O jornalista Felipe Pedrosa lança nesta quarta-feira (15), em Contagem, o livro-reportagem “Contagem: Da Abóbora à Indústria Cultural”, resultado de anos de entrevistas, registros audiovisuais e investigação sobre a formação histórica e cultural do município. O lançamento ocorre a partir das 19h30, na Casa Nair Mendes Moreira, no Centro da cidade, com entrada gratuita e retirada prévia de ingressos pelo Sympla.
“O livro nasce da escuta. De parar, sentar e ouvir quem constrói Contagem todos os dias, mas quase nunca aparece nos registros oficiais. É uma tentativa de contar a cidade a partir de quem vive aqui”, afirma Pedrosa, em entrevista exclusiva à DeFato. Segundo o autor, a obra não busca organizar uma narrativa linear ou institucional, mas revelar camadas da cidade que permanecem à margem da história oficial.
Derivado do projeto Trem Pra Fazer, que começou como iniciativa de comunicação cultural e se expandiu para podcasts, documentários e séries de entrevistas, o livro percorre desde o período colonial até as manifestações culturais contemporâneas, sem perder de vista as continuidades históricas. O título sugere esse trajeto, que parte de imagens associadas ao cotidiano simples para chegar à complexa engrenagem simbólica da indústria cultural.
Ao longo da apuração, Pedrosa identifica pontos de tensão recorrentes entre memória popular e discurso oficial.
“Um dos aspectos mais fortes foi a herança africana no município. Ela é conhecida no imaginário popular, mas pouco reconhecida institucionalmente. Os depoimentos mostram que a história de Contagem vai muito além da folia de reis. Houve trabalho escravizado, exploração e silenciamentos que ainda moldam o território”, relata. Ele destaca ainda que a presença negra é frequentemente reduzida a celebrações simbólicas, sem o devido enfrentamento histórico.
Outro eixo central do livro é a cultura produzida nas periferias e sua relação com a precariedade estrutural.
“A cena teatral de Contagem é potente, mas manca. Falta um teatro público em pleno funcionamento. Isso revela um padrão: a cultura existe apesar da ausência de políticas, e não porque elas existem”, afirma. Para o autor, esse descompasso ajuda a compreender por que determinadas expressões culturais ganham visibilidade estética, mas não recebem investimento material.
O processo de escuta também levou Pedrosa a rever sua própria relação com a cidade.
“Ao revisitar histórias e conhecer tantas outras, eu percebi que é bom ser de Contagem. Isso fortaleceu minhas escolhas pessoais e profissionais. Um detalhe que me marcou foi perceber que o município deveria integrar o roteiro da Estrada Real, já que foi rota da Coroa Portuguesa e teve seu solo profundamente explorado”, diz.
No livro, carnaval, cinema periférico, batalhas de rima, juventude e ocupações culturais aparecem como formas de produção de patrimônio. Esse enquadramento, segundo o autor, desloca o centro das disputas simbólicas.
“O risco não está na celebração, mas em celebrar sem mudar a realidade que produz essa cultura. Não podemos romantizar a escassez. Outro perigo é o apagamento da memória, quando manifestações passam a ser apropriadas e quem construiu tudo fica invisível”, analisa.
Pedrosa também reflete sobre os limites éticos do registro jornalístico e cultural.
“Escolhi falar de mim para não usar ninguém como trampolim narrativo. E optei por descrever com precisão as falas dos entrevistados. Registrar histórias que nunca foram registradas exige responsabilidade, porque você mexe com afetos, trajetórias e disputas reais”, afirma.
Para o autor, o livro-reportagem amplia o alcance do trabalho iniciado no podcast.
“O livro impresso ainda faz um barulho grande. Ele chega a pessoas que não escutam podcast e vai circular em bibliotecas públicas e escolas. Quero democratizar a leitura e mostrar à juventude que há caminhos possíveis. O livro tem mais entrevistas, mais contexto e atualizações que o áudio não comporta”, explica.
Além do lançamento, exemplares da obra serão distribuídos em bibliotecas públicas de Contagem e apresentados em encontros com estudantes. O livro tem prefácio de Poli Dias, revisão de Thalita Martins e ilustrações de Alexandre Junior, que também assina a capa. Para Pedrosa, lançar a obra na Casa Nair Mendes tem valor simbólico.

