Assim como fizeram nos últimos dias o delegado da Polícia Civil, Helton Cota, e o promotor de justiça Jorge Victor, além de alguns dos seus colegas de Câmara em outros momentos, o vereador Rodrigo Diguerê (PTB) cobrou a presença de um presídio em Itabira na reunião desta terça-feira (8). Para fazer seu apelo, o parlamentar recorreu ao caso mais comentado do último final de semana no município: a empreitada de quase 24 horas do itabirano Fábio Ferreira Martins, o “Fabinho”, em cima de um poste de energia elétrica.
Para Diguerê, o ato desesperado foi uma forma de “protesto silencioso” pela ausência de um presídio em Itabira e todas as consequências trazidas por ela.
“Queria deixar registrado que o fato de uma pessoa ficar mais de 24 horas em cima de um poste, correndo risco de vida, deixando uma comunidade prejudicada por isso, foi uma forma de protesto silencioso. Além de fugir da sua prisão, eu acredito também que houve ali um manifesto de medo de ir para longe, preocupação de ficar longe da família”.
Segundo o vereador, que também é advogado, o tema deve ser uma bandeira de diversos setores do município. Especialmente da Polícia Civil, cujo trabalho de investigação fica prejudicado, como ressaltou recentemente o delegado Helton Cota. Na visão de Diguerê, uma cidade do porte de Itabira “não pode ficar sem um presídio”.
“Foi algo que trouxe várias interpretações. Eu, como advogado, vou falar no campo do Direito, é algo que realmente faz muita falta para a classe dos advogados um presídio aqui na cidade. É uma bandeira que não tem um dono, mas é de todo mundo. É da sociedade itabirana, da pessoa apenada – que precisa cumprir a pena próximo de casa, porque é um direito constitucional – uma bandeira dos advogados, que não têm que ficar transitando e aumentando o custo com a família do preso. Ela é, principalmente, das polícias que precisam sair do trabalho investigativo e preventivo na nossa cidade para fazer o transporte de presos, que não é a função deles”.
Meme sem graça
Correligionário de Diguerê, Sidney do Salão (PTB) lamentou o caso do último fim de semana, afirmando que Itabira “virou um meme”. O petebista também apoiou o discurso do colega e protestou contra a grande distância entre os presidiários itabiranos e seus familiares.
“A cidade virou um meme né, gente… mais de 300 famílias ficaram sem luz. A gente ainda vê a negligência com os familiares (dos presos), porque é muito longe a distância (para os presídios). E tem mães que mandam, e tenho certeza que vários vereadores já receberam, mensagem no WhatsApp pedindo ajuda porque estão há seis meses sem ver o filho. Porque não tem condições nem de pagar passagem. E aí teve que acontecer um protesto mesmo, porque ele subiu no poste e falou que não iria descer, com medo de ser preso e ir para outra cidade. E a gente não vê nenhuma movimentação da Assistência Social para recolher essas famílias”.
Além da Secretaria de Assistência Social, Sidney do Salão ampliou suas críticas ao prefeito Marco Antônio Lage (PSB) e seu colega de Legislativo, Bernardo Rosa (Avante), ausente na reunião de ontem da Câmara. Na visão do parlamentar, os discursos de Bernardo favoráveis ao presídio são um “faz de conta”.
“O prefeito nem fala mais desse assunto, não faz parte do assunto dele. E olha que foi ele que recusou o presídio. O vereador Bernardo Rosa não está aqui hoje, de vez em quando ele faz de conta que está lutando pelo presídio, mas a gente não vê aquela luta mais, aquela sede, aquele sangue no olho que ele tinha. E ele teve a caneta na mão lá na Secretaria de Governo, poderia fazer um movimento bem maior, sentar com o prefeito e falar ‘prefeito, o negócio é o seguinte, vamos resolver esse negócio agora, o lote está aqui, já olhei os terrenos’. Não! Tem que ir pra Globo, o cara tem que subir no poste e ficar 24 horas para a gente entender”.
Indignação
Presidente da Câmara, Heraldo Noronha Rodrigues (PTB) também pediu atenção especial aos familiares dos presidiários enquanto o impasse não for resolvido. De acordo com ele, a falta de contato entre as partes pode até fazer com que os detentos voltem “piores” à sociedade.
“Que cobre da Vale, da Prefeitura. (Não sei se) É o prefeito que não quis o presídio, se é o governador que talvez deu o terreno, ou o prefeito deu o terreno e eles não construíram. Mas até que construa esse presídio, que se dê o suporte aos parentes dos presidiários. Eles não merecem ficar mendigando, porque eles não tem culpa. E essas pessoas que estão dentro do presídio vão voltar para a comunidade depois, e sem um apoio e um afeto familiar irão voltar piores. Vocês estão fazendo as pessoas ficarem piores”.
Heraldo disse, ainda, ter pedido auxílio à secretária municipal de Assistência Social, Nélia Cunha, na aquisição de um veículo. Mas a resposta não foi das mais agradáveis. “Eu pedi a Nélia carro hoje para atender uma presidiária. Ela falou que quem libera carro é o Gabriel Quintão. Não quero nem saber se é o Gabriel Quintão, o João, Mané ou o Zé. Quem tem que cuidar disso é a ação social. Gosto muito dela (Nélia), mas tem que resolver é na ação social, eles que devem dar o suporte”, protestou, de forma indignada.
A reportagem da DeFato procurou Nélia Cunha para confirmar a procedência do diálogo, mas ela nos solicitou que fizéssemos contato com a assessoria de comunicação da Prefeitura de Itabira. No entanto, não obtivemos nenhuma resposta até a publicação desta matéria.

