Paulo Henrique Dias – de Belo Horizonte
Com a instauração da crise do coronavírus no Brasil, um dos setores mais afetados foi o do transporte escolar. Escolas foram fechadas e alunos passaram a ficar em casa. O cenário desencadeou uma intensa procura por renegociações de contratos entre pais e motoristas e, nos casos mais extremos, ao cancelamento da prestação de serviço.
No meio da semana, uma nota técnica do Procon de Minas Gerais instruiu que motoristas e contratantes devem procurar um acordo para redução dos valores, visto que não justifica, com os veículos parados, incluir na cobrança gastos como combustível e manutenção. Em caso de não haver acordo, a rescisão deverá ser sem multa.
Sustento da família
Prestadores de serviço que conversaram com a reportagem de DeFato Online em Belo Horizonte comentam que a procura por rescisões cresceu muito desde a nota técnica emitida pelo Procon. Por outro lado, eles reclamam que bancos e financeiras não dão a eles a mesma opção de negociação. Diante disso, pelo menos 50 motoristas participaram de um protesto nessa sexta-feira (24), em mais de 15 pontos da capital.
Carla Passos, 36, tem no transporte escolar uma tradição familiar. Ela atua na região do Barreiro, em BH, e conta que os contratos com os pais estão sendo negociados desde início de abril. “Vários pais estão nos procurando e negociando. Nós estamos propondo uma redução no valor do combustível, já que não estamos utilizando agora. O que a gente procura é manter um percentual mínimo para que o sustento da família possa continuar. O transporte escolar é o que provém toda a renda familiar da nossa casa e das pessoas que dependem de nós, como as monitoras. Sem esse valor, nós não temos como manter o trabalho delas”, explica.
No escolar de Carla, desde a paralisação das aulas, 50% dos contratos foram mantidos pelos pais por meio de negociação, já os outros 50%, foram cancelados. Ainda segundo Carla, após a orientação do Procon-MG, um percentual considerável deu baixa na prestação de serviço. Hoje, ela não sabe precisar quantos alunos estão com contrato ativo, já que a todo instante o telefone toca para fazer o cancelamento.
“Entre os poucos pais que ainda nos apoiavam, muitos deles já entraram em contato dizendo que não há mais este apoio. Eu estou pedindo para eles paciência, calma e cautela que até o final do mês nós vamos tentar chegar em um acordo juntos. Porque eu acredito, sim, que as pessoas estão passando por necessidade, mas muitas delas estão nos abandonando mesmo com condições de manter o pagamento mínimo”, desabafa.
Impasses
Ramon Nunes, 29, que trabalha no meio há seis anos, também relata situação complicada. Segundo ele, 35% dos contratos foram revogados em meio a paralisação das aulas. Ele argumenta que o posicionamento do Procon colocou os contratantes e prestadores de serviços em um cenário de embate. “Já estávamos com dificuldades para receber, agora piorou. Em outras vans, tem pessoas que já perderam de 15 a 20 alunos”, relata.
Cliente há dois anos de um escolar na capital, Ana Elisa, 53 anos, tentou uma negociação com o prestador de serviço para que houvesse redução na mensalidade, já que o traslado da filha, de 16 anos, não está acontecendo, mas não obteve sucesso. “Disseram que não poderiam dar desconto porque já está com desconto de quase 50% se pagar em dia”, conta. Com a nova orientação do Procon, ela acha que ficará mais acessível para tentar uma futura renegociação com o escolar da filha.

