Estilista, empresária e ativista social, a mineira Raquell Guimarães se notabilizou no universo da moda por transpor às suas peças seus pensamentos e ideias. Prova disso é a forma com a qual estruturou a linha de produção da sua marca de roupas, a Doisélles: as mãos que tecem as suas coleções cumprem pena no sistema prisional brasileiro — uma alternativa oferecida para a reinserção desses apenados na sociedade.
Casada com o prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage (PSB), Raquell Guimarães também é uma primeira dama atuante e que se envolve ativamente com as causas do município. Sobretudo na busca por alternativas econômicas e sustentáveis para que a cidade possa superar a atual dependência da indústria mineral.
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado neste sábado (8), ela esteve na Rádio Caraça FM, no programa “Prosa no Rádio”, onde concedeu uma entrevista ao jornalista Tonny Morais. Na ocasião, ela falou sobre a vida pública, principalmente após se tornar a primeira dama de Itabira, promoveu reflexões sobre a luta por igualdade de gênero, .
“A vida pública é desafiadora. Bastante desafiadora! Mas, como tudo na vida, a gente vai aprendendo com o tempo. Quanto mais tempo passa, mais a gente entende os caminhos da vida pública. Enfim, eu estou curtindo bastante! Eu gosto muito de Itabira e acho que o melhor da vida pública é a gente realmente conseguir fazer a diferença para as pessoas, isso não tem preço e isso a gente realmente sente que é uma missão”, afirmou.
Dia Internacional da Mulher
No mês em que se acende, com mais intensidade, as reflexões sobre os desafios, as lutas e as conquistas das mulheres por uma sociedade mais igualitária, Raquell Guimarães não deixou de abordar o tema. “Eu sempre quis defender as pessoas que sofrem qualquer tipo de injustiça. Acho que a pior coisa que tem no mundo é uma injustiça e a mulher, ao longo da história, foi injustiçada em relação às suas capacidades; a mulher foi humilhada, foi diminuída, foi desacreditada, foi enfraquecida… e isso é uma realidade. Não adianta a gente passar pano nem negar. Existe, sim, uma desigualdade e a nossa luta não é para tomar o lugar do homem, não é para competir com o homem; é apenas uma luta de reconhecimento, é uma luta de que a gente é capaz”, disse.
Apesar de considerar que ainda é necessário avançar nas pautas de igualdade de gênero, Raquell reconhece que já houve conquistas e relembra essa trajetória de luta das mulheres. “Nós enfrentamos um mato muito alto, fomos abrindo essa trilha no facão e hoje existe um caminho, mas é um caminho que se abriu em meio a muita dificuldade e muita luta. E sem dúvida amanhã será muito melhor. Então, eu acho que, hoje, a mulher tá muito melhor do que ontem, mas ainda está pior que amanhã porque eu tenho esperança de que o amanhã vai ser ainda melhor — até porque tá chegando uma geração muito mais consciente em relação”, analisou.
No entendimento de Raquell Guimarães, para que aconteça avanço nas discussões sobre a igualdade de gênero e o direito das mulheres é necessário que os homens também se engajem nesse causa. “Falta o reconhecimento e falta a divisão justa de tarefas. A mulher é muito ligada aos cuidados, então é quem se responsabiliza na sociedade pelos cuidados — seja pelos cuidados dos pais mais idosos, seja pelo cuidado dos filhos. Ela gasta a energia dela com os cuidados e ainda vai para o mercado de trabalho. Então ela tem uma sobrecarga. Esse caminho é esburacado por conta dessa sobrecarga, porque a gente acumula tarefas, a gente tem que pensar em mil coisas ao mesmo tempo e isso exaure. Então, (…) a gente precisa de uma divisão de tarefa igual”, destaca.
“E o reconhecimento também no mercado profissional, porque o mercado profissional ainda é machista. Então, muitas vezes, a fala da mulher é interrompida, a mulher se posicionando numa reunião, ela é silenciada”, completa.
Questionada se o Brasil é um país machista, Raquell é direta: “O Brasil é machista, a América Latina é machista, mas isso não é uma característica exclusiva nossa, não. Isso é uma realidade nos Estados Unidos, isso é uma realidade mesmo na Europa, onde a divisão de tarefas domésticas existe de forma mais real, mais equiparada. Nos países da Escandinávia, por exemplo, o trabalhador tem um ano de licença maternidade ou paternidade. E aí o casal decide se o homem vai ficar seis meses, se a mulher vai ficar seis meses. Então, você chega na Suécia, por exemplo, e você vê um monte de homens de tarde empurrando um carrinho de bebê. Então, o machismo ali, nesse sentido da divisão das tarefas e dos cuidados, já está mais à frente”.
Mulheres na política
Após as últimas eleições, em outubro de 2024, somente 13% dos municípios brasileiros são governados por mulheres — ou seja, 727 cidades dentre um universo de 5.569 localidades no território nacional. Dados que escancaram a baixa representatividade feminina na política. Mas, para Raquell Guimarães, isso não é algo exclusivo do poder público, já que no setor privado são poucas as mulheres que alcançam os cargos de liderança.
“Não é que a mulher tem pouca representação na política, a mulher tem pouca representação em todos os locais de poder. Se você pegar as principais multinacionais, as principais empresas na iniciativa privada, você vai ver poucas mulheres em cargos de chefia. Então não é só no poder público, é no poder privado também”, observou.
“Acredito que seja necessário o discurso, a narrativa e a conscientização. A Câmara dos Vereadores, a Câmara dos Deputados é representatividade, é o povo ali representado. E o nosso povo não é representado em igualdade, (…) a mulher tem uma minoria absoluta nessas casas fiscalizadoras e legisladoras, isso significa que tem um desequilíbrio. Então, onde houver um desequilíbrio, vai ter uma bandeira da Raquell levantada”, acrescenta.
Ativismo social
Raquell Guimarães também contou a história de como decidiu que as unidades de fabricação da sua marca de roupas seria no sistema prisional, com a mão de obra de apenados, em um processo de ressocialização. “A gente não muda o comportamento de uma sociedade, mas a gente consegue conscientizar as pessoas através do nosso trabalho; e foi isso que eu fiz! Eu falei assim: quero fazer um produto que, de alguma forma, transforme a sociedade. E essa coisa do sistema prisional entrou na minha vida de forma muito impressionante”, relatou.
Essa experiência aconteceu quando Rachell tinha 18 anos e havia se mudado de Juiz de Fora para São Paulo. Perdida no metrô, tomou o trem na direção errada e, ao emergir do subsolo, se deparou com a Casa de Detenção do Carandiru, ainda em atividade à época. Uma senhora ao seu lado, carregando uma televisão, percebeu sua confusão e a ajudou a voltar ao caminho certo. No trajeto, revelou que seu filho “morava” naquele presídio. O episódio acabou humanizando, para Rachell, a figura do preso, até então marginalizada pela mídia e pela sociedade.
A experiência despertou sua curiosidade sobre o sistema prisional, levando-a, anos depois, a visitar o Carandiru e escrever a crônica “Sucursal do Inferno”, publicada e premiada pelo Estadão. Embora tenha seguido carreira como estilista, o interesse pelo tema permaneceu. Quando criou sua empresa, a “Doisélles”, decidiu que suas fábricas seriam instaladas dentro de presídios, promovendo trabalho e reintegração social. Hoje, 18 anos depois, sua iniciativa segue transformando vidas — inclusive a de 11 recuperandos da Associação de Proteção e Assistência a Condenados (APAC) de Itabira.
“São 11 recuperandos lá na APAC que estão trabalhando para a ‘Doisélle’ e gostam muito do que fazem. Queremos mostrar muito o trabalho deles, que é muito bonito, muito bem feito e é muito responsável”, destacou.

