gente pega a notícia e muda do nosso jeito”, resume João, reforçando que o jornal não reproduz o conteúdo de forma literal, mas o transforma a partir do olhar deles.

A estrutura do “O Bárbaro” foge completamente dos padrões tradicionais. Todas as páginas são escritas à mão por João, que também ilustra, recorta imagens impressas, monta a diagramação e, a partir da terceira edição, passou a fotografar para o jornal. “Se eu erro, eu passo corretivo ou recorto a folha e coloco outra atrás. Não tem muita preocupação em ficar tudo certinho, porque o jornal é isso mesmo”, explica. A estética artesanal é proposital e faz parte da identidade do projeto. Até a capa da edição mais recente surgiu da reutilização criativa de um enfeite de Halloween da escola: uma caveira.

Apesar do tom leve e bem-humorado, o jornal também abre espaço para críticas diretas ao cotidiano da cidade. Uma das reportagens preferidas de João questiona a eficácia de uma passeata realizada no município. “Não resolveu nada. Foi só andar no sol e não mudar nada depois”, afirma, sem rodeios. 

“Se passeatas resolvessem ao menos alguma coisa, Santa Maria já era a capital do universo”, alfineta o garoto João Torres. 

Foto: Guilherme Guerra/DeFato

Já Leandro Jorge Gomes (12), o “Filtro”, destaca o lado divertido da experiência. Para ele, a melhor matéria foi a história de um amigo que caiu em um córrego na roça. “A gente escreve pra se divertir e pra mostrar as histórias daqui”. Além disso, sair para vender o jornal ajudou o garoto a vencer a timidez. “Me ajudou bastante. Agora fico mais solto para falar com as pessoas”.

A recepção do público veio rápido. A primeira edição chamou atenção dentro da escola, despertando o interesse de professores, funcionários e alunos. A segunda, lançada durante as férias, levou os meninos a expandirem a circulação para além do ambiente escolar. De bicicleta, eles passaram a vender exemplares. Hoje, o jornal é vendido a preços simbólicos, com pagamento de R$2 em dinheiro ou Pix. O retorno financeiro é pequeno, mas, segundo os garotos, o reconhecimento da comunidade compensa: risadas, comentários e incentivo constante.

Para a mãe de João, Gabriela Alvarenga Torres, o envolvimento do filho com leitura e escrita não é surpresa. “Ele leu com três anos e meio. Desde então, nunca mais parou”, conta. O gosto pelos livros acabou influenciando toda a turma em que João estuda. “Eles têm um caderno de redação que todo mundo gosta de escrever. É uma turma diferenciada, muito estimulada também pelo professor de português”. Gabriela, que é professora de Geografia na E.E Agenor Guerra, conheceu o jornal quando reconheceu um desenho do filho em cima da mesa da sala dos professores. Foi ali que soube que os meninos estavam produzindo um jornal com críticas ao noticiário da TV aberta, especialmente ao excesso de notícias violentas. Para ela, o projeto chama atenção pelo olhar crítico dos autores. 

“São críticas legais de se ver em meninos de 12 anos. Eles questionam, refletem. Isso a escola sempre tenta estimular”.

A mãe também destaca o caráter coletivo do projeto. “Apesar de o João escrever mais, cada um tem seu papel importante. Um escreve, outro ajuda com ideias, outro conta histórias. É um trabalho em grupo”. Para Gabriela, o O Bárbaro acompanha um novo momento vivido pela cidade. “Santa Maria estava muito abatida desde a enchente de 2020. Agora está renascendo. E o jornal vem junto com isso”.

Enquanto trabalham na terceira edição, os três amigos seguem firmes na proposta que conquistou leitores: papel, caneta, humor afiado e atenção ao que acontece ao redor. “Leia o nosso noticiário”, convida João. “Leia O Bárbaro”.

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