O plenário da Câmara Municipal de Itabira recebeu, nesta quinta-feira (28), uma audiência pública na para discutir temas ligados ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável em Itabira. O tema do encontro girou em torno da Campanha da Fraternidade 2025, que neste ano é: “Fraternidade e Ecologia Integral”. No entanto, os debates também levantaram discussões sobre a necessidade da reparação socioambiental do território itabirano, em função das décadas de extrativismo da Vale.
Maria Inês Alvarenga, que esteve representando o Comitê Popular dos Atingidos pela Mineração em Itabira, aproveitou seu discurso para fazer uma forte crítica à dependência minerária e aos impactos ambientais na cidade. “75% da água [de Itabira] é para mineração, só 15% é para a população. Pedem para a gente economizar água, mas será que já pediram isso para a mineradora? Para economizar as águas? Para ela deixar um pouco para a população?”, indagou.
Além de citar a escassez hídrica, a itabirana falou sobre a destruição de áreas de preservação, relembrou da recém-aprovada expansão das cavas de mineração e consequente criação de duas novas pilhas de rejeitos no município. “Neste projeto, vamos ter o rebaixamento do lençol freático e construção de mais duas pilhas de estéril em uma área de proteção permanente (APP), com corte de árvores nativas da região”, disse Maria Inês, citando também de impactos diretos – e frequentes – à comunidade, como: nuvens de poeira, barulho, rachaduras e riscos de desabamento de imóveis, além da presença de animais peçonhentos e esgoto a céu aberto, sobretudo na região do Sistema Pontal. “Agora eu faço uma pergunta. O que vamos fazer? Qual é o futuro de Itabira?”, questionou mais uma vez, sendo aplaudida pelo plenário.
Vereadores também falaram dos impactos à comunidade
A audiência pública surgiu através de um requerimento da vereadora Dulce Citi (PDT) e contou com a presença do presidente da Câmara, Carlos Henrique Silva Filho “Carlin Sacolão Filho” (Solidariedade), secretários municipais, a primeira-dama Raquell Guimarães, além do Padre Anderson Teixeira, representantes da CUT Vale do Aço e membros da sociedade civil.
Após as falas de abertura, o público foi convidado a participar das discussões do encontro. Divididos em grupos, os participantes receberam um eixo temático para discussão e elaboração de propostas que poderão ser implementadas no município de Itabira.
As iniciativas construídas propuseram mitigar os impactos diretos da mineração, das queimadas, da crise hídrica, além de aumentar a responsabilidade ambiental do poder público.
Dulce Citi, que propôs a realização do encontro, destacou que a Câmara é parte necessária para levantar as discussões socioambientais. “Dentro do nosso contexto do Legislativo, o que estiver dentro das nossas possibilidades, a gente vai estar tomando frente e distribuindo para todos o que a população espera também da empresa”, afirmou.
“A gente tem problema com água, com desmatamento, com várias barragens de rejeito e pilhas de estéril. O que vai ser depois da mineração? Essa que vai ser a herança da Vale? Uma vez que ela nasceu aqui e ficou poderosíssima dentro do planeta. Essa vai ser a herança que ela vai deixar para a gente?”, disse Carlin Filho, em entrevista à DeFato.
“Fraternidade e Ecologia Integral”
Celebrada nacionalmente desde 1964, a campanha da fraternidade, de acordo com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), é um modo de a Igreja Católica no Brasil celebrar o período da quaresma, em preparação para a Páscoa, com atitudes de oração, jejum e caridade.
O lema bíblico escolhido para a campanha deste ano e extraído do livro do Genesis é: “Deus viu que tudo era muito bom”. A campanha foi inspirada na publicação da Carta Encíclica Laudato Si’ do papa Francisco que, em 2025, completa 10 anos; nos 800 anos da composição do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis; e na 30ª Conferência das Partes (COP30), a ser realizada em novembro em Belém.
Segundo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o objetivo geral da campanha de 2025 é promover, “em espírito quaresmal e em tempos de urgente crise socioambiental, um processo de conversão integral, ouvindo o grito dos pobres e da Terra”.

