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Ministério Público abre investigação contra vereador Luiz Carlos e aponta possível abuso de autoridade, perseguição a servidoras e outros crimes

Ministério Público abre investigação contra vereador Luiz Carlos e aponta possível abuso de autoridade, perseguição a servidoras e outros crimes

Foto: Guilherme Guerra/DeFato Online

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) instaurou um inquérito civil para investigar o vereador Luiz Carlos de Souza “de Ipoema” (MDB), após uma série de denúncias envolvendo supostos abusos contra servidores públicos municipais durante fiscalizações em unidades de saúde de Itabira.

A decisão foi assinada pelo promotor de Justiça Jorge Victor Cunha Barretto da Silva, da Promotoria de Defesa do Patrimônio Público e da Probidade Administrativa da Comarca de Itabira, e descreve o que o órgão considera um “padrão sistemático de condutas abusivas” no exercício do mandato parlamentar.

Segundo o despacho, o procedimento foi aberto para apurar “suposto desvio de finalidade em ‘investigações individuais’, supostamente arbitrárias, realizadas pelo vereador em serviços públicos do Município de Itabira”.

De acordo com o Ministério Público, as denúncias indicam que o parlamentar teria abordado servidores de forma intimidatória, realizado filmagens sem autorização e publicado vídeos editados nas redes sociais, expondo funcionários públicos.

“O vereador teria praticado, em tese, de forma reiterada, condutas graves e incompatíveis com o decoro parlamentar, consistentes em abordar de forma vexatória e intimidatória servidores públicos municipais (…) realizando filmagens sem autorização e divulgando posteriormente vídeos editados e manipulados”, afirma o documento do MPMG.

Quatro episódios motivaram a investigação

O despacho do Ministério Público reúne quatro situações registradas em boletins de ocorrência e denúncias formais, envolvendo momentos distintos em unidades de saúde e outros serviços públicos de Itabira.

Caso 1: abordagem a servidora em Ipoema

O primeiro episódio aconteceu em 24 de setembro de 2025, no distrito de Ipoema. Segundo a denúncia, o vereador entrou no local de trabalho da servidora Priscila Ribeiro Oliveira, acusando-a publicamente de abandono de função e de receber salário sem cumprir jornada.

“Sem qualquer autorização formal da Câmara Municipal, sem instauração prévia de Comissão Parlamentar de Inquérito e agindo de forma pessoal e unilateral, começou a acusá-la publicamente de estar deixando a população desassistida, de estar recebendo vencimentos sem trabalhar adequadamente e de descumprir sua jornada de trabalho, afirmando que estava ali para realizar uma ‘investigação'”, diz trecho do despacho do MPMG.

A promotoria ainda complementa que “durante essa abordagem, o parlamentar passou a filmá-la com seu aparelho celular, sem seu consentimento. A vítima relatou que pacientes presentes na unidade de saúde manifestaram-se espontaneamente em sua defesa, contradizendo as acusações e atestando que ela estava presente e cumprindo suas atribuições”.

Entretanto, segundo o MPMG, essas manifestações teriam sido retiradas do vídeo posteriormente publicado nas redes sociais do parlamentar Luiz Carlos de Ipoema.

“Quando o vereador publicou o vídeo em sua rede social Instagram, essas manifestações favoráveis foram deliberadamente editadas e suprimidas”, aponta o despacho.

A publicação teria gerado grande repercussão e comentários ofensivos direcionados à profissional.

Caso 2: acusação de uso de pacientes como “cobaias”

Outro episódio aconteceu em maio de 2025 e envolve a enfermeira Fernanda Maria Santos Ferreira. A profissional relatou que realizava visita domiciliar com um acadêmico de medicina, dentro das diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) e com autorização do paciente, quando surgiu um vídeo nas redes sociais acusando a equipe de tratar pacientes como “cobaias”.

Segundo o Ministério Público, o vereador referendou as acusações e criticou o serviço de saúde, sem ouvir a versão da profissional.

“As declarações foram acompanhadas e referendadas pelo vereador, que manifestou-se de forma negativa sobre os serviços de saúde na região”, registra o documento.

A enfermeira tentou entrar em contato com o parlamentar para prestar esclarecimentos, mas foi informada de que o caso seria tratado apenas na Justiça ou no Legislativo.

Caso 3: exposição de hospital nas redes sociais

O terceiro caso aconteceu em 8 de setembro de 2025, envolvendo o Hospital Nossa Senhora das Dores (HNSD). Uma paciente insatisfeita com atendimento acionou o vereador, que compareceu à unidade hospitalar e gravou um vídeo com críticas à unidade. De acordo com o Ministério Público, o material foi publicado nas redes sociais expondo a situação do hospital.

“O vereador gravou vídeo com a paciente expondo não apenas suas queixas pessoais, mas também as condições das instalações físicas e de higiene da unidade de saúde”, relata o despacho.

Embora o episódio não envolva diretamente um servidor específico, o Ministério Público considera que ele demonstra o padrão de atuação do parlamentar ao utilizar redes sociais para expor situações relacionadas ao serviço público.

Caso 4: tentativa de fiscalização no Centro de Reabilitação

Outro episódio citado aconteceu em 7 de maio de 2025, no Centro de Reabilitação de Saúde de Itabira. Segundo o relato das servidoras Thereza Cristina Oliveira Andrade e Adriana Coelho Dias, o vereador tentou realizar uma fiscalização no setor de hidroterapia, onde existe uma piscina ainda sem funcionar.

As servidoras informaram que a visita precisaria seguir procedimentos administrativos, com ofício e agendamento prévio, mas a situação teria se tornado tensa.

“Diante da negativa das servidoras em permitir o acesso irrestrito, a assessora do vereador passou a filmá-las, mesmo após pedido expresso para que cessasse a filmagem”, relata o documento.

O vereador teria afirmado que poderia filmar por se tratar de funcionárias públicas e chegou a tentar acionar a Polícia Militar.

MP aponta possível abuso de prerrogativas

Na análise jurídica, o Ministério Público afirma que a fiscalização parlamentar tem limites legais e não autoriza ações individuais fora dos procedimentos institucionais.

“A fiscalização parlamentar (…) não autoriza atuação como investigador individual, com diligências pessoais, filmagens vexatórias e acusações à margem dos procedimentos institucionais”, destaca o promotor.

O documento afirma que as condutas podem se enquadrar como infração político-administrativa, podendo configurar quebra de decoro parlamentar.

O próprio Regimento Interno da Câmara prevê punição para vereadores que:

Possíveis crimes investigados

Além da esfera política, o Ministério Público também identificou indícios de possíveis crimes.

Entre as hipóteses citadas estão:

Segundo o promotor, ao iniciar “investigações” sem base legal e sem autorização da Câmara, o vereador pode ter atuado de forma irregular.

“O parlamentar, ao iniciar ‘investigações’ sem amparo legal (…) possivelmente teria incorrido em perseguição administrativa injustificada”, aponta a decisão.

O Ministério Público também menciona que a filmagem e exposição de servidores pode ter gerado situação de constrangimento e violação da dignidade profissional.

Possível improbidade administrativa

O despacho também cita a possibilidade de improbidade administrativa, prevista na Lei 8.429/92. Segundo o promotor, as condutas investigadas podem representar violação de princípios fundamentais da administração pública.

“O abuso sistemático de prerrogativas parlamentares (…) e a utilização do mandato para exposição vexatória de funcionários públicos violam os princípios da legalidade, moralidade, imparcialidade e honestidade”, registra o documento.

Para o Ministério Público, o vereador pode ter utilizado o cargo para promoção política por meio da exposição pública de servidores.

MPMG determina abertura de inquérito civil

Diante das denúncias, o promotor decidiu instaurar formalmente um inquérito civil para aprofundar as investigações.

“Verifica-se a necessidade de instauração de inquérito civil para apurar com profundidade os fatos noticiados”, afirma a decisão.

O procedimento vai investigar:

Câmara poderá analisar cassação

Entre as determinações do Ministério Público está o envio de ofício à Câmara Municipal de Itabira. O Legislativo deverá informar se existe Comissão de Ética e Decoro Parlamentar e avaliar a abertura de procedimento disciplinar contra o vereador.

Caso instaurado, o processo deve ouvir:

Polícia Civil vai abrir inquérito criminal

Outra medida determinada pelo Ministério Público foi a requisição de abertura de inquérito policial pela Polícia Civil. A investigação deverá apurar os possíveis crimes mencionados na decisão e incluir:

Também foi determinada perícia nos conteúdos publicados no Instagram do vereador para verificar possível edição ou manipulação das imagens.

Vereador terá prazo para apresentar defesa

O vereador Luiz Carlos de Souza será notificado pessoalmente para apresentar esclarecimentos. Ele terá 15 dias para enviar defesa por escrito, podendo anexar documentos e indicar testemunhas.

O Ministério Público ressaltou que o silêncio do parlamentar não será interpretado como admissão de culpa.

Servidoras também serão ouvidas

O despacho determina ainda a notificação das servidoras citadas nas denúncias:

Elas deverão prestar declarações detalhadas, apresentar provas e informar se sofreram danos após a divulgação dos vídeos.

Prazo para conclusão das diligências

O Ministério Público estabeleceu prazo inicial de 90 dias para retorno das diligências, quando será feita uma nova análise sobre os elementos coletados.

“Determino a autuação, registro e publicação deste despacho (…) designando prazo de noventa dias para retorno das diligências”, conclui o promotor Jorge Victor Cunha Barretto da Silva.

Outro lado

O portal DeFato Online entrou em contato com o vereador Luiz Carlos de Ipoema, por meio do WhatsApp, que se limitou a dizer: “meu jurídico já está tratando isso”.

Porém, em comentários nas redes sociais, Luiz Carlos também afirmou o seguinte:

“Tem gente perguntando sobre as denúncias e ataques que estão surgindo contra mim.
Pois é… esse é o preço que se paga quando se decide enfrentar o sistema e defender de verdade o dinheiro do povo. Quando a gente começa a questionar, fiscalizar e mostrar o que muita gente preferia que continuasse escondido, as reações aparecem.
Mas quero deixar algo muito claro: eu não vou me calar.
Meu compromisso sempre foi com a população, com quem trabalha, paga imposto e merece respeito. Não entrei na política para fechar os olhos para o que está errado.
Se tentar me intimidar com denúncias ou ataques, a resposta vai ser mais transparência, mais fiscalização e mais verdade.
E podem ter certeza: muita coisa ainda vai vir à tona. O povo tem o direito de saber de tudo.
Seguimos firmes, com coragem e com a consciência tranquila. Quem está do lado do povo não tem motivo para ter medo”.

Foto: Reprodução
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