No rastro de uma série de operações policiais que resultaram em dezenas de mortes ao longo das últimas semanas, com destaque para uma chacina ocorrida no Guarujá (SP) e outros assassinatos ocorridos na Bahia e no Rio de Janeiro, entidades do movimento negro, de organizações sociais, partidos políticos e sociedade civil realizaram atos unificados em todo o país nesta quinta-feira (24). A data também marcava os 141 anos da morte do advogado e abolicionista Luiz Gama, referência na luta por igualdade racial no Brasil.
Em Itabira, cerca de 20 manifestantes estiveram reunidos na Praça Acrísio de Alvarenga, protestando pelo fim da violência policial, do genocídio e encarceramento massivo da população negra. O encontro também foi um momento de troca de vivências, debates sobre a ausência de políticas públicas e partilha das violências sofridas pela população.
Uma das figuras lembradas no encontro foi a Yalorixá Maria Bernadete Pacífico, conhecida como Mãe Bernadete. Líder do Quilombo Pitanga de Palmares, localizado no município de Simões Filho, na região metropolitana de Salvador, ela foi brutalmente assassinada na noite da última quinta-feira (17), dentro de casa e diante dos netos.
Mãe Bernadete era integrante da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq) e ex-secretária de Promoção da Igualdade Racial de Simões Filho. O caso está em investigação e pode ter relação com a disputa pelo território quilombola, até hoje não regularizado, onde vivia a ativista.
‘‘Além de ter nossos jovens abatidos, temos mulheres pretas e até mesmo idosas passando pelo mesmo’’, frisou a ativista Lia Andrade. ‘‘Quantas notas de repúdio ainda vamos precisar para acabar com isso? Quando a gente vai cobrar das pessoas certas?’’, questionou indignada outra manifestante que estava presente.
Camila Vieira Rocha, ativista itabirana que participa da Rede Nacional de Mulheres Negras no Combate a Violência, também somou voz no encontro. Anteriormente, na última terça-feira (22), durante a reunião ordinária da Câmara Municipal de Itabira, ela esteve no Plenário apontando dados sobre a violência policial sob à população negra:
“Só nos últimos cinco anos mais de 100 crianças e adolescentes foram baleados no país. Sendo que 30 perderam as suas vidas durante as chamadas ‘‘operações policiais’’ entre 2017 e 2019”, enfatizou a ativista, acrescentando que ‘‘a violência policial responde por 5% dessas mortes violentas de jovens pretos no país’’.
Membro do coletivo “Desencarcera-MG” e da “Associação de Amigos e Familiares de Pessoas Privadas de Liberdade de Minas Gerais”, Valéria Barbosa compartilhou aos manifestantes parte de sua vivência enquanto familiar de quem já passou pelo cárcere. Emocionada, ela desabafou que já sofreu tortura policial e ao promover uma denúncia sobre o caso, o processo foi arquivado.
Além da participação das ativistas, outros jovens também somaram coro ao protesto. Confira a galeria de fotos.

