A proximidade do esgotamento das reservas de minério de ferro coloca Itabira diante de um dos maiores desafios de sua história: construir um novo modelo de desenvolvimento capaz de sustentar a cidade após o fim da mineração. Esse foi o principal eixo da entrevista concedida pelo prefeito de Itabira e presidente da Associação Brasileira dos Municípios Mineradores (AMIG Brasil), Marco Antônio Lage (PSB), à Rádio Itatiaia. Segundo ele, o município precisa agir com rapidez, planejamento e visão de longo prazo para que a experiência do pós-mineração seja positiva e não marcada pelo empobrecimento.
“Itabira é um grande exemplo disso. Depois de 83 anos de exploração mineral, mais de 2 bilhões de toneladas de minério de ferro que foram extraídas daquele território, nós precisamos encontrar outras alternativas econômicas, promover essa transição econômica”, afirmou o prefeito. Ele lembrou que o minério é um recurso não renovável e que a cidade vive hoje uma corrida contra o tempo, com estimativa de cerca de 16 anos até a exaustão das reservas atualmente exploradas.
O cenário é agravado pela forte dependência financeira do município em relação à mineração. De acordo com Marco Antônio Lage, “mais de 80% do orçamento de Itabira hoje vem direta ou indiretamente da mineração”, o que torna o desafio ainda mais complexo.
“A mineração absorve muito a economia, a mão de obra, a cadeia produtiva toda. É uma indústria muito forte e que acaba sufocando outras possibilidades econômicas”, avaliou.
Diante desse quadro, o prefeito defendeu que a preparação para o pós-mineração não pode ser improvisada nem restrita a um único governo. “O ideal é que todo o território minerário precise se preparar para o futuro, criar um planejamento estratégico de Estado e não de governo, para o durante e para o pós-mineração”, disse. Segundo ele, essa visão tem orientado tanto as ações da Prefeitura quanto a atuação da AMIG em nível nacional.
Em Itabira, esse planejamento se materializou na construção de um plano estratégico inédito, desenvolvido em parceria com a Vale — o “Itabira Sustentável”. Marco Antônio Lage destacou que a iniciativa começou ainda em 2021, em meio à pandemia, quando a cidade convivia simultaneamente com diferentes medos. “Eu dizia que Itabira tinha dois medos: o medo da Covid e o medo da exaustão mineral e do empobrecimento”, relembrou. Segundo ele, a proposta foi enfrentar ambos de forma estruturada, e, no caso da mineração, pensar o futuro antes que o fim da atividade se tornasse uma realidade irreversível.
“A Vale aceitou essa construção, é uma experiência nova também para ela. Trouxemos uma consultoria internacional, paga pela Vale, para ajudar a estruturar esse planejamento de longo prazo”, explicou. O trabalho envolveu a sociedade civil organizada e resultou em um plano com 15 eixos estratégicos e mais de 60 projetos estruturantes. “Esse plano foi entregue à sociedade para que Itabira possa sobreviver após a mineração”, afirmou.
Entre as alternativas apontadas, o prefeito destacou a necessidade de manter a mineração como atividade econômica, porém em um novo patamar. “Fazer com que Itabira se transforme num centro de beneficiamento do minério da própria região”, defendeu. Segundo ele, mesmo com o fim das minas locais, outras áreas próximas continuarão sendo exploradas, o que abre espaço para que o município concentre etapas de processamento e agregação de valor.
Nesse contexto, Marco Antônio Lage citou a possibilidade de instalação de fábricas de briquetes, tecnologia de baixo carbono alinhada às exigências ambientais globais. “A Vale vai montar seis fábricas dessas pelo mundo, e uma delas a gente quer que seja em Itabira, porque ela retira carbono e faz um beneficiamento com baixa emissão”, disse. Ele também mencionou a possibilidade de uma siderúrgica e a estratégia defendida pelo governo federal de agregar valor aos minerais críticos no próprio país.
Educação, ciência e saúde
Outro eixo considerado fundamental é o fortalecimento da educação, da ciência e da tecnologia. “Nós estamos retomando a Unifei para desenvolver um polo científico e tecnológico em Itabira”, afirmou o prefeito, destacando que a presença universitária é essencial para formar mão de obra qualificada e sustentar novos arranjos produtivos. Ele também ressaltou a implantação da faculdade de medicina como um marco para a cidade. “Já estamos na terceira turma, formando médicos, e mais da metade dos estudantes são da própria região”, disse.
Esse movimento, segundo ele, se conecta diretamente à consolidação de Itabira como polo de saúde de alta complexidade e de turismo médico. “Itabira se especializa em altas complexidades médicas e desafoga Belo Horizonte”, afirmou, lembrando que a cidade atende uma macrorregião expressiva e pode transformar a saúde em um vetor estruturante da economia local.
Turismo, cultura e agronegócio
O prefeito também destacou o potencial turístico do município, tanto no campo cultural quanto ambiental. “Itabira é a cidade do Carlos Drummond de Andrade, com uma vertente literária e cultural muito importante, e tem uma zona rural belíssima, com cânions, cachoeiras e paisagens entre as mais bonitas do país”, disse. Para ele, o turismo precisa ser tratado como política pública estratégica, integrada ao planejamento de longo prazo.
A agropecuária foi apontada como outro setor capaz de ganhar protagonismo. Segundo Marco Antônio Lage, Itabira possui mais de mil quilômetros quadrados de área rural e já foi um importante produtor agrícola. “A mineração absorveu muito essas possibilidades, mas nós можем ampliar a participação do agronegócio, da agricultura familiar e da agroecologia no PIB do município”, defendeu.
Ele citou ainda a vocação logística da cidade, impulsionada pela Ferrovia Vitória-Minas. “A ferrovia nasce em Itabira e vai até o Porto de Vitória. Por que não fazer daqui um polo logístico para exportação da indústria mineira?”, questionou, ao apontar essa frente como mais uma alternativa para diversificar a economia local.
Mineração e fiscalização
Na entrevista, Marco Antônio Lage também abordou o papel da AMIG na discussão nacional sobre mineração, especialmente em relação à fiscalização e à arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM). Ele afirmou que a entidade tem atuado de forma técnica, com estudos em parceria com universidades, para propor mudanças estruturais. “A AMIG não é só uma entidade política, é uma entidade técnica, que trabalha com estudos para estruturar melhor o setor da mineração no Brasil”, afirmou.
Segundo ele, a fragilidade da fiscalização é um dos principais problemas do país. “Hoje, a Agência Nacional de Mineração tem quatro fiscais para fiscalizar cerca de 39 mil processos minerários. Isso mostra como estamos atrasados na gestão da mineração”, disse. Para o prefeito, fortalecer a ANM é fundamental tanto para combater a mineração ilegal quanto para proteger a mineração legal e garantir que a riqueza gerada seja revertida em desenvolvimento para os territórios minerados.
A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Itabira, ocorrida no fim do ano passado, foi citada apenas nesse contexto. Marco Antônio Lage afirmou que aproveitou a oportunidade para discutir, nos bastidores, os desafios do pós-mineração. “Eles estão dispostos a encontrar e ajudar Itabira nesse percurso, para que a cidade seja um exemplo positivo e não negativo de uma experiência de pós-mineração”, concluiu.

