Natural de Itaúna, no Centro-Oeste de Minas Gerais, a engenheira eletricista e escritora Luísa Cardoso lançou, aos 25 anos, seu primeiro livro de poesias, ‘A Mitose Universal das Coisas’. Além da estreia literária da autora, a obra marca o reconhecimento público de uma identidade que sempre a acompanhou: a de poeta.
Luisa também é itabirana de coração, formada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Itajubá (Unifei), campus de Itabira e mestranda em Engenharia e Ciência dos Materiais, a autora transita com naturalidade entre as ciências exatas e as humanidades. Segundo ela, a poesia antecede qualquer escolha acadêmica. “Quando eu nasci, meu pai escreveu algumas poesias para mim. Então é algo que eu herdei de berço”, conta.
“A Mitose Universal das Coisas” pode ser adquirido diretamente com a autora pelo Instagram @lucardosopoesias ou no site da Editora Caravana.
Apesar da formação técnica, o interesse pela literatura sempre esteve presente. Autores como Dante Alighieri, Clarice Lispector, Spinoza e Goethe fazem parte de seu repertório de leitura. A escolha pela engenharia, segundo Luísa, surgiu ainda na adolescência, por volta dos 12 anos, mas nunca anulou a sensibilidade artística. “A poesia veio antes mesmo da formação científica. Não houve um momento de virada, porque sempre caminharam juntas”, afirma.
A poética itabirana
A mudança para Itabira — cidade marcada pela obra de Carlos Drummond de Andrade — intensificou essa relação com a escrita. Foi também em um período de transição pessoal e emocional que a autora decidiu reunir os poemas produzidos ao longo dos anos. “Eu precisava usar aquilo que eu tinha como dom para organizar tudo o que eu via e sentia em relação ao mundo”, relembra.
A relação de Luísa com Minas Gerais e com as cidades por onde passou aparece de forma direta em sua escrita. No poema “Nos interiores de Minas”, a autora revisita memórias pessoais, a formação acadêmica e a vivência em Itabira, conectando identidade, território e afeto.
Nos interiores de Minas
Nos interiores de Minas
Fiz minhas missões
Ainda em juventude
Morei em Varginha
Colhi café em perdõesFormei engenheira em Itabira
Cidade de Carlos Drummond
Escrevi este livro de poesia
Com o que me foi dado de domVi a mineração da Vale corroer as serras,
Negativar a altitude do Pico do Cauê
E as famílias dependendo dela
Com medo de perdê-la e não ter o que comerAo menos trouxeram a UNIFEI, minha alma mater
Nunca irei os momentos aqui vividos, esquecer
Pois a cidade era cinza, mas era verde o teu ater
O verde das matas me lembra Itaúna
De onde sou natural
Cidade bela, têxtil, rica e única
Minha raiz primeira foi fundamental
Trecho do poema “Nos interiores de Minas”, de Luísa Cardoso. Continuação no livro A Mitose Universal das Coisas.
Sobre a obra
Dividido em três frentes, A Mitose Universal das Coisas propõe uma poesia conceitual, que dialoga diretamente com a ciência, a filosofia e a observação da natureza. O livro aborda temas como astronomia, matemática, sociologia e filosofia, incorporando termos científicos à linguagem poética. Para Luísa, não há contradição nesse encontro. “A engenharia e a poesia lidam com abstrações diferentes. Uma é a abstração da lógica; a outra, do sentimento.”
A publicação do livro representou também um processo de legitimação pessoal. “Em algum momento eu precisei me olhar no espelho e reconhecer que, além da engenheira e da cientista, existia o ser humano poeta”, diz. O convite da Editora Caravana, após um processo seletivo, reforçou esse reconhecimento e deu forma concreta a uma produção que já circulava em saraus e encontros literários.
O lançamento aconteceu em Itaúna e reuniu familiares, amigos e membros da comunidade local. Para a autora, assumir publicamente a identidade de poeta foi um gesto de libertação. “Foi deixar para trás a limitação de ser apenas a engenheira do sistema. A poesia também é instrumento de voz”, destaca.
Além do primeiro livro, Luísa já trabalha em duas novas obras. Uma delas, Bossa Mil – Poesias de Amor, propõe um diálogo entre poesia e o universo da Bossa Nova, explorando temas como amor, boemia e sofrimento.

