Saulo Queiroz Braga não entrou no mundo dos sindicatos por mero acaso. Pelo contrário. A decisão de se envolver com o Metabase não nasceu de simples insight. Na verdade, Queiroz era parente próximo do lendário Sinval de Oliveira Bambirra, uma estrela do trabalhismo das Minas Gerais. Bambirra também foi deputado estadual.
Saulo mantinha intensa atividade diária. Depois da jornada de trabalho, na seção de Carregamento, na Mina do Cauê, participava de diversas ações na sociedade. Além da política sindical, sobrava tempo para práticas esportivas e ensinamento de karatê na Associação dos Técnicos Industriais da Vale (Ativa) e academias. O atleta andava o dia inteiro pelos quatro cantos do município. Locomovia por meio de um automóvel Volkswagen verde-claro, muito bem cuidado. O veículo literalmente brilhava.
Em 1984, a relação capital x trabalho encontrava-se numa fase de intensa turbulência em Itabira. A disputa pela direção do sindicato agitava a classe trabalhadora. O clima era de alta tensão. A temperatura subia cada vez mais. O tom das críticas à empresa e ao sindicato aumentava consideravelmente.
Uma circunstância inesperada provocou comoção e agravou ainda mais este quadro. O grupo “saulista” conseguiu incluir alguns itens na pauta do acordo coletivo daquele ano (1984). A diretoria do sindicato acatou as sugestões da oposição. A resposta da Cia Vale do Rio Doce (CVRD), porém, desagradou gregos e troianos. A entidade representativa dos trabalhadores convocou uma assembleia geral para debater a contraproposta. O evento aconteceu no ginásio do Valeriodoce Esporte Clube (VEC), no bairro Campestre. O local ficou lotado. Foi uma das mais concorridas assembleias da história.
O posicionamento da CVRD causou imensa decepção. A mineradora não atendeu nenhuma demanda. Na oportunidade, o presidente da estatal, Eliezer Batista da Silva, encaminhou uma correspondência com a justificativa do sonoro não. O todo-poderoso foi frio e objetivo. Segundo ele, as incertezas da economia mundial afetavam as finanças da Vale. Desta forma, não haveria como atender às reivindicações dos “colaboradores”. O dirigente fez uso de uma alegoria na defesa da sua argumentação. “Neste momento, são necessários sacrifícios. A situação é muito difícil para todos nós. Na verdade, estamos num mesmo barco”, floreou.
Esta cena se passou na noite de sábado, 25 de agosto. Um dia antes, na sexta-feira (24/8), Saulo e Antônio Carlos Almendagna — o Tuniquinho — se encontraram, na hora do almoço, no restaurante da Centralizada. Tuniquinho deu um conselho premonitório. “Tome cuidado! Se contenha na assembleia de amanhã. Acho que estão preparando uma armadilha para você”, vaticinou. Saulo demonstrou preocupação e prometeu avaliar o ambiente.
A mensagem de Eliezer Batista foi recebida com estrepitosa vaia. José Antônio Reis Lopes pegou o microfone e fez um pronunciamento avassalador. Entre irônico e sério disparou: “Sim, doutor Eliezer. Nós estamos num mesmo barco. Só que, enquanto nós [trabalhadores] remamos, o senhor fica aí, no seu canto, confortavelmente tomando uísque”. A plateia veio abaixo. O orador foi aplaudido com entusiasmo. Saulo assistiu à aclamação e não se conteve. Esqueceu-se completamente da observação de Tuniquinho. Tomou a palavra e disparou, para todos os lados, com retórica contundente. Agressivamente atacou o Metabase e a cúpula da estatal, principalmente Eliezer Batista. Assim terminou a inesquecível noite de sábado.
Na segunda-feira (27/8), uma bomba estourou nas minas. E não foi a costumeira detonação. A Cia decidiu demitir Saulo e José Antônio. A ordem de desligamento partiu diretamente do prédio da administração, no Rio de Janeiro. O motivo da exoneração não deixou brechas para contestações: “a CVRD não necessita mais do seu trabalho”, informou lacônica missiva demissional.
A autoritária atitude repercutiu. José Eustáquio de Assis, o líder do Metabase, protestou contra a iniciativa. Márcio Antônio Labruna, então presidente da Ativa, convocou uma reunião da categoria e encaminhou correspondência à Vale. A Associação pediu o retorno dos demitidos. Em vão. A multinacional manteve-se irredutível. Não voltou atrás. Saulo procurou José Antônio Lopes e avisou: “meu amigo, a partir de agora, começaremos outra batalha. Lutaremos pela nossa reintegração”.
Enquanto isto, não abriu mão da sua estratégia de conquista do poder sindical. Contudo, restava uma pedra no meio do caminho. Ele não poderia concorrer à presidência, pois não mais fazia parte do quadro de funcionários da chamada “joia da coroa”. O recém- demitido não se deu por vencido e montou uma chapa para o pleito de 1987. Milton Martins Bueno foi o escolhido para o cargo maior. Bueno era dono de um discurso firme, incisivo e radical. Assustava. Todavia, deu tudo certo. A oposição ganhou com boa margem de votos. Os vitoriosos, agora, se preparavam para “apoteótica” festa de posse.
Neste meio tempo, ocorreu um fato inesperado, fora do comum. Saulo foi convidado para trabalhar no “jornal da Vale”, que era editado no Rio de Janeiro. Ninguém conseguiu decifrar a jogada da mineradora. Na ocasião, o líder sindical já colaborava no periódico “O Passarela” e no jornal da Ativa. O mistério, no entanto, jamais foi decifrado.
Faltavam poucos dias para Milton Bueno assumir. Numa manhã de quinta-feira (13/8/1987), Saulo entrou no fusca verde em companhia da sua namorada, em Belo Horizonte. Iria ao Rio de Janeiro aonde participaria de uma reunião com sindicalistas de todo o país. A viagem pela BR-040 transcorreu tranquila até as proximidades de Congonhas. Num certo ponto da rodovia, ao lado da cidade histórica, o pequeno automóvel cruzou com uma carreta carregada de bobinas de aço. Súbito, uma das peças se desprendeu e despencou sobre o Volks. O carro ficou totalmente destruído. Saulo teve morte instantânea. A sua companheira ficou gravemente ferida, mas sobreviveu. O jovem idealista perdeu a vida aos 27 anos de idade. Ponto final.
P.S.: André Viana Madeira — atual presidente do Metabase — é legítimo herdeiro e guardião do sonho e ideal de Saulo Queiroz Braga. Em maio de 2019 — durante as comemorações do Dia do Trabalhador — Viana prestou comovente homenagem a Milton Bueno. Esta ação de reconhecimento dignificou o reconhecedor (André Viana) e enobreceu o reconhecido (Milton Bueno). O ex-presidente do Sindicato morreu em 19 de julho de 2022, aos 69 anos de idade.
Leia as duas primeiras partes dessa história nos links abaixo:
+ Saulo Queiroz Braga: o jovem que mudou a história do sindicalismo itabirano e morreu tragicamente
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.
O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião do portalDeFato Online.

