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Preste contas!

Preste contas!

Foto: Reprodução

Vivemos em um mundo que valoriza cada vez mais a autonomia, a independência e a autossuficiência. Desde cedo somos ensinados a nos virar sozinhos, como se depender do outro seja um sinal de fraqueza. No entanto essa perspectiva ignora uma realidade muito concreta: só existimos coexistindo. Somos, por natureza, interdependentes. E algo muito precioso nessa teia da interdependência, que aprendi no cotidiano da minha relação com o marido e filhos nos últimos tempos, é a prestação de contas. Sim, prestar contas às pessoas com as quais nos relacionamos pode ser uma excelente ferramenta para catalisar as transformações de comportamento que almejamos, nos ajudando a ser versões melhores de nós mesmos a cada dia.

Em meus cursos e workshops para pais, ao dizer que os pais devem prestar contas aos seus filhos, me deparo com olhares de espanto e alguns de descrédito: “Como assim? Não deveria ser o contrário?”. Sim, concordo que os filhos devem prestar contas dos seus atos aos pais e/ou responsáveis. Porém, a forma mais poderosa de uma criança ou adolescente aprender e incorporar um comportamento é vendo as suas figuras de referência praticarem o mesmo. Mais uma vez o poder do exemplo: pais que prestam contas dos seus atos, criam filhos que prestam contas dos seus atos. Se você deseja criar filhos responsáveis, que assumem o que fazem e falam com honestidade sobre suas ações, faça isso com eles. E isso vale para outros contextos como na relação entre casais, entre líderes e liderados, etc.

Acredite, prestar contas dos nossos atos a alguém e nos responsabilizarmos por eles nos ajuda a crescer e amadurecer como seres humanos equilibrados. Ao decidir me comprometer com o outro e prestar contas do que eu faço ou deixo de fazer diz o quanto estou disposto a cuidar das necessidades das pessoas que são importantes para mim, ao invés de estar sempre preocupado com as minhas próprias necessidades.

Um exemplo prático foi no início do meu casamento, quando descobri que meu marido era viciado em pornografia. Nosso casamento quase acabou. Por um tempo ele tentou lutar contra esse mal sozinho, mas não deu certo. Tudo mudou quando eu me dispus a dividir com ele esse desafio e ele também se comprometeu a prestar contas toda vez que ele tinha uma recaída. Em Tiago 5:16 tem um versículo traz esse princípio da prestação de contas: “Confessai as vossas culpas uns aos outros para que sejam curados” e não tenho dúvida de que essa decisão de confessar e prestar contas um ao outro foi fundamental para salvar o nosso casamento. Acredite, se você não tiver força de vontade suficiente para submeter-se a outra pessoa, você jamais terá força de vontade para submeter-se a si mesmo.

Da mesma forma, no início do meu maternar entendi que a melhor forma de ensinar sobre responsabilidade para os meus filhos era sendo responsável com eles. Decidi fazer isso de forma mais intencional, prestando contas das minhas atitudes cotidianas e vi que aos poucos eles começaram a fazer o mesmo movimento de autorresponsabilidade comigo e uns com os outros. Lembro que no aniversário de 7 anos da minha primogênita, disse para ela: “Filha, eu te amo tanto! É um prazer enorme ser a sua mãe e esse ano quero te pedir uma ajuda! Nunca fui mãe de uma garota de7 anos na minha vida e quero ser a melhor mãe do mundo para você. Então, se em algum momento você perceber que não estou agindo certo ou não estou sendo justa, amorosa ou atenciosa o suficiente, por favor me fale! Quero aprender a ser a mãe que você precisa, junto com você!”. Ela me abraçou apertado, grata por saber que eu estava aberta a ouvi-la e por permitir que ela me cobrasse caso eu falhasse com ela. Todo aniversário faço a mesma pergunta, afinal sei que as necessidades e expectativas dela estão mudando. E vez ou outra ela me chama para dizer que não agi bem em algumas situações e como fico feliz em saber que ela tem esse canal de comunicação aberto comigo! Como aprendo com ela!

Talvez você ainda estranhe essa prestação de contas aos filhos, cônjuges ou liderados, mas não há problema algum em permitirmos que os outros apontem nossas falhas de forma respeitosa. Não perdemos autoridade, ganhamos autoridade ao fazer isso. Ao reconhecer nossos erros e nos responsabilizarmos a mudar de rota, estamos modelando para nossos filhos, parceiros ou equipe o que devem fazer quando errarem também e criamos uma cultura de honestidade emocional onde os erros se tornam excelentes oportunidades para aprender!

Experimente dizer para as pessoas à sua volta: “quero que cobrem minha prestação de contas pelos meus atos. Se eu não estiver alcançando suas expectativas, quero saber isso da parte de vocês”. É uma atitude corajosa, que provavelmente vai trazer alguns desconfortos, mas lembre-se: não há transformação e melhoria sem encararmos com coragem as nossas falhas. E nada melhor do que fazer das pessoas mais próximas de você a sua principal fonte de retorno e de ajuda para que você se transforme a cada dia em uma pessoa melhor!

Sobre a colunista

Nina Magalhães é mãe de três, Terapeuta Ocupacional, mestre em Educação e Saúde e certificada como Educadora Parental e Consultora em Encorajamento. Palestrante e escritora, atua em diversos projetos em defesa da infância.

O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião da DeFato.

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