Aproveito este espaço para prestar comovente “homenagem” às genitoras dos assassinos de Orelha, o dócil cão comunitário de Praia Brava, Santa Catarina. Acreditem se quiser. Os canalhinhas têm mães. E pais também. Lamento, mas as digníssimas senhoras cometeram crassos erros elementares na educação dos mimados rebentos. E note bem. Educar não é função de professores. Afinal, o sistema familiar educa, enquanto escolas instruem. Os jovens catarinenses não demonstram compaixão pelo próximo. Desconhecem o significado do termo empatia. Estes delinquentes sequer percebem a realidade básica da criação: os animais não se encontram nesta dimensão por simples acaso. As coisas desta existência têm natural motivação. Mas, convenhamos. É inutilidade intelectual exigir “complexas” compreensões de mentes toscas. Então, neste contexto, fica explícita a falha original na formação destes catarinenses.
Nesta toada toda, um detalhe repugnante também não passa despercebido. Os criminosos imaginaram que a condição de “filhinhos de papais” seria passaporte para a impunidade. “Papais”, neste caso, é sinônimo de endinheirados. Os garotos pervertidos vivem nababescamente em universo paralelo, bem distante das mazelas da sociedade. O verdadeiro deus destes pequenos (literalmente) é o dinheiro. Os adoradores da grana imaginam que a divindade monetária compra tudo. Por meio do vil metal, adquirem-se honradez, caráter e moral. Subornam-se justiça, polícia, imprensa e religião. Ninguém escapa à sanha monetária deste segmento. A maldita moeda coloca preço até no silêncio dos indignados. Os parentes dos matadores de Orelha tentaram negociar a “vista grossa” das testemunhas do crime hediondo. Claro, as tratativas funcionaram na base do “argent” e mira de revólver. Era bufunfa ou bala. Em suma. Essa turma acredita piamente na imunidade dos “podero$o$”. Os astros desta tragédia são sócios da confraria da pizza.
Assim, com esta performance, a humanidade adentra o mundo cão. Na verdade, o planeta até seria mais interessante se fosse predominantemente habitado por cachorros (e outros “seres irracionais”). Na certa, o cenário seria de paz intensa, alegria pura, fidelidade extrema e amor incondicional. Santa Catarina — que nada tem de sacro — sinaliza em sentido contrário.
Orelha era “alguém” feliz. Curtia intensamente a sua condição de incondicional dependência. Contava com ampla e confortável assistência dos moradores da localidade: alimentação, assistência veterinária e cuidados de higiene. Recebia o necessário e suficiente para sobreviver com dignidade. O maravilhoso vira-lata tinha, portanto, motivos de sobra para admirar o espécime humana. No entanto, a confiança excessiva no “bicho homem” custou a vida do afável irracional.
Um bando de pivetes cometeu as maiores atrocidades contra o inocente peludo. Destroçaram literalmente um ente vivo a troco de que? Simples diversão. Foi atitude típica de pré-psicopatas. Consequência. A sociedade futebol clube que arque com a presença destes humanoides abjetos em seu seio. O silêncio das mães dos “anjinhos” é eloquente. Ainda não ouvi as manifestações dessas madames da alta soçaite. Quem cala consente? A interrogação é resposta cabal. Mas — no fundo, no fundo — este mutismo materno talvez seja a comprovação do ocaso da instituição família. A tal família — no seu tradicional conceito social e religioso — não é referência para esta ralé moral (apesar das gordas cifras bancárias). Enfim, os lazarentos que mataram Orelha são genuínos filhos das mães.
P.S.1: Essa crônica é uma satisfação ao meu Yorkshire Chiquinho, cujo nome é uma homenagem a São Francisco de Assis e seu antecessor-Chiquinho Primeiro- que morreu há sete anos. Chiquinho Segundo é o meu assessor para assuntos aleatórios e eventuais fugas da realidade.
P.S.2: A Polícia concluiu que Orelha foi assassinado por apenas um marginal. Ótimo. Que o delinquente padeça no mundo do cão, mas, não de cão.
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.
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