Paulo Henrique Dias
De Belo Horizonte
Suspensas por determinação do Governo de Minas Gerais, escolas públicas e privadas do estado paralisaram suas atividades. Em algumas instituições, as aulas passaram a ser lecionadas remotamente, pela internet. Em razão do isolamento social, os professores continuam trabalhando, muitos, além da carga horária de costume. Outros, precisaram se readaptar para que pudessem ter maior familiaridade com os novos meios digitais.
A adaptação para a professora Viviane Moreira, 44, que há 15 anos trabalha em sala de aula, não foi fácil. “Não foi simples, até porque eu não tenho a expertise de um menino de 15 anos. Eu tive que aprender e continuo aprendendo. Têm coisas que ainda eu continuo aprendendo, algumas coisas ainda preciso de ajuda. Eu adaptei na minha casa algumas coisas para facilitar. Tem uma coisa que não pode acontecer, é notebook e computador falhar, isto não pode acontecer com a gente”, comenta.
Rotina pesada, horários que extrapolam os tempos convencionais de serviço em sala de aula e uma crescente demanda dos alunos que mandam incontáveis mensagens, via e-mail e whatsapp. Esta tem sido a rotina da professora. Depois que a pandemia modificou os hábitos de toda rede de ensino, a carga horária tem se estendido de maneira desenfreada.
“Eu sento no computador 7 da manhã e fico até 10, 11 da noite. Ontem eu fiquei até a noite. Na segunda, eu tenho aula de manhã e à tarde. Quando termina minha última aula, às 17 horas, eu começo a responder os e-mails, pois, até então, tive apenas aula interativa com eles. Quando eu vou abrir o e-mail, tem 200 mensagens, e eu vou em uma por uma. É assim que eu faço: depois que eu termino meu planejamento eu sento pra responder”, relata a professora.
Sair da zona de conforto
Para o professor Leonardo Bianchi, 37, que também teve que se reorganizar para cumprir o novo quadro de horários e atender a grande demanda dos alunos em meio à nova rotina de aulas remotas, a adaptação foi difícil, mas não o suficiente para lhe impedir de lecionar.
“A adaptação sempre é difícil, afinal, tive que romper a zona de conforto e me reinventar. A organização é bem difícil, já que tenho um filho pequeno que está sem aula e me demanda, esposa em casa, sem alguém para nos ajudar. Além da paranoia”, diz ele.
Bianchi não sabe quantas horas trabalha diariamente, mas tem certeza que ultrapassa as horas habituais diárias. O professor relata que a demanda de estar a todo tempo online é grande por parte dos alunos. “Hoje trabalho mais, não sei quanto mais, como mudei meu estilo de aula, precisei me readaptar. Trabalho em casa, remotamente, sem meu espaço, dividindo agora as tarefas de casa também e as restrições do confinamento”, comenta.
Movimento
Em meio as mudanças por consequência da Covid-19, alguns alunos e pais questionaram sobre o desconto nas mensalidades, já que os encontros estão sendo feitos por plataformas online. Nessa semana, o Procon publicou, por meio de nota do Ministério Público de Minas Gerais, orientação para que escolas particulares da educação básica possam conceder desconto mínimo de 29,03% nas mensalidades de março.
A professora Viviane Moreira diz seguir e cumprir todo o planejamento do início do ano repassado aos profissionais da educação e não vê motivo para que os descontos. “Eu tenho a mesma turma, eu faço uma aula, faço uma programação, eles só não estão comigo, não é uma aula presencial, mas é feita esta aula a distância”, defende.
Dois lados
O governo federal publicou, no início do mês, a Medida Provisória 934/2020, que isenta as escolas de educação básica e as faculdades de cumprirem os 200 dias letivos anuais, previstos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação do País.
Para a advogada Isabela Grahl, há os dois lados dos fatos, já que, segundo ela, as faculdades alegam que houve um custo de implementação da plataforma online de maneira imediata, além de oferecer curso de capacitação e treinamento que para que os professores tenham mais autonomia durante os encontros. Por outro lado, os pais alegam que as despesas das escolas diminuíram, por não haver consumos do dia a dia além do transporte dos professores.
“Essa balança está sendo equilibrada com as despesas das plataformas digitais. E, por outro lado, as escolas em geral estão garantindo que as aulas do mês de março serão repostas presencialmente. E que os dois meses de abril para frente, enquanto não houver uma pacificação na questão da pandemia, as aulas serão ministradas por meio EAD”, explica.
“O único caso que eu entendo que há possibilidade de não pagamento é o do Ensino Infantil. Eu entendo que até cabe a suspensão do contrato, com pagamento de multa, tendo em vista que não há como ministrar as aulas para maternal”, encerra.

