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O novo coronavírus brinca de esconde-esconde com o itabirano

coronavírus

Foto: Arquivo DeFato

Noite de sábado. Uma lua bisonha bisbilhota a paisagem urbana. É a dona absoluta de um céu levemente puro. Um mar celeste de tranquilidade. Mas tem um componente estranho nesse cenário. Uma exótica aeronave extraterrestre sobrevoa Itabira suavemente.

O piloto alienígena parece encantado com a natural agitação desse pedaço do planeta nanico. Uma alegria onipresente invade o ar da cidade. Em todos os cantos, tudo se festeja. Duas da madrugada. É hora de baladas mil. Beijos e abraços são moedas de troca na encantadora noitada. 

O viajante interestelar decide pernoitar na fascinante terra de intensa poesia. Escolhe fria floresta periférica para esconder a si e o disco voador (talvez o fundo da Mata do Intelecto). Não pretende incomodar ninguém, mas a recíproca também é verdadeira. Afinal, com humanos não se brinca. 

Na manhã de domingo- antes de tomar outro rumo- resolve dar derradeira espiada nos engraçados terráqueos. A felicidade continua a toda. Uma pequena multidão descontraída já toma conta da Praça do Areão. Sem medo de ser feliz. Homens, mulheres, crianças, passarinhos e cachorros ocupam literalmente a improvisada área de lazer.  

Hora de ir embora. O solitário ET faz alguns ajustes no painel de controle da nave multicolorida. “Tá ok”, conclui com expressão típica de capitão botocudo. Agora, se espreguiça na confortável poltrona da cabine de comando. Cerra lentamente os olhos e sussurra languidamente: “Eu não imaginava que o povo do interior da Inglaterra fosse tão feliz”. 

O ser do além errou a rota. Trocou alhos por bugalhos. O objetivo original era chegar a um local específico desse bizarro “asteroide” devastado por impiedosa pandemia. A viagem espacial tinha motivo relevante: a pesquisa sobre o comportamento de uma população completamente imunizada contra a Covid-19. O cientista galáctico iria a Bakewell, mas crasso problema técnico (ou calmaria excessiva) fez a aeronave se deslocar para o espaço aéreo itabirano. Um erro do GPS de outro mundo provocou o incidente. 

Estamos em plena segunda onda de ataques do vírus letal, já na antessala da possível terceira fase de contaminação. Itabira é uma cidade de outra dimensão. “Acá” há uma postura “avessa do avesso”, em plena disseminação de infecção da pior crise sanitária da história da humanidade. A sociedade de Mato Dentro anda sossegada. O vírus escafedeu-se. O “coisa ruim” se escondeu numa moita qualquer da cidadezinha idem. O mal, porém, continua à espreita. De repente, surge impávido (pois colosso não é invisível) defronte a algum solitário e imprevidente transeunte. Aparece súbito e urra com determinação: “TE PEGUEI”.  

E vida que segue. Ruas lotadas, lotéricas apinhadas, lojas abarrotadas, botecos entupidos e a indiana do banco estatal cada dia mais extensa. A máscara caiu. É a normalidade na anormalidade. Só falta a intercessão de Deus, caso Ele haja.

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião da DeFato.

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