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Se estivesse vivo, Newton Baiandeira completaria 70 anos; artista recebe homenagens

Festival de Inverno de Itabira recebe o "Sarau Baiandeira" em celebração à obra de Newton Baiandeira

Foto: Divulgação/Pedra que Brilha

Músico, compositor, escritor… Newton Baiandeira era um operário da cultura e por meio do seu trabalho — bastante plural — cantou e contou Itabira, terra pela qual tinha enorme afeto. É dele a música “O Trem que Leva Minas”, que também retrata a relação da cidade com a mineração. Se estivesse, Baiandeira completaria 70 anos nesta quinta-feira (6). Para celebrar a data, familiares e amigos promovem um tributo ao artista na noite de hoje, às 20h, na praça Dr. Acrísio Alvarenga.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De acordo com o produtor Cléber Camargo, organizador do evento, a programação contará com grupo de Folia de Reis, além de apresentações musicais e declamação de poesias. Mas as homenagens não param aí: ao longo de 2022 será realizada uma série de ações para celebrar a memória do músico — está previsto lançamento e relançamento de discos e livro de Baiandeira, além da possibilidade da realização de um festival.

“É uma singela homenagem ao Newton. Será um momento de reencontro das pessoas que gostavam dele. Mais adiante teremos uma série de atividades: um festival que está sendo programado, lançamento e relançamento de CD e livro — mas isso vai acontecer ao longo do ano e a medida que for acontecendo faremos as divulgações”, conta Cléber Camargo.

Reconhecimento

Baiandeira faleceu em 13 de setembro de 2012, aos 60 anos, após passar mal em casa, deixando esposa e quatro filhos. Passados dez anos do incidente, o itabirano ainda sente saudade de um personagem importante da sua história e que deixou um enorme legado artístico.

Em comemoração aos 70 anos de Newton Baiandeira, familiares, artistas e profissionais da cultura comentam sobre o músico e o seu legado:

Nayara Rocha, filha:

“Não consigo separar o pai do artista…

Ele sempre foi e sempre será meu prumo, meu norte e minha inspiração.

Cada fala que sai da minha boca provoca uma parte de mim que logo questiona: o que ele acharia?

Meu pai é tudo o que sou. É meu capital cultural… É minha ideologia…

Se sou esquerdista é por causa dos ensinamentos dele.

Se amo música é por influência dele.

Se bebo café demais e depois tomo bicarbonato é DNA dele… Rsrsrs

Só não consegui herdar o talento! O que não me causa frustração nenhuma. Afinal não é todo dia que nasce um Baiandeira nesse mundão de meu deus!

Sempre que estou revirando a obra dele pergunto pro meu companheiro se eu sou muito pacheca… por causa do tanto que eu admiro cada letra de música, cada poesia, cada pintura, é de transbordar… 

Então, às vezes, me questiono, mas logo chego à conclusão de que sim, a obra do meu pai é magnífica!

Sabe aquele trem bem de mineiro: ‘Cê é filho de quem?’

Então… Eu tenho orgulho demais da conta de dizer que sou filha do BAIANDEIRA!

Saudade que não cabe no peito e que é combustível pra que não deixemos esse trabalho grandioso morrer dentro de gavetas!

Sei que de algum lugar, num plano que a gente desconhece, ele tá vibrando com tudo que tem acontecido!”.

Socorro Villar Rocha, viúva:

“Ele faz fata…

Na verdade, eu fico meio perdida pra falar de Newton. Até hoje eu sinto muita falta de dele. A minha vida vivia em função da dele. Onde um estava o outro estava. Era muito difícil alguém vê-lo em algum lugar e eu não estar por perto. Nós éramos muito cumplices em tudo que fazíamos. Como diziam os poetas: nós éramos a cara metade um do outro. Nós vivíamos o mundo da gente, éramos a extensão um do outro. Depois que a nossa filha casou, só ficávamos nós dois dentro de casa, um pro outro. Até hoje, em tudo que eu vejo, em tudo que eu faço, ainda tem muito a presença dele. Ele era um artista fantástico, um ser encantado. As composições eram maravilhosas. Um artista nato. Nunca estudou arte. Nunca estudou música. Ele pintava, desenhava, fazia as letras, a música. O que eu posso dizer? Ele era uma pessoa maravilhosa que vai fazer falta pra sempre. A falta dele é um vazio que não tem como ser preenchido. Newton era Newton. Era amor. Poesia. Newton era Newton Baiandeira. Como ele mesmo dizia: ‘poeta e pessoa. A diferença é uma coisa atoa’. Era isso…”.

Cléber Camargo Rodrigues, produtor cultural:

“O meu coração não sabe decifrar enigmas, mas sabe o tanto de saudades que carrego do meu amigo, parceiro e mestre Newton Baiandeira. Ficou uma cantiga por fazer, mas seu coração itabirano segue com a gente. Muitas coisas que faço carregam um pouco de inspiração da ‘Brincadeira de Baião’, da energia de ‘Ventos do Norte’, de ‘O Trem que Leva Minas’. E quase tudo parece tão forte que chega a parecer um ‘Metalismã’, uma prece, uma ‘Flor da Juventude’, um elo na corrente de orações. Por tantos sonhos sonhados com Baiandeira, a necessidade, o desejo, a vontade e a alegria de fazer alguma coisa e deixar um pouco de Newton pra iluminar nossos novos dias — com esperança, força e fé…

Eu bem sei, Baiandeira: fica uma cantiga por fazer, mas seguirei junto com Socorro, Nayara, Léo e um monte de gente que te ama e te admira. Seguiremos nós todos, tentando e fazendo alguma coisa pra relembrar e difundir sua obra, sua história e seus sonhos — nossa fé na estrada, no caminho, na caminhada. Seguiremos, na Vila da Utopia (e da razão) e em todo canto. A pedra que brilha, a pedra lisa é coisa do amor — como quem abre sorrisos da mesma forma que abraça os sentidos. 

Tanto tempo a gente não se vê, mas todo mundo fala bem de você!!! Obrigado, por tudo, desde sempre até chegar nestes 70 anos de luz!!!”.

Luiz Bira, músico:

“Newton Baiandeira, foi um grande amigo/parceiro e incentivador da minha carreira como compositor. Convivemos durante 23 anos, fazendo shows juntos, criando arranjos e compondo. Ele me procurava constantemente e dizia: ‘Maninho, apareça lá em casa, pra eu te mostrar as coisas novas que fiz, tem uma boa procê lá!’.

Newton, foi o artista mais completo que Itabira já teve. Ele, além de poeta fenomenal, era um grande letrista, cronista, artista plástico! Um verdadeiro anjo guardião da cultura itabirana. Nunca saiu de Itabira, por opção. Nunca vi ninguém declarar tanto amor à uma cidade, como ele demostrava em suas falas, textos e canções. Muitos perguntavam a ele, se tinha medo de sair de Itabira. Ele respondia: ‘Meu medo, não é de sair. Meu medo é sair e por algum motivo, não poder voltar’.

Falo por mim, Newtinho foi e sempre será o maior e mais completo artista itabirano. Me orgulho muito por ter sido amigo/parceiro dele. Sem falar no presente que ele me deu, uma canção que fez pra mim, ‘De Cantador pra Cantador’ — canção que traduz toda a nossa afinidade e compromisso para com a arte de cantar a dor e a alegria do povo brasileiro! Newton, é um encantado, um ser de luz, um anjo e estará sempre presente!!!”.

Maíra Baldaia, cantora, compositora e atriz:

Morada nova

As noites brancas itabiranas ganham mais uma estrela enraizada…

A mim resta o olhar calado, engasgado, arrebatado.

Estamos todos por um fio, a um passo de novos rumos.

O poeta criou asas… E os galhos de cá (TODOS) já lhe são morada.

É hora de deixar soar sua história em outros mundos.

Ele se foi VIVO!

Esteja em paz, meu amigo-mestre, que de cá cantaremos o bem que você plantou!

Marçal Filho, cantor e compositor:

“Dar um depoimento sobre Newton Reis Rocha, nosso Baiandeira, no mínimo, seria mais que uma obrigação dos amigos e de toda a comunidade itabirana, tamanha a sua importância para essa cidade. Newtinho Baiandeira como era mais conhecido, foi um cidadão que viveu mais do que todos nós, a alma de nossa gente. Sua obra sempre retratou essa cidade como poucos. Eu tenho a clareza de que Baiandeira foi tão importante para nós, como o Poeta Drummond, com a diferença que um era de família abastada e o outro um simples operário da arte de nosso cotidiano. Enquanto aquele foi parar em todos os cantos do mundo e claro por ter uma grandeza ímpar em sua arte, o outro aqui, tão grande quanto, esteve o tempo todo engrandecendo nosso dia a dia, com sua arte não menos importante.

Baiandeira com centenas de composições, artigos e crônicas, retratou em tempo real, o viver da alma itabirana em todas as suas nuances. Com toda a sua trajetória artística, que tanto nos orgulhava, sou da opinião de que nossa sociedade passou a ser grande devedora desse artista que jamais impunha sua vontade a alguém, apenas e tão somente por ser uma pessoa generosa e humilde, nunca o vi sendo um ditador. Sua cultura acima da média nos era colocada absurdamente de graça e sempre a todos que quisessem dela beber. Não tive o privilégio de ser seu parceiro em composições como outros artistas itabiranos tiveram; a exemplo de Binho, meu irmão ou Luiz Bira e outros, mas nutria e nutro pela sua arte, a maior admiração e o maior respeito e tenho absoluta convicção de que ele também admirava meu trabalho posto que, me confessara isso, certa vez. Premiadíssimo em vários festivais de MPB Brasil a fora e autor de uma das mais belas canções já produzidas por essas plagas, “O Trem que leva Minas”: por si só, traduz com perfeição a preocupação do artista com o futuro de nossa cidade. Veio de Coronel Fabriciano ainda menino e nunca mais deixou nossa terra. Um Newton Baiandeira, não se encontra em qualquer esquina, simplesmente porque quem nasceu em dia de Reis jamais deixará de ser uma Majestade. O fato é que: não é possível pensar em Itabira sem respirar em cada canto da cidade, a Arte de Newtinho Baiandeira”.

Stael Azevedo, historiadora, professora e fotógrafa:

Em 9 de junho de 2012, ao completar 50 anos de carreira, Newton Baiandeira encantou os portugueses, fez isso cantando e poetizando a cidade que adotou como sua, ele vivia em Itabira. Seus primeiros versos na terra do Alentejo foi justamente poetizar Itabira: ‘Itabira é como o primeiro trago de cigarro depois do café da manhã’.

Dizem os amigos mais próximos que Newton tinha por superstição de não passar do trevo de Itabira, pois bem, ele passou. Agora passados dez anos de sua morte, tento compreender o porquê Newton Baiandeira temia tanto sair de Itabira, nas terras portuguesas, Newton descobria que sua arte não poderia ter fronteiras, muito aplaudido pelos alentejanos, Newton cravou: ‘meu canto é pele que me veste, chama que me abre, magia, movimento. Minha voz é arrastada, mas tem a força de uma rebelião, febre de motim. Canto o meu povo, minha gente, minha aldeia. A estrada que me leva carrega o peso da minha fé. Sob força da minha esperança, meu rumo é um instante em que nossas emoções se cruzam, transformando-nos em um estado de espírito’.

Então vamos a minha conversa direto com Newton Baiandeira, porque como arisco dizer, agora ele é entidade, se souber chamar ele vem: 

– Baiandeira é sobrenome?

– Na verdade, Baiandeira é uma adaptação do meu nome, porque quando eu era garoto, eu gostava muito de música, mas eu tinha uma preferência pelo Baião, era apaixonado por Luiz Gonzaga, e vira e mexe eu estava no terreiro cantando Luiz Gonzaga. Um dia minha mãe precisava que eu ajudasse na cozinha e disse: ‘olha, para com essa brincadeira de baião e vem me ajudar’. Eu fiquei com aquilo na cabeça e quando comecei, uma das primeiras músicas que compus: ‘Baiandeira’, minha mãe me pediu para eu inscrever essa música num festival, ela achava que ia me dar sorte, que ia ganhar, e eu realmente ganhei Em Itabira, as pessoas não me conheciam, e quando me viam na rua, diziam, é o rapaz da Baiandeira, é o cantor da Baiandeira, e eu adotei definitivamente o sobrenome de Baiandeira.

Fale de sua música:

– Eu costumo dizer, eu faço música de ferro, música que é quase uma lâmina, ela tem uma secura nordestina, secura de solo… Eu sou uma flor que brota daquilo ali, eu me sinto uma flor nordestina, que nasceu no minério, numa faixa de minério, né, de Itabira.

Neste texto, uso parte da entrevista concedida a mim por Newton Baiandeira, na casa de Cléber Camargo Rodrigues, uso ainda alguns recortes de textos que publiquei no Diário de Itabira, e também parte de canções do próprio Newton que estão em minha memória, muitas das vezes interpretadas por artistas, como os que citei acima.

Memória

Em entrevista concedida para a DeFato em 2010, Newton Baiandeira contou sobre sua vida e o que mais lhe marcou na carreira. Confira um trecho da entrevista:

“Venho de uma família de músicos e desde criança minha convivência com as artes foi determinante para a minha escolha de rumo. Se a música inspirada pela família me levou a cantar, a revelação conturbada do poeta Carlos Drummond de Andrade em meus quatro anos de idade me levaram à poesia também muito cedo. Na agenda cultural da escola — música, teatro, poesia —, minhas atuações artísticas eram bem recebidas e incentivadas. Com oito anos de idade, devo ter sido o primeiro ‘Drummonzinho’ a recitar CDA pelas ruas de Itabira.

Algumas coisas marcaram minha história, com mais ou menos destaque: ganhar o primeiro Festival da Canção; gravar o meu primeiro disco, ‘Raio de Sol’; publicar o primeiro livro de poemas, ‘Um Sem Fim de Coisas’; cantar no ‘Lula Lá’ em Belo Horizonte para um público de setenta mil pessoas; aprender uma nota especial no violão com o papa da bossa nova, Roberto Menescal, no Rio [de Janeiro]; tocar por anos nas noites de São Paulo etc.

Mas o que me marca profundamente é a força da minha música; encanta-me ‘O Trem Que Leva Minas’ ser consumido em tantos países do mundo sem que eu tenha precisado sair daqui. Nunca me preparei para o sucesso espetacular ou a fama. Acredito até que tive sempre muito receio, um fio de medo de não poder administrar as loucuras que se apregoavam sobre famosos. Ainda hoje, esse temor de perder o conquistado pelo incerto parece me proteger mais do que prejudicar. Sempre tive a incerteza de ir e não poder voltar. Minha relação com Itabira é meio que de filho agarrado à saia de mãe”.

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