“Vira homem, acorda para vida e volta pra sua realidade. Você é digno de pena, orelhudo, feio, viado e pobre”. Essas foram as palavras ouvidas por um itabirano de 26 anos ao sofrer humilhações homofóbicas proferidas por um familiar. A vítima, que é digital influencer, relata que os xingamentos foram disparados por motivos fúteis, depois que ele se recusou a fazer uma divulgação. O caso foi parar na Polícia Civil de Itabira, com boletim de ocorrência registrado na última quarta-feira (17).
“Devido à minha influência nas redes sociais, ela me pediu para divulgar. Só que eu decidi não divulgar e foi nesse momento que tudo começou. Minha parente me mandou várias mensagens, no entanto, quando fui responder, me deparei com a falta de respeito”, relata o itabirano.
O parente do digital influencer, começou a chamá-lo de “viadinho” e ainda disse para “tomar no **, que é disso que ele gosta”. Diante das humilhações, encaminhadas via mensagens no WhatsApp, com teor abusivo e discriminatório, o itabirano decidiu ir até a polícia. “Isso me ofendeu demais. Tudo que ela me chamou é um preconceito!”, conta o jovem.
O jovem relata que é a primeira vez que sofre homofobia e que entrou em choque com a situação. Após uma crise compulsiva de choro, ele diz que começou a questionar se realmente não era tudo aquilo que o familiar havia dito. Agora, ele afirma que pretende procurar um psicólogo para lidar com o trauma.
“Ela falou coisas muito fortes e eu acredito que nenhum ser humano pode ser tratado desse jeito. Eu afirmei a minha orientação sexual há pouco tempo e foi um processo bem complexo por ter pais evangélicos. Decidi não me esconder mais porque me apaixonei e comecei a namorar’, conta o itabirano.
Representatividade
O jovem disse que procurou DeFato Online para contar a sua história como forma de compartilhar a sua vivência e ajudar outras pessoas que já sofreram com a homofobia. “Isso é para mostrar às pessoas que elas não podem aceitar esse tipo de coisa. Quando eu li as mensagens, aquilo mexeu muito comigo, cheguei a ligar para a minha família para perguntar o que fazer. Ninguém pode se sentir no direito de usar essas palavras da forma que ela usou para me ofender. Isso é pecado”, relata.
Ele afirma que o parente chegou a apagar as mensagens, mas prints já haviam sido feitos. Homofobia é crime com pena de um a três anos de reclusão, além de multa, segundo a Lei Anti-Homofobia.
“Tudo isso me afetou, ela conseguiu mexer comigo. Por isso, hoje quero dizer às pessoas que elas não podem se importar com que os outros pensam e sim com o caráter de cada um. Ninguém deve aceitar ser magoado e, se isso acontecer, é necessário chamar a polícia como eu fiz. A homofobia, o racismo e qualquer forma de preconceito tem que acabar. Eu denunciei, vou processar por danos morais e agora sigo até o fim”.
Mês do Orgulho LGBT
28 de junho é o Dia do Orgulho LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersex), data celebrada e lembrada mundialmente, que marca um episódio ocorrido em Nova Iorque, em 1969. Naquele dia, as pessoas que frequentavam o bar Stonewall Inn, até hoje um local de frequência de gays, lésbicas e trans, reagiram a uma série de batidas policiais que eram realizadas ali com frequência.
O levante contra a perseguição da polícia às pessoas LGBTI durou mais duas noites e, no ano seguinte, resultou na organização na 1° parada do orgulho LGBT, realizada no dia 1° de julho de 1970, para lembrar o episódio. Hoje, as Paradas do Orgulho LGBT acontecem em quase todos os países do mundo e em muitas cidades do Brasil ao longo do ano.
Porém, infelizmente, a perseguição, discriminação e as violências contra pessoas por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero – real ou percebida – não acabou. No relatório “Making love a crime”, a Anistia Internacional mostra que em 38 países da África, a homossexualidade é criminalizada por lei, e ao longo da última década houve diversas tentativas de tornar estas leis ainda mais severas.
Crime
O Brasil se tornou no ano passado o 43º país a criminalizar a homofobia, segundo o relatório “Homofobia Patrocinada pelo Estado”, elaborado pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais (Ilga).
No entanto, de acordo com o relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia 329 LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) tiveram morte violenta no Brasil, vítimas da homotransfobia, em 2019. Foram 297 homicídios e 32 suicídios. Isso equivale a 1 morte a cada 26 horas.O grupo indica uma redução de 26%, se comparado com o ano anterior. Em 2017 foram 445 mortes e em 2018, 420.

