O silêncio das salas de anatomia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) guarda histórias que não terminam com a morte. Em 2025, a instituição bateu o recorde histórico de doações de corpos para ensino e pesquisa. O gesto, ainda cercado de tabus, passou a ganhar novos significados entre famílias e doadores em Minas Gerais.
No último ano, 27 corpos chegaram à universidade por meio de doação, número superior ao registrado em 2024, quando houve 21 casos. Além disso, o interesse pelo cadastro prévio também cresceu. Ao todo, 199 pessoas formalizaram o desejo de doar o corpo após a morte, um aumento de 16,3% em relação ao ano anterior.
Os números indicam mais do que uma tendência estatística. Eles revelam, sobretudo, uma mudança gradual de percepção social. Para a professora Pollyana Costa, do Departamento de Anatomia e Imagem da Faculdade de Medicina da UFMG e coordenadora do programa Vida Após a Vida, o avanço resulta diretamente da ampliação do debate público sobre o tema.
“Hoje, as pessoas entendem melhor a importância da doação para a ciência e para a formação médica. Os estudantes precisam conhecer o corpo humano real, já que modelos artificiais não reproduzem variações anatômicas e detalhes essenciais”, explica.
Formação médica com impacto direto na saúde pública
Os corpos doados à UFMG cumprem papel central na formação de futuros médicos. Além das aulas de anatomia, eles permitem treinamentos avançados e aprimoramento de técnicas cirúrgicas. Com isso, o aprendizado se torna mais preciso e conectado à prática profissional.
Um exemplo recente reforça esse impacto. Em 2025, o Hospital das Clínicas retomou o transplante de pulmão após quase dez anos de interrupção. A equipe médica passou por treinamento em cadáveres doados à universidade. Assim, a capacitação contribuiu diretamente para o retorno de um procedimento de alta complexidade no SUS.
Segundo docentes da instituição, esse tipo de preparo reduz erros, amplia a segurança dos procedimentos e melhora os resultados para os pacientes. Portanto, o benefício da doação ultrapassa os muros da universidade e alcança toda a população.
Decisão pessoal que enfrenta resistência
Apesar dos avanços, a decisão de doar o próprio corpo ainda provoca reações distintas. A professora Vani Costa, cadastrada como doadora há dois anos, relata que o tema gera tanto admiração quanto críticas.
“Algumas pessoas elogiam, enquanto outras não compreendem. Ainda assim, acredito que o corpo pode continuar ajudando depois da morte. Ele contribui para a formação de médicos mais preparados”, afirma.
De acordo com a coordenação do programa, muitos mitos afastam possíveis doadores. Entre eles, a ideia de que a doação impede o velório. No entanto, isso não procede. “O velório pode acontecer normalmente. Apenas orientamos que não seja muito prolongado”, esclarece Pollyana Costa.
Outro receio comum envolve o uso indevido dos corpos. Contudo, a universidade só recebe a informação após o falecimento, sempre comunicada pela família. Além disso, todo o processo segue normas éticas, legais e acadêmicas rigorosas.
Doar é um direito garantido por lei
A legislação brasileira assegura o direito à doação do corpo para fins científicos. O Código Civil, em seu artigo 14, autoriza expressamente a disposição gratuita do próprio corpo após a morte, com objetivos científicos ou altruísticos. Além disso, a lei garante que o doador pode revogar a decisão a qualquer momento, mesmo depois de realizar o cadastro.
O tempo de utilização do corpo varia conforme a técnica de conservação. Em alguns casos, esse período ultrapassa dez anos. Ao final, a universidade realiza a destinação digna dos restos mortais, com sepultamento ou cremação, conforme os protocolos institucionais.
Programa nasceu de um pedido individual
A UFMG criou o programa Vida Após a Vida em 1999, após o pedido de uma mulher em estado terminal que desejava doar o corpo à universidade. Até então, a instituição havia recebido apenas uma doação semelhante, dez anos antes. A partir desse episódio, a faculdade estruturou um programa permanente.
Atualmente, professores, profissionais da saúde e membros da própria comunidade acadêmica integram o grupo de doadores. Para a coordenação, esse perfil demonstra confiança no trabalho desenvolvido e no impacto social da iniciativa.
Saiba como funciona a doação de corpos à UFMG
Quem pode doar
Qualquer pessoa maior de 18 anos pode se cadastrar como doadora. Menores de idade também podem doar, desde que a família autorize. Não há contraindicações médicas prévias.
Como fazer o cadastro em vida
Primeiro, o interessado agenda uma entrevista com a Faculdade de Medicina da UFMG. Durante a conversa, a equipe explica todas as etapas do processo. Em seguida, o doador assina o termo de doação, com a assinatura de duas testemunhas. A qualquer momento, é possível desistir.
O que a família deve fazer após o falecimento
Após a morte, a família deve comunicar a UFMG o mais rápido possível. A equipe orienta sobre os próximos passos e providencia o traslado do corpo. O velório pode acontecer, seguindo orientações específicas.
Contato
📞 (31) 3409-9739 – Faculdade de Medicina da UFMG

