Enquanto a mineração brasileira comemora crescimento do faturamento, avanço das exportações e ampliação dos investimentos, um tema estrutural segue no centro das preocupações de municípios historicamente dependentes da atividade: a exaustão mineral e o futuro econômico no período pós-mineração.
Dados apresentados pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) mostram que o setor faturou R$ 298,8 bilhões em 2025, alta de 10,3% em relação ao ano anterior, e respondeu por 55% do saldo da balança comercial brasileira. Ao mesmo tempo, 2.760 municípios receberam recursos da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), o que representa cerca de 50% das cidades do país.
Apesar dos números robustos, especialistas e gestores locais alertam que a dependência excessiva da mineração pode se transformar em um risco econômico quando as jazidas entram em processo de esgotamento — como ocorre em Itabira, na Região Central de Minas Gerais, um dos símbolos históricos da mineração no Brasil.
Itabira e o alerta da exaustão mineral
Durante entrevista coletiva do IBRAM, realizada nesta terça-feira (3), o portal DeFato Online, levou o debate ao centro da agenda nacional ao questionar o setor sobre o futuro de municípios mineradores.
“Diante do avanço da exaustão mineral em municípios historicamente dependentes da mineração, como Itabira, quais são as estratégias do setor para garantir amparo econômico, social e estrutural durante a transição e no período pós-mineração?”, questionou.
A pergunta expõe um dilema enfrentado por diversas cidades mineradoras: como substituir uma atividade que sustenta emprego, arrecadação e parte significativa do orçamento municipal.
Planejamento existe, mas depende de políticas públicas
Em resposta, o vice-presidente do IBRAM, Fernando Azevedo, afirmou que a exaustão mineral é uma condição técnica conhecida desde o início de qualquer projeto de mineração. Segundo ele, o desafio não está na previsão, mas na execução de estratégias de transição.
“A exaustão mineral é previsível. Justamente por isso, ela precisa ser tratada com planejamento, diversificação econômica e uso estratégico da riqueza gerada pela mineração”, afirmou.
De acordo com Azevedo, o setor tem buscado avançar em verticalização da produção, diversificação mineral e aproveitamento de rejeitos, além de ampliar o diálogo institucional com estados e municípios.
“A mineração não pode ser analisada apenas pelo período de extração. O legado econômico e social deixado nos territórios precisa orientar as decisões locais”, completou.
Dependência da CFEM e fragilidade fiscal
Em 2025, a arrecadação da CFEM somou R$ 7,9 bilhões em todo o país. Minas Gerais concentrou 45% desse total, seguido pelo Pará, com 39%. Em muitos municípios, a compensação mineral representa parcela relevante da receita corrente.
O problema, segundo analistas, é que a CFEM não foi estruturada como um fundo de transição econômica, mas acaba sendo usada para custeio da máquina pública. Com isso, quando a atividade mineral entra em declínio, o impacto fiscal se torna imediato.
Além disso, o setor mineral empregou 229.312 trabalhadores diretos em novembro de 2025, excluindo petróleo e gás. Para cada emprego direto, estima-se a geração de nove a onze empregos indiretos, o que amplia o efeito da exaustão mineral sobre o comércio, os serviços e a renda local.
Crescimento econômico não elimina desafio estrutural
O contraste entre os bons resultados econômicos e a ausência de políticas claras para o pós-mineração ficou evidente ao longo da coletiva do IBRAM. O setor projeta US$ 76,9 bilhões em investimentos entre 2026 e 2030, com foco em minerais críticos ligados à transição energética e à tecnologia.
No entanto, nenhum valor específico foi detalhado para investimentos em recuperação ambiental ou em fundos estruturantes para municípios em fase de exaustão.
Para Fernando Azevedo, o momento exige articulação entre setor produtivo e poder público.
“É fundamental que os municípios usem o ciclo de riqueza gerado pela mineração para estruturar outras vocações econômicas. Isso passa por políticas públicas consistentes, planejamento e visão de longo prazo”, afirmou.
Debate segue aberto
O caso de Itabira ilustra um desafio que deve se intensificar nos próximos anos em diversas regiões mineradoras do país. Enquanto a mineração segue como pilar da economia nacional e da balança comercial, cresce a pressão para que o setor e o Estado avancem em modelos sustentáveis de transição econômica, capazes de garantir desenvolvimento após o fim da extração.
Sem isso, o risco é que cidades que ajudaram a sustentar o crescimento do país enfrentem um futuro marcado por queda de arrecadação, desemprego e perda de dinamismo econômico.

