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Doutor Colombo: a visão de mundo de um homem moderno com 104 anos de idade

Fernando Silva e Doutor Colombo- Foto: Jackson Faustino

No dia 17 de junho, o médico Colombo Portocarrero de Alvarenga completou 104 anos de idade. Dias antes, comemorou a incrível data solene em grande estilo: dançou solitariamente com desenvoltura na sala de visitas da sua residência. Foi um sucesso. O vídeo da performance artística bombou nas redes sociais. Milhares de pessoas curtiram o maravilhoso show do ilustre itabirano. Mas, bailar não é nenhuma novidade para o popular Doutor Colombo. Afinal, durante oito anos, ele ocupou o cargo de presidente do tradicional Clube Atlético Itabirano (CAI).

Portocarrero sempre foi um homem muito ativo. Na juventude, jogou futebol e vôlei. Outro fato familiar extraordinário. Dona Eny Figueiredo – a eterna companheira pelos caminhos da vida- comemorará o aniversário de um século no mês de novembro. Colombo foi (e ainda é) importante protagonista, tanto na sociedade quanto na trajetória profissional. O médico- com quase 80 anos de exercício profissional- adora um descontraído bate-papo. Continua bastante atualizado, mas não se esquece das impactantes histórias do passado. Aprecia contar casos pitorescos da velha Mato Dentro. Tipo “A Vida como Ela é”, de Nelson Rodrigues.

Nesta conversa exclusiva com a DeFato, recordou uma passagem inusitada da Itabira dos velhos tempos. Aqui se fala do corajoso médico que roubou a mulher de um engenheiro da velha Cia Vale do Rio Doce (CVRD). Foi um escândalo na época. O profissional da medicina fugiu com sua musa, um violão e a gaiola de passarinho. Muitos anos depois, um itabirano deu de cara com o casal numa pequena cidade do interior de Pernambuco.

Confira a entrevista a seguir. Doutor Colombo fala de política (quase virou prefeito da cidade), comenta a polêmica pauta de costumes e faz projeções sobre o futuro da humanidade (a longevidade vai longe). O clínico, ex-funcionário da CVRD, acredita que a cidade superará o trauma da exaustão das minas. “Antes da Vale, Itabira já existia”, alivia com otimismo. O depoimento foi sinônimo de sabedoria, serenidade e muito bom humor.

DeFato: O senhor, ao longo da sua vida, se posicionou politicamente. Foi oposição sistemática à Ditadura Vargas e, em determinada ocasião, ocupou o cargo de vereador no Legislativo itabirano (1958 a 1962). Como avalia o atual cenário político brasileiro, com uma polarização bastante acirrada?

Doutor Colombo Portocarrero de Alvarenga: Na verdade, hoje em dia, eu não acompanho a política com tanta assiduidade. Depois que eu deixei a vereança, me afastei praticamente da política. Eu perdi a motivação para a política. Mas, a realidade de hoje não é muito diferente de antigamente. Sempre houve uma guerra política no país. Acho que sou masoquista, porque sempre fiquei ao lado da oposição. A vida inteira fui um oposicionista. A minha família sempre se manteve na oposição. E, até mesmo por isso, nós sempre levamos ferro.

DeFato: E, em alguma ocasião, o senhor foi cotado para se candidatar prefeito de Itabira?

Doutor Colombo: Virgílio Gazire (ex-prefeito) veio várias vezes, aqui na minha casa, com esse convite para eu me candidatar a prefeito, mas eu preferi me dedicar exclusivamente à medicina e desenvolver outras ações na sociedade itabirana. Virgílio esteve aqui, inclusive, antes do processo eleitoral de 1982 e ofereceu-me o cargo de vice. Se tivesse aceitado, fatalmente eu teria sido prefeito porque, infelizmente, Gazire ganhou a eleição e morreu oito meses depois da sua posse. Em certo momento, inclusive, ele me ofereceu a cabeça de chapa, mas eu recusei. Então, não me interessei ser prefeito. Eu sabia que Virgílio não teria muitas condições de sobrevivência, ele se encontrava bastante adoentado na ocasião. Mas, Virgílio foi meu amigo de infância.

DeFato: O mundo passa por um instante de alta tensão devido à situação do Leste Europeu (conflito entre Rússia e Ucrânia) e também no Oriente Médio com a intervenção de Israel na Faixa de Gaza e o confronto com o Irã. Como o senhor avalia esta situação?

Doutor Colombo: Claro que estamos passando por uma situação muito perigosa, porque estes conflitos podem ter o envolvimento da China, Rússia e Estados Unidos. E, neste caso, o Brasil ficaria numa situação muito delicada. Eu acho que Lula é contra o governo dos Estados Unidos, mas o povo brasileiro tem simpatia pelos Estados Unidos. Eu, pessoalmente, me posiciono favoravelmente aos Estados Unidos.

DeFato: E qual o seu ponto de vista, especificamente, sobre a situação de Israel na geopolítica?

Doutor Colombo: Eu observo uma situação histórica. Os judeus, até a década de 1940, eram um povo sem pátria. O brasileiro Oswaldo Aranha foi o grande responsável pela criação do Estado de Israel. Até então, os judeus viviam dispersos pelo mundo. Então, reafirmo que Oswaldo Aranha foi muito importante para a criação de um Estado israelita. Acho que necessitamos reconhecer a inteligência e o espírito de luta daquela gente (os judeus). Então, precisamos aceitar a situação daqueles que não tinham uma pátria. É um povo admirável.

DeFato: O mundo passa por um momento de intenso e rápido desenvolvimento tecnológico, principalmente depois do advento da internet. Como o senhor convive com esta realidade tão dinâmica?

Doutor Colombo: Eu não estou muito ligado nestas novas ferramentas, não participo tanto destas novidades. Eu prefiro a convivência diária com um pequeno grupo de amigos. No mais, eu acompanho o dia a dia pela leitura de jornal. Eu era leitor do “Estado de Minas”, mas o jornal não circula mais no interior. Então, atualmente, eu leio diariamente o jornal “O Tempo”.

DeFato: A sociedade brasileira passa por uma radical transformação psicossocial. Estamos tocando, principalmente, na questão da pauta de costumes. Uma situação inimaginável há 30 anos, por exemplo, é o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Qual o seu posicionamento sobre essa nova ordem social?

Doutor Colombo: Essa situação de casamento entre pessoas do mesmo sexo é realmente muito surpreendente para mim, mas acho que as escolhas devem ser respeitadas. Acho que as coisas, neste aspecto, devem ser como são. Então, precisamos nos submeter a esta nova realidade. Temos que nos adaptar ao mundo em que vivemos, mesmo que não concordemos com certas circunstâncias. Mas, nesta questão, sobre este modelo de casamento, gostaria de fazer uma ressalva. Se esse envolvimento for entre adultos, tudo bem. Só não podemos admitir menores neste contexto, porque eles não têm a formação de adultos.

DeFato: O senhor praticamente acompanhou a trajetória da mineradora Vale em Itabira. Inclusive, foi funcionário da empresa. Neste momento, a cidade vive a iminência da exaustão das minas. Aqui, a pergunta que não quer calar: o que será de Itabira sem a Vale?

Doutor Colombo: Itabira, hoje, não depende tanto da Vale como há alguns anos. Eu acho que Itabira já tem condições de viver por conta própria. Recentemente, em muitas realizações importantes do município, a Vale não teve a menor interferência. O apogeu da Vale já passou. Itabira encontra-se muito desenvolvida. Claro que a Vale fará falta, mas a saída dela não impedirá o desenvolvimento da cidade, principalmente através do ensino. E, neste segmento, já temos importantes conquistas. Então, Itabira já pode caminhar com suas próprias pernas, sem essa dependência da mineração. E não se esqueça. Muito antes da Vale, Itabira já existia.

DeFato: E, por falar em ensino, o grande sonho recente de Itabira era um curso de medicina. E, finalmente, esse sonho virou realidade. Qual a importância da conquista do curso de medicina para a sociedade itabirana?

Doutor Colombo: Sem dúvida, esta foi uma grande conquista porque, há alguns anos, só quem tinha condições (financeiras) podia estudar medicina, isto porque teria que se deslocar para outras cidades, como Belo Horizonte. O gasto, então, era muito alto, principalmente com moradia e alimentação. Hoje, com a escola de medicina, Itabira atrairá muitos estudantes de outras localidades. Essas pessoas gastarão no comércio da cidade e o itabirano estudará numa escola daqui.

DeFato: o senhor fez o seu curso de medicina em Belo Horizonte?

Doutor Colombo: Sim, eu estudei em Belo Horizonte porque o meu pai já estava morando lá. A capital era o único local onde existia escola de medicina em Minas Gerais. O meu irmão Mauro de Alvarenga também estudou medicina na capital. Ele se formou em 1932. Então, naquela época, a escola já era muito antiga. Eu não tenho dúvidas. O curso de medicina é uma grande conquista para Itabira e toda a região.

DeFato: Se esta conquista tivesse acontecido há mais tempo, percebo que o senhor teria sido um professor de medicina…

Doutor Colombo: Tranquilamente! Eu já fui professor dos antigos cursos secundários de Itabira. Mas foi no improviso, porque, na ocasião, não havia muitas pessoas qualificadas para o cargo de professor. Então, profissionais de outras áreas do conhecimento supriam essa carência.

DeFato: Mas, neste caso, este improviso acontecia com muita excelência, não é mesmo?

Doutor Colombo: a coisa funcionava desta forma. O jovem estudava no ginásio de Itabira, mas, depois, tinha que se deslocar para outros municípios. Após a conclusão do ginásio, não havia mais nada. Todo mundo ia, principalmente, pra Belo Horizonte.

DeFato: E, ainda assim, Itabira ainda demorou muito para ter cursos superiores…

Doutor Colombo: Sim, demorou demais. O curso superior seria importantíssimo para a família e a juventude itabirana, mas essa realidade demorou para acontecer. Devido a isso, o itabirano deixava a sua terra bastante cedo, ainda muito jovem.

DeFato: O senhor completou 104 anos de idade. Uma marca extraordinária. Na década de 1960, uma pessoa com 50 anos era considerada muito idosa. Andava com dificuldade e passava mais tempo na cama que nas ruas. Hoje, o desenvolvimento da medicina elevou muito a expectativa de vida. O senhor, que é médico muito experiente, imagina que as pessoas poderão viver 120 anos, em boas condições física e mental, daqui a 50 anos, por exemplo?

Doutor Colombo: Tudo é possível. Daqui a 100 anos, acho que alcançaremos uma vida média de 150 anos. A ciência vem apresentando muitas coisas favoráveis à existência humana. Muitos medicamentos novos praticamente acabaram com algumas doenças fatais. Já houve um tempo em que o homem vivia, no máximo, até 40 anos. Então, eu acredito que, daqui a uns 50 anos, viveremos, tranquilamente, até 120 anos. Veja bem. Há 50 anos, vivia-se, no máximo, até 70 anos, e poucas pessoas atingiam essa idade. O progresso da medicina e a qualidade da alimentação ajudarão no alcance de uma maior longevidade. Muitas doenças, que no passado eram fatais, não causam maiores danos hoje em dia. A tuberculose, por exemplo, provocava muitos óbitos. Itabira era uma cidade com grande quantidade de tuberculosos. Acho que o clima, muito frio, ajudava na propagação da bactéria. E, para piorar, há 70 anos, não havia medicamentos para combater a tuberculose. Já existia a penicilina, que foi uma revolução para a saúde. Doenças que matavam muito,há 70 anos, não provocam danos maiores hoje em dia.

DeFato: A Covid-19 matou cerca de 15 milhões de pessoas em todo o planeta. Uma reação muito rápida da comunidade científica evitou um desastre de maior proporção. Nos dias atuais, a perigosíssima doença praticamente se transformou numa gripe comum…

Doutor Colombo: Para você ver como é importante o desenvolvimento da ciência. Como eu disse, a tuberculose matava muito em Itabira, mas o progresso da medicina foi muito amplo e rápido. A penicilina, por exemplo, só passou a ser utilizada na década de 1940. Ela apareceu entre 1940 e 1945. E esse medicamento revolucionou a medicina. E, a partir de então, apareceu uma infinidade de antibióticos.

 

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