O Centrão atua como uma espécie de zagueiro brucutu do futebol, aquele beque truculento que tenta impedir o gol a qualquer custo. E faz muita falta. Aqui não se fala do esporte bretão. Pelo contrário. Criou-se uma metáfora para explicitar a liberação de verbas, a qualquer custo, para a prática do clientelismo paroquial. E a coisa funciona na base do vale- tudo. E até um pouco mais. E, neste caso, o chute na canela institucional é poderosa arma. Entendam-se, por chute, as artimanhas de mergulho nos cofres públicos.
Neste caso, o Centrão comete faltas na marca do pênalti. Às vezes, nas grandes áreas do Congresso Nacional e Palácio do Planalto. Resumo do jogo. Os fins normalmente justificam os meios no campeonato do “time” de peladeiros da República. É maquiavélico. O ajuntamento do centro é o principal responsável pela mais exótica jabuticaba da infraestrutura política brasileira: o presidencialismo de coalizão. Neste estapafúrdio fenômeno, o chefe do Executivo necessita negociar diuturnamente com deputados e senadores. A administração pública só pega no tranco depois de infindáveis sequências de conversas fiadas (ou no crediário). Um papo cansativo. Enfim, a troca de ideias com esta gente se desenvolve por meio de verbo e verba.
O Centrão até nasceu com fins nobres. Acredite se quiser. A criatura é filha bastarda da Constituição de 1988. A pirotecnia começou durante os trabalhos de elaboração da Carta Magna. A princípio, prevalecia claro protagonismo ideológico na tecitura dos artigos das novas leis. Liberais e progressistas lutavam por espaços estratégicos no “livrinho”. Um conjunto de constituintes — que não se enquadrava em nenhuma categoria filosófica — permanecia à margem das discussões. Este disperso rebanho percebeu que só conseguiria reconhecimento com união e determinação. Assim, organizou-se e conquistou um lugar ao sol. Fiat lux. Ficou muito claro que juntos podiam mais. E ponto.
Os craques do toma lá, dá cá mudaram o rumo da partida. E, desta forma, descobriu-se o caminho para as índias ou o acesso aos recursos financeiros da União. E tomem chantagens. Hoje em dia, todo morador do Palácio da Alvorada é refém do Centrão. Pouco importa se de esquerda ou direita. Ninguém escapa das afiadas garras do monstrengo. A dinâmica de funcionamento deste sistema é simples e objetiva. Tudo se resume num dá ou desce. Em livre tradução. Ou se libera a grana das emendas parlamentares ou dança-se sem música. A moeda de troca atende pelo singelo nome “impeachment”. Impossível escapulir das armadilhas deste espectro dos labirintos da capital federal. Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff não concordaram com o assédio da turma e pagaram o mais elevado custo pela ousadia. Ambos foram defenestrados de Brasília.
A política nos Estados Unidos é monótona. Lá, a prática cotidiana se dá sob o signo de sonolenta polarização. Republicanos e democratas digladiam-se apenas a cada quatro anos. Câmara e Senado trabalham na mais absoluta lerdeza. Neste cenário, o presidente do país automaticamente se transforma num mero autocrata. As duas casas legislativas são, portanto, currais de mansos gados. Esta lesma convencional atende pelo apelido “melhor democracia do planeta”. Imagine o estilo da pior. O Legislativo norte-americano é uma entidade subserviente ao eventual chefe de Estado (e governo), seja ele democrata ou republicano. Este lerdo pragmatismo, porém, entraria em ebulição caso aparecesse um Centrão no pedaço. O novo ator acabaria com o protagonismo das tradicionais legendas. E tem mais. O mandatário maior dos EUA (os trumps da vida) também seria catapultado da sua cômoda zona de conforto. Como se vê, faz falta inconsequente Centrão (ou brucutu) no parlamento do império.
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.
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