Durante muito tempo, o divórcio foi tratado como fracasso. Não como fracasso do casal, mas da mulher. Como se ela não tivesse sido suficiente, como se não tivesse sabido manter o relacionamento, como se a responsabilidade por sustentar um casamento fosse exclusivamente dela.
Essa lógica não desapareceu. Ela apenas ficou mais silenciosa.
Ainda hoje, muitas mulheres carregam o peso de uma culpa que não é só delas. São julgadas por se separarem, por não suportarem mais, por escolherem sair de relações que já não oferecem respeito, estabilidade ou segurança. Como se permanecer fosse sempre a melhor escolha. Como se sair fosse desistir.
Mas permanecer também tem um preço. E ele é alto.
Viver em um ambiente instável, tenso, onde tudo precisa ser medido para evitar conflitos, não afeta apenas a mulher. Afeta os filhos, que crescem tentando não incomodar, se responsabilizando pela paz da casa e aprendendo, muitas vezes, que amor exige silêncio, adaptação e renúncia constante.
Esse modelo adoece. E por muito tempo foi tratado como normal.
O que começou a mudar não foi apenas a lei. Foram as mulheres.
Hoje, mais mulheres buscam autonomia, informação e clareza sobre os próprios direitos. O divórcio deixou de ser apenas um fim e passou a ser, em muitos casos, uma escolha de proteção. Uma decisão de interromper ciclos que não deveriam ser sustentados.
A legislação avançou, trouxe instrumentos, ampliou garantias. Mas existe uma diferença entre o que está escrito e o que acontece na prática. Muitas mães continuam sobrecarregadas, ainda enfrentam dificuldades para receber pensão, lidam com desequilíbrios financeiros e com conflitos que se prolongam muito além do necessário.
A estrutura mudou, mas o comportamento social ainda resiste.
Existe um ponto que precisa ser encarado com mais honestidade. A sociedade ainda espera que a mulher sustente o casamento, mas também a julga quando ela decide sair dele. Espera que ela aguente, mas critica quando ela rompe. Cobra equilíbrio, mas não divide o peso.
E isso não é contradição. É desigualdade.
Divorciar não é apenas encerrar um vínculo. É, muitas vezes, um ato de ruptura com tudo o que foi imposto como obrigação. É dizer que não é mais aceitável viver em um lugar que adoece.
E, ao fazer isso, muitas mulheres ensinam sem perceber.
Ensinam que respeito não é opcional. Que amor não deve machucar. Que ficar a qualquer custo não é virtude. E que decisões difíceis fazem parte de uma vida mais saudável.
Recomeçar não é leve. Existe medo, insegurança, impacto financeiro e desgaste emocional. Mas também existe algo que, para muitas, já não existia há muito tempo dentro daquela relação.
Paz.
O divórcio mudou no papel. As mulheres mudaram na prática. O que ainda precisa mudar com urgência é a forma como a sociedade continua tentando responsabilizá-las por tudo.
Porque enquanto sair de um relacionamento ainda for visto como falha feminina, muitas continuarão permanecendo onde não deveriam estar.
E esse, sim, é o problema que ainda precisa ser enfrentado.
Sobre a colunista
Juliana Drummond é esposa, mãe e advogada com mais de 20 anos de experiência na área cível e criminal. Também é especialista em Direitos das Mulheres; pós-graduada em Advocacia Feminista pela Escola Superior de Direito, em São Paulo; capacitada em Advocacia com Perspectiva de Gênero pela Escola Brasileira de Direitos das Mulheres; e representante da OAB Itabira na Comissão Especial Enfrentamento a Violência Doméstica da OAB Minas Gerais.
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