Doutor em ciências e professor de Ecologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o ecólogo Marcelo Dutra da Silva, afirma que pode haver a necessidade de cidades inteiras mudarem de lugar após as chuvas intensas que castigam o Rio Grande do Sul.
O ecólogo ressalta a necessidade imperiosa dos municípios gaúchos trabalharem a resistência aos eventos climáticos como o atual, e lembra que, já em 2022, alertou sobre o despreparo para o enfrentamento dessa situação.
“Não podemos impedir que o evento climático ocorra, nem os próximos, porque eles vão acontecer. Mas dá para sermos mais resilientes a isso? Dá. Talvez se nós já tivéssemos afastado as pessoas das áreas de maior risco. É possível saber onde o evento se torna mais grave primeiro. Com planejamento, seria possível tirar moradores das áreas mais vulneráveis. Agora será preciso mudar cidades inteiras de lugar”.
Para Dutra, “é preciso afastar as infraestruturas urbanas desses ambientes de maior risco, que são as áreas mais baixas, planas e úmidas, as áreas de encostas, as margens de rios e as cidades que estão dentro de vales. É preciso devolver para a natureza espaços mais sensíveis aos alagamentos, que infelizmente são mais valorizadas pelo setor imobiliário. São justamente essas áreas que atuam como “esponjas” em períodos de fortes chuvas”.
Dutra defende também que “as cidades atingidas revisem seus planos diretores antes de reconstruir tudo. Os governos estadual e federal devem estimular estas revisões”.
Há cerca de uma semana, o governador Eduardo Leite (PSDB), disse que seu Estado vai precisar de um “plano Marshall”, referindo-se à reconstrução da Europa após a Segunda Guerra Mundial.
“O olhar daqui para a frente precisa ser mais técnico, e pensar em adaptar a cidade em situações extremas. Estamos falando de sobrevivência, porque significa você colocar lá (em áreas de risco) um empreendimento e ele ficar debaixo d’água”.
Boletim da Defesa Civil emitido na quinta-feira (9), informou que o número de mortos chegou a 107, com 135 pessoas desaparecidas e 374 feridas. Quase 1,5 milhão de pessoas foram afetadas na tragédia.
Dessas, 164.583 mil se encontram desalojadas e 67.542 foram levadas a abrigos.
Dos 497 municípios gaúchos, 425 tiveram problemas com as chuvas e enchentes.

