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Mineração responde por 55% do saldo comercial brasileiro: o que esse dado revela sobre a economia do país

CBMM produção e comercialização de produtos de Nióbio

Mais da metade do superávit da balança comercial brasileira em 2025 veio da mineração. O dado, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) em coletiva à imprensa nesta terça-feira (3), escancara o peso crescente do setor mineral no desempenho externo do país — e reabre o debate sobre dependência econômica, agregação de valor e riscos estruturais do modelo.

Segundo o IBRAM, a mineração foi responsável por 55% do saldo total da balança comercial brasileira em 2025, que fechou em US$ 68,3 bilhões. O setor mineral respondeu sozinho por US$ 37,6 bilhões desse resultado, um salto expressivo em relação a 2024, quando a participação havia sido de 47%.

Os números reforçam o protagonismo da mineração no atual contexto geopolítico global, marcado pela corrida por minerais estratégicos ligados à transição energética, à indústria de defesa e às novas tecnologias. Ao mesmo tempo, expõem a dependência brasileira da exportação de commodities minerais, especialmente do minério de ferro.

Faturamento cresce, mas concentração permanece

O faturamento da indústria da mineração atingiu R$ 298,8 bilhões em 2025, crescimento de 10,3% em relação ao ano anterior. O minério de ferro respondeu por 52,6% do total, mesmo com queda de 2,2% no valor faturado, reflexo da oscilação dos preços internacionais.

Minas Gerais, Pará e Bahia concentraram quase 80% do faturamento do setor, mantendo a forte desigualdade regional da atividade mineral no país.

Durante a coletiva, o vice-presidente do IBRAM, Fernando Azevedo, destacou que o desempenho confirma a relevância econômica do setor:

“Os resultados evidenciam uma indústria com desempenho robusto, forte inserção no comércio exterior e ampliação do ciclo de investimentos, especialmente em minerais considerados estratégicos para o futuro da economia.”

Exportamos volume, não valor

Em 2025, o Brasil exportou 431 milhões de toneladas de produtos minerais, alta de 7,1% em volume, gerando receitas de cerca de US$ 46 bilhões. O minério de ferro respondeu por 62,8% das exportações minerais, evidenciando a baixa diversificação da pauta.

Apesar do discurso recorrente sobre verticalização e industrialização, a estrutura das exportações segue fortemente baseada em matéria-prima bruta, com pouco valor agregado. Durante a coletiva, o próprio IBRAM reconheceu o desafio.

“É um momento que o Brasil precisa aproveitar para criar políticas consistentes e linhas de financiamento voltadas à verticalização, e não apenas à exportação de matéria bruta”, afirmou Azevedo.

Investimentos avançam, mas recuperação ambiental fica fora do radar

A projeção de investimentos para o setor mineral entre 2026 e 2030 chega a US$ 76,9 bilhões, crescimento de 12,5% em relação ao ciclo anterior. Os chamados minerais críticos e estratégicos — como cobre, níquel, grafita, nióbio, terras raras e vanádio — devem concentrar US$ 21,3 bilhões, alta de 15,2%.

Apesar do otimismo com novos projetos, nenhum valor específico foi detalhado para investimentos em recuperação ambiental, um ponto sensível diante do histórico recente de acidentes e extravasamentos em Minas Gerais.

Extravasamentos e responsabilização: o limite do discurso institucional

Durante a coletiva, a jornalista Edna Coelho questionou o IBRAM sobre as responsabilizações pelos extravasamentos registrados recentemente em Congonhas e Ouro Preto, ambos envolvendo estruturas ligadas à Vale, e sobre o que o setor tem feito para evitar novos episódios.

Em resposta, o instituto adotou uma postura cautelosa e institucional:

“Nós não можем fazer comentários sobre eventos envolvendo empresas associadas. As questões específicas devem ser endereçadas diretamente às companhias responsáveis”, afirmou Fernando Azevedo.

Ainda assim, o IBRAM buscou reforçar a narrativa de segurança no setor:

“Há seis anos não registramos acidentes com barragens de grande porte. O Brasil possui hoje uma das legislações mais avançadas do mundo em monitoramento e segurança de barragens, inclusive considerando eventos climáticos extremos.”

A fala, no entanto, não abordou diretamente mecanismos de responsabilização, punições ou reparação ambiental, temas que seguem no centro das cobranças de comunidades atingidas e órgãos de controle.

Dependência estrutural em xeque

O dado de que mais da metade do saldo comercial brasileiro depende da mineração levanta uma questão central: o que acontece com a economia brasileira se os preços internacionais do minério caírem?

Em 2025, a queda no preço do minério de ferro já foi parcialmente compensada pelo aumento da produção e pela alta de outros minerais, como ouro e cobre. Mas analistas alertam que a dependência excessiva de commodities torna o país mais vulnerável a ciclos externos e crises globais.

Enquanto o discurso institucional aponta para um “novo ciclo do minério”, impulsionado pela geopolítica e pela transição energética, os dados mostram que a velha estrutura exportadora permanece praticamente intacta — com ganhos expressivos no curto prazo, mas desafios estruturais ainda sem resposta clara.

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