O torcedor que se acostumou a guardar ingresso de jogo como lembrança passou a conviver com uma nova rotina nos estádios brasileiros. Desde a entrada em vigor da exigência prevista na Lei Geral do Esporte, o acesso a arenas com capacidade superior a 20 mil pessoas deve ser feito por biometria facial, sistema que vincula o ingresso ao rosto do comprador e transforma a catraca em uma etapa de identificação digital.
Em Belo Horizonte, a Arena MRV opera com biometria facial como parte do modelo de acesso do estádio. O Mineirão também informa que, a partir da data estabelecida por lei, a entrada será exclusivamente pelas catracas com reconhecimento facial, exigindo cadastro prévio. Na Arena Independência, o sistema também está em funcionamento para compra e acesso, com cadastro facial obrigatório para quem pretende entrar.
Na prática, o sistema busca atacar três problemas antigos do futebol brasileiro. O primeiro é o cambismo e a circulação irregular de ingressos, já que o bilhete deixa de ser facilmente transferível. O segundo é a agilidade de acesso, argumento usado por operadores da tecnologia e clubes. O terceiro é a segurança pública, porque a biometria pode ser integrada a bases oficiais e ajudar na identificação de pessoas procuradas pela Justiça ou impedidas de entrar em estádios.
A Agência Brasil mostrou que, em São Paulo, a integração entre estádios e sistemas de segurança já levou à identificação e detenção de foragidos quando tentavam acessar as arenas. O modelo se conecta ao projeto Estádio Seguro, criado a partir de acordo entre a CBF e os ministérios do Esporte e da Justiça em 2023.
Mas o avanço da tecnologia não encerrou a discussão. O uso obrigatório do reconhecimento facial em ambientes de grande circulação também abriu questionamentos sobre privacidade, proteção de dados e risco de erros. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados informou em 2025 que passou a fiscalizar o uso desses sistemas por 23 clubes, justamente para verificar como as informações biométricas estão sendo coletadas e tratadas no acesso aos estádios.
O relatório Esporte, Dados e Direitos, do projeto O Panóptico, ligado ao CESeC, que critica a adoção da tecnologia em massa e aponta preocupações com a exposição de dados, a coleta compulsória de biometria e o risco de identificações equivocadas. Um dos alertas é que falhas de reconhecimento podem gerar constrangimentos ou abordagens injustas, sobretudo em grupos historicamente mais vulneráveis a vieses algorítmicos.
Em Minas, esse cenário tende a ganhar ainda mais peso porque os principais palcos do futebol estadual já entraram nessa transição. Para Atlético, Cruzeiro e América, o reconhecimento facial deixa de ser tema de futuro e passa a integrar o funcionamento cotidiano das partidas. Para o torcedor, isso significa mais controle de acesso, menos espaço para improviso e uma relação mais direta entre identidade civil, compra do ingresso e entrada no estádio.

