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Use o potencial da sua raiva!

Use o potencial da sua raiva!

Foto: Reprodução/Freepick

Eu cresci ouvindo que sentir raiva era ruim. Como uma clássica sanguínea, lembro de que sempre que manifestava minha raiva eu ouvia algo do tipo: “Uma menina tão bonita não pode ficar brava desse jeito!”. Sentir raiva era inadequado, era como se não tivesse lugar no mundo para aquele sentimento e eu precisasse a todo custo esconder ou reprimi-lo. Mas hoje sei que a raiva pode ser um potente agente de transformação! A raiva não é ruim, se soubermos usar bem o seu potencial! Sentimos raiva em muitos momentos da nossa vida e podemos usá-la a nosso favor ou para transformar cenários e situações para melhor.

Mas antes de falar sobre o potencial da raiva, quero que entenda um pouco sobre a sua fisiologia. Tudo acontece com um gatilho inicial, uma situação ou atitude de alguém, que leva a amígdala a disparar um sistema em que todo o seu corpo fica inundado pelos hormônios do estresse — cortisol, adrenalina, noradrenalina. O excesso desses hormônios, por sua vez, reduz a serotonina, que é responsável pela sensação de bem-estar e felicidade. Talvez justamente aí esteja o principal motivo pelo qual a raiva é tida como vilã. Sentir raiva, definitivamente, não é a coisa mais agradável, não é mesmo? Mas não é porque um sentimento é desagradável que ele é ruim. Todos os sentimentos são mensageiros, falam sobre nosso estado interno e o que precisamos. Em síntese, os sentimentos agradáveis nos comunicam que as nossas necessidades estão atendidas, já os desagradáveis, como a raiva, nos alertam de que algo não vai bem e nos leva a agir.

E esse é um dos principais potenciais da raiva! Ela nos leva à ação. Pela tensão muscular que provoca, é capaz de aumentar a nossa força e energia, criando em nós um impulso para a ação que visa defender os nossos direitos e impor limites necessários nas relações. A raiva é o ponto de partida para, individualmente, buscarmos a reparação perante uma frustração, injustiça ou ofensa, possibilitando a restauração da nossa integridade. Coletivamente, ela é a força motriz dos movimentos sociais que levam a revoluções e transformações sociais importantes. Onde estaríamos sem a raiva dos operários que encabeçaram as greves no final do século XIX em busca de melhores condições de trabalho? E se as mulheres não se indignassem com a exclusão da vida social e política, exigindo a igualdade de direitos?

Não devemos silenciar a raiva. Devemos aprender a acolhê-la, atentar para as necessidades não atendidas que ela nos aponta e então agirmos de modo a transformar situações que podem nos trazer danos a nível individual ou coletivo. Na Bíblia vemos um episódio em que o próprio Jesus sentiu raiva. Ele se irou quando viu os comerciantes fazendo do templo, um lugar que deveria ser consagrado à adoração e à oração, um mercado barulhento, corrupto e ganancioso. Ele expulsou os comerciantes e derrubou as mesas dos cambistas que estavam ali. Observe que ele não direcionou a raiva para as pessoas, mas para condenar uma prática inaceitável naquele contexto. A raiva dele comunicou uma mensagem importante naquele cenário.

É importante destacar que apesar da raiva ser útil para nos alertar e nos levar à ação, ela não pode ser uma desculpa para agirmos de forma inconsequente. Precisamos controlar as nossas reações. Em Provérbios 25:28 está escrito: “Como uma cidade arrombada, sem muralhas, é o homem que não consegue se controlar”. É justamente esse aprendizado que mudou completamente a forma de ver a minha raiva, que por tanto tempo não era bem-vinda. Eu posso sentir a raiva, escutar sua mensagem (qual necessidade precisa ser atendida nessa situação?) e então decidir a melhor forma de agir, respeitando os meus limites, do outro ou da situação.

Essa clareza não apenas me ajudou, mas também me permitiu ensinar essa lição a uma das minhas filhas que veio de fábrica com o mesmo temperamento que o meu! Diferente de mim, ela não precisou aprender a esconder a sua raiva ou se sentir inadequada por isso. Ainda bem pequena, diante das explosões de raiva que se intensificaram após os dois anos de idade, sentamos e conversamos. Expliquei que a raiva era normal e importante para percebermos que algo não estava bom. Disse a ela que estava tudo bem sentir a raiva, mas não estava tudo bem bater, brigar, quebrar ou se machucar quando ela aparecia. Usamos uma ferramenta da Disciplina Positiva para fazer uma roda de escolhas para quando a raiva viesse. Dividimos a roda em fatias e ela desenhou em cada uma algumas opções do que fazer nessas situações: respirar fundo, amassar uma massinha, bater no travesseiro, ler um livro, correr, desenhar, pedir um abraço. Toda vez que ela explodia de raiva, a roda a auxiliava a se autorregular. Às vezes, no meio de um episódio de birra, chorando ela pedia “Por favor, me traz um livro para eu me acalmar” ou “Preciso de um abraço”. Assim que o turbilhão passava, ela comunicava o que precisava e assim, podíamos buscar soluções em conjunto para o que não estava tão bom. Hoje ela já está grandinha, as explosões são menos frequentes, mas ela já sabe que a sua raiva tem lugar no mundo e um potencial para ajudar a transformar muita coisa!

Espero que esse texto te ajude a olhar a sua raiva com uma outra perspectiva e que, assim como eu, você possa transmitir aos seus filhos esse aprendizado. Que a nossa raiva seja usada em todo seu potencial para transformarmos o mundo à nossa volta!

Sobre a colunista

Nina Magalhães é mãe de três, Terapeuta Ocupacional, mestre em Educação e Saúde e certificada como Educadora Parental e Consultora em Encorajamento. Palestrante e escritora, atua em diversos projetos em defesa da infância.

O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião da DeFato.

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