O Brasil é paraíso surrealista. Na última década, três ex-presidentes da República se hospedaram em masmorras. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou trancafiado por 580 dias na carceragem da Polícia Federal em Curitiba. Michel Temer (MDB) passou uma semana numa cela do Comando da Polícia Militar de São Paulo. Fernando Collor de Mello encontra-se em prisão domiciliar em Maceió, desde abril. O próximo desta “ilustre” fila atende pelo nome Jair Messias Bolsonaro (PL). O Mito, a princípio, ocupará sala especial de uma unidade do Exército. Pouco tempo depois, devido à sua precária saúde, será transferido para a residência familiar no famoso condomínio “Solar de Brasília”.
Impressiona, neste contexto, a ligeireza da Justiça contra os antigos inquilinos do Palácio da Alvorada. Os trâmites andam na velocidade do misterioso 3I Atlas, ou apenas 58Km/s. O processo de Lula fez voo rasante de jato supersônico. O julgamento de Bolsonaro se assemelha ao passeio de um cometa pela imensidão dos cosmos. Num piscar de olhos, o capitão foi parar na antessala do xilindró. Parece existir evidente necessidade de trancafiar ex-chefes do Executivo nacional em tempo recorde. Esta rapidez é a forma de se demonstrar agilidade num sistema tradicionalmente inerte. Afinal, a trôpega Justiça do bananal desfila com a desenvoltura de paquiderme manco. A “eficiência” com os ex-presidentes escancara também a clara ascendência do Judiciário sobre o Executivo e Legislativo.
Um cenário resta muito claro. Encrencas de velhos mandatários maiores da Republica fazem o rito do processo legal avançar na celeridade da luz. O Brasil, de fato, é paraíso do surrealismo. A burocracia forense, porém, funciona no modo tartaruga quando o réu é pilantra sem função pública. Exemplo recente ilustra esta sensação. Uma quadrilha — travestida de entidades associativas — surrupiou R$ 6 bilhões dos aposentados. Aqui se fala de um dos maiores rombos (ou roubos) da história da Terra de Santa Cruz. Todo o mundo sabe o nome completo, CPF, número da carteira de identidade e endereços residenciais dos malfeitores. O assalto completou aniversário de cinco meses. E daí? Ninguém foi enjaulado. O enigmático “Careca do INSS” até ganhou uma tufa de cabelos na reluzente pista de aeroporto de pernilongos.
E a arruaça criminosa da Previdência não acaba neste ponto. Na verdade, as tais entidades (sic) associativas são apenas a ponta de iceberg bancário. Um certo Agibank virou o símbolo mais expressivo da algazarra generalizada. O próprio Instituto revelou o “modus operandi” da escabrosa arapuca. O tal Agibank (uma fintech) agia com a competência de hacker de periferia. Então, caso se confirme a denúncia do INSS, a diretoria do tal banco necessita passar longa temporada num presídio de segurança máxima. E não apenas a turma de engravatados. Certos “colaboradores” do setor de informática também merecem pegar cana exemplar. Difícil este sonho de uma noite de verão se tornar realidade.
Mas, alguém aí na distinta plateia pode até tentar contemporizar: “os aposentados foram ressarcidos do prejuízo pelo Governo Federal”. Deixe de ser bobo, inocente ou paspalho. O dinheiro da roubalheira ainda não foi recuperado. Os recursos vieram dos cofres públicos, não dos recheados bolsos dos membros da organização criminosa. Logo, todos nós, contribuintes, pagamos a conta da fraude. E, para encerrar, fica aqui a pergunta óbvia: até quando os ladrões do INSS continuarão livres, leves e soltos?
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.
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