Site icon DeFato Online

Federação de Umbanda e Candomblé de Minas nega vínculo de rituais com práticas sexuais e repudia crimes atribuídos a líder religioso preso em Itabira; confira

Tânia Rêgo/Agência Brasil/Fonte: Agência Senado

A Federação de Umbanda e Candomblé de Minas Gerais (FEUMC/MG) divulgou, nesta quinta-feira (11), uma nota pública em que manifesta repúdio às acusações que recaem sobre um líder religioso preso sob suspeita de crimes contra a dignidade sexual de 12 mulheres durante rituais, em Itabira.

Na manifestação, a entidade destaca que práticas sexuais não fazem parte de nenhum ritual das religiões de matriz africana. “A prática religiosa séria, seja na Umbanda, no Candomblé, na Quimbanda ou em qualquer outra tradição de matriz africana, não compactua e jamais admitirá a utilização da fé como instrumento de violência, manipulação ou coerção sexual”, diz o texto, (confira a nota na íntegra ao final do texto).

O documento também esclarece que os rituais das tradições afro-brasileiras envolvem “cantos, oferendas, firmezas, ebós, obrigações e cultos aos Orixás e entidades”, todos com a finalidade de promover conexão espiritual, purificação, cura e fortalecimento da fé, sem qualquer previsão de práticas sexuais. Nesse sentido, a federação classifica as denúncias como um grave desvio ético e religioso, além de configurarem crime perante a legislação brasileira.

“A seriedade dos terreiros e templos exige que abusos sejam denunciados”, diz a nota

A FEUMC/MG também destacou que casos isolados não podem servir para estigmatizar comunidades religiosas inteiras, que já enfrentam séculos de preconceito e intolerância. “A seriedade dos terreiros e templos exige que abusos sejam denunciados, que vítimas sejam amparadas e que o rigor da lei recaia sobre aqueles que maculam a fé e instrumentalizam o sagrado para fins criminosos”, afirma.

Por fim, a federação se comprometeu a colaborar com as investigações, oferecer apoio às vítimas e promover ações educativas junto a lideranças religiosas. “Liberdade religiosa não é salvo-conduto para o crime”, conclui a nota assinada pelo departamento jurídico da entidade.

Entenda o caso

O médium, de 47 anos, que se autodenominava incorporador da entidade “Sete Punhal”, foi preso nesta última terça-feira (9) pela Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), em Itabira. De acordo com as denúncias, o suspeito mantinha mulheres sob controle prometendo cura de enfermidades por meio de relações sexuais. Ao menos 12 mulheres afirmaram ter sido vítimas de violação sexual mediante fraude e importunação sexual durante cultos religiosos.

“Sete Punhal”: líder religioso é preso em Itabira por abusos sexuais durante rituais. Foto: Divulgação/PCMG

Os atos eram justificados pelo investigado como “atos espirituais necessários” para alcançar benefícios como proteção, cura de doenças e resolução de problemas pessoais. Entre as práticas relatadas estavam pactos nos quais as vítimas eram induzidas a manter relações sexuais com o médium, além de banhos ritualísticos em que ele as untava nuas com ovos e quiabo.

A prisão preventiva foi decretada pela Justiça e cumprida pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Itabira. A Justiça também autorizou busca e apreensão, que resultou na coleta de dois celulares do suspeito. O material será analisado para reforçar as provas no inquérito.

De acordo com o delegado responsável pelo caso, Dr. João Martins Teixeira, a Polícia Civil deve concluir o inquérito em até dez dias a contar da prisão preventiva, antes de encaminhar os autos ao Ministério Público, responsável por decidir sobre eventual denúncia. 

Defesa do investigado

Em nota enviada à reportagem, a defesa do médium negou as acusações, alegando que os rituais citados “fazem parte do cerimonial tradicional da religião professada por ele, sem conotação sexual ou intenção de causar constrangimento”. O texto reforça ainda a presunção de inocência, afirma que o investigado é praticante de fé de matriz afro-brasileira e sustenta que “nenhuma relação íntima foi mantida sob coerção, ameaça espiritual ou indução” (confira a nota na íntegra ao final do texto).

 

Nota da FEUMC/MG

Foto: Divulgação FEUMC/MG

Nota da defesa do suspeito: 

“Na qualidade de advogado constituído do investigado, venho, por meio desta nota, manifestar posicionamento diante das graves acusações que vêm sendo veiculadas na imprensa.

Inicialmente, ressalta-se que, o investigado nega veementemente ter praticado qualquer ato de natureza sexual, libidinosa ou abusiva contra as supostas vítimas. Ressalta-se que nenhuma relação íntima foi mantida com qualquer fiel sob coerção, ameaça espiritual ou qualquer forma de indução ou engano, conforme vem sendo sugerido.

Nesse sentido, o investigado é praticante de uma fé de matriz afro-brasileira, cuja doutrina envolve rituais e elementos simbólicos próprios, incluindo banhos ritualísticos, uso de ervas, alimentos e outros elementos naturais, em consonância com fundamentos religiosos do Candomblé e da Quimbanda, práticas reconhecidas e protegidas pela Constituição Federal no que tange à liberdade de crença e culto (art. 5º, inciso VI).

É importante esclarecer que os rituais mencionados fazem parte do cerimonial tradicional da religião professada por ele, não tendo qualquer conotação sexual ou intenção de causar constrangimento. As interpretações distorcidas de tais práticas devem ser analisadas com cautela, dentro do devido processo legal e respeitando os princípios constitucionais da presunção de inocência e do contraditório.

A defesa técnica reitera que não se pode admitir qualquer forma de julgamento social antecipado, baseado em narrativas unilaterais ou repercussões midiáticas. Ademais, reforça-se que está colaborando com as autoridades competentes e confia plenamente na apuração isenta, imparcial e técnica dos fatos, afastando-se qualquer julgamento precipitado ou condenação pública sem que haja prova efetiva e concreta.

Reiteramos nosso compromisso com a verdade e com a Justiça, e nos colocamos à disposição para qualquer esclarecimento adicional necessário.”

Exit mobile version