Reportagem veiculada na edição 82 do Jornal DeFato Cidades Mineradoras
Desde que chegou ao Brasil, a pandemia gerou estragos incalculáveis. Vidas foram ceifadas e a economia, como um todo, tem sido muito afetada. No entanto, um setor, em específico, tem crescido diante deste cenário: o farmacêutico.
Entre janeiro e outubro do ano passado, o mercado farmacêutico registrou um crescimento de 13,6% em seu faturamento. Mais: de acordo com dados da IQVIA, foram movimentados R$ 113,02 bilhões no mesmo período.
Em Itabira não foi diferente. Conversamos com três empresas que foram unânimes em dizer que o coronavírus não afetou negativamente as suas contas. Pelo contrário, os novos hábitos impostos pela pandemia e a necessidade de nos higienizarmos regularmente movimentou bastante a economia do setor.
Proprietária da Farmácia do Pará, a farmacêutica Jacqueline Jacques relata que as incertezas que envolviam o início da crise do coronavírus tornaram as coisas difíceis no começo de 2020. Porém, as vendas começaram a aumentar à medida que os meses foram passando, embora enfrentem, vez ou outra, períodos de instabilidade.
“No início da pandemia, as vendas foram baixas, mas de julho pra cá tivemos uma alta, registrando lucro. Porém, quando a cidade é fechada, como quando entramos na onda roxa, a gente tem menos movimento na rua. Então, as pessoas vêm na farmácia pra comprar somente o que é necessário. Até porque já tem muita gente também que não está recebendo benefício, muitos desempregados. Com isso, as pessoas estão segurando mais dinheiro”, explica.
Jacqueline também acredita que a taxa de contaminação do coronavírus em Itabira obrigará esta curva de ascensão econômica a continuar durante muito tempo ainda.
“Eu acredito que esse crescimento da farmácia continue estável até, pelo menos, o final do ano. Creio que ele vai continuar crescendo porque a gente ainda está numa fase de muita contaminação, muitos pacientes ainda. Não temos nem 30% da população de Itabira contaminada, então acho que isso vai se estender por um período ainda. Acredito que irá durar até meados do ano que vem.”
Karina Ribeiro, proprietária de uma das lojas da Rede Minas Farma, em Itabira, explica que a Covid-19 fez crescer a venda de medicamentos não tão procurados anteriormente. Por outro lado, produtos de perfumaria deixaram de ser priorizados por muitos itabiranos.
“A venda de medicamentos cresceu muito. Mas, em contrapartida, a parte de perfumaria, itens de conveniência, higiene, não tivemos uma venda expressiva, até porque o cliente não tem vindo na loja. Estamos fazendo atendimento pelo WhatsApp, mas não é a mesma coisa. Na loja, o cliente compra mais, vê o produto, é diferente de falarmos por telefone ou mostrar foto no WhatsApp.”
Segundo a empresária, a alta na venda de medicamentos de prevenção e combate à Covid-19 permitiu um equilíbrio financeiro à farmácia.
Um gestor da Farma Justa, de Itabira, que preferiu não se identificar, destaca outro fator importante nessa roda econômica: a demanda por tratamentos cuja eficácia contra a Covid-19 não é comprovada. Segundo ele, medicamentos como a ivermectina e a hidroxicloroquina têm sido muito procurados neste período.
“Produtos para aumento da imunidade, vitaminas, não eram tão procurados e cresceram muito. No início da pandemia soltaram as fake news e aumentou-se muito a venda de ivermectina, hidroxicloroquina, produtos para tratamento que não tem comprovação científica. Com isso, esses medicamentos foram para o protocolo do Ministério da Saúde e aumentaram muito a venda. Só que, como a classe farmacêutica, a Anvisa e outros órgãos falaram sobre a questão do aumento da imunidade, a ideia de vitamina D, vitamina C, vitamina E, vitamina de A a Z, e isso teve um crescimento muito grande no início da pandemia”, conta.
Contudo, a alta procura fez com que, ainda em 2020, começassem a faltar vários medicamentos. Uma realidade da pandemia que perdura até hoje.
“Existem muitos medicamentos que estão em falta no mercado, justamente por causa da demanda. Em março passado houve uma demanda muito grande de álcool em gel. Eu, por exemplo, era o único que tinha álcool gel em Itabira. Aí vendi não apenas para pequenos consumidores, como também para empresas como a Vale e outros cidades como Mariana. Assim, consegui capitalizar isso”, explica o gestor.
Vacinação dos balconistas
Peças importantes na engrenagem farmacêutica, balconistas de farmácias itabiranas tem lutado para serem incluídos nos grupos prioritários da vacinação contra a Covid-19. O principal argumento da classe é de que eles são, muitas vezes, o primeiro contato de um infectado pelo vírus.
Balconista, desde 2010, Dirce Assis é uma das que brigam pela causa. Segundo ela, a irresponsabilidade de alguns contaminados é outro fator que os coloca em risco constantemente.
“Atendemos todos os dias clientes infectados ou parentes de clientes infectados. Eles deveriam estar em casa de quarentena, mas, muitas vezes, preferem comparecer pessoalmente na farmácia. Na maioria das vezes, já saem dos consultórios médicos ou hospitais e vão comprar seus medicamentos. Somos as primeiras pessoas depois dos médicos com quem eles têm contato”, ressalta.
Dirce conta que ela e seus colegas já procuraram o poder público para buscar uma solução contra o problema. Porém, nenhum tipo de resposta foi dado até o momento.
Samara de Melo protesta no mesmo sentido. Balconista desde 2015, ela diz que, assim como farmacêuticos, enfermeiros, médicos ou qualquer outro profissional da área da saúde, sua classe também é muito importante e necessária. Vivendo, diariamente, na corda-bamba do vírus, Samara conta que já viu vários dos seus colegas serem contaminados.
“Presenciei vários colegas de trabalho contaminados, perdendo parentes próximos. Temos medo de voltar para casa e levar risco à nossa família. Temos, sim, o direito à vacina, precisamos de mais proteção. Levantar todo dia com medo de atender clientes contaminados não é fácil, mas nunca deixamos de atender bem porque sabemos que eles precisam de nós. Pedimos já, aflitos, a vacina, precisamos de mais cuidados conosco. Estamos com medo.”
A angústia também é dividida por Jacqueline Jacques, proprietária da Farmácia do Pará. De acordo com a farmacêutica, 90% dos seus funcionários já contraíram o coronavírus, e falta um posicionamento oficial da Prefeitura sobre esta situação.
“A Prefeitura de Itabira ainda não disponibilizou vacina para nenhum funcionário da farmácia, a não ser o farmacêutico. Eles alegam que os demais funcionários, como balconistas e caixas, não têm função essencial. Porém, te digo que na minha loja 90% dos funcionários já foram contaminados e até hoje a Prefeitura não nos deu um retorno a respeito de quando eles serão vacinados. Já estamos sabendo que existem faxineiras, recepcionistas que já foram vacinados. E nós que recebemos os pacientes que saem direto do hospital não fomos imunizados ainda e não tem uma previsão.”

