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Vida às avessas: empreendedores de eventos forçados a se reinventar

Vida às avessas: empreendedores de eventos são forçados a se reinventar

DJ Miro, Thiago Garcia e Cristiano Cunha agora trabalham com transporte de mercadorias e frete. Foto: Arquivo pessoal

O setor de eventos foi o mais impactado pela pandemia do coronavírus. Já são quase 15 meses desde que a Covid-19 desembarcou na região e virou do avesso a vida de quem garantia o ganha-pão nas festas, baladas, shows e outras produções audiovisuais. De lá para cá, a pandemia congelou as expectativas de retorno de quem depende financeiramente das aglomerações.

De acordo com a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape), o setor abrange 52 ramos de negócios no país, em aproximadamente 640 mil empresas e 2,2 milhões de microempreendedores individuais (MEIs), como, por exemplo, donos de barraquinhas de comida, eletricistas, técnico de som e luz, entre outros.

O hub envolve um universo de profissionais que atua, sobretudo, nos bastidores. É o caso, em Itabira, de Cristiano Cunha, Wenderson Vieira e Thiago Garcia, três entre os mais conhecidos profissionais que movimentam a cena da economia criativa na região. 

Cristiano é dono da TopSom, empreendimento que além do que anuncia seu nome tem no portfólio a estrutura e a iluminação cênica. O empreendedor viu zerar, ainda no começo da pandemia, um rendimento mensal que chegava a R$ 12 mil. E foi preciso dispensar os dois colaboradores fixos do negócio com a proibição dos eventos. 

“O que ficaram foram dívidas e a gente ter que se virar para arcar e cumprir com os compromissos”, narra, ao lembrar dos investimentos feitos em infraestrutura pouco tempo antes do coronavírus se disseminar pelo país. “Em quase 15 meses de pandemia são pelo menos R$ 150 mil que deixamos [empresa] de faturar”, cita.

O soco também foi forte em Wenderson Vieira, o DJ Miro, que consolidou seu sucesso local em 15 anos de carreira. “A vida financeira da minha família foi diretamente atingida. Era escola particular para três crianças, cursos extras, alimentação que só encareceu… foi um baque! Trabalhamos e recebemos por demanda e, de repente, tudo parou. O prejuízo é difícil de estimar, mas perdi, pelo menos, R$ 10 mil mensais de faturamento com os eventos”, lamenta. 

Para Thiago Garcia, DJ e técnico de som e luz, havia a esperança de que a pandemia fosse superada em poucos meses. “No primeiro e no segundo mês pensamos que pudesse passar rápido, que tudo talvez voltasse ao normal. Isso não aconteceu. De início, eu esperei acreditando na superação do coronavírus. Mas, só uma coisa ficou clara: para a gente sobreviver, teríamos que nos reinventar”. 

Incertezas 

Números levantados pela Abrape indicam que desde o início da pandemia 335.435 empregos formais, composto por operadores turísticos e agências de viagem, aluguel e montagem de estruturas para eventos, hospedagem, segurança privada e serviços gerais e de limpeza foram extintos só no setor de eventos. O número passa de 450 mil se entrarem no cálculo os trabalhadores indiretos.

A estratégia de massificar os eventos on-line, que marcou o ano passado, não foi suficiente. A realização rotineira de lives musicais perdeu força com passar do tempo. “Nada chegou perto do porte que atuávamos antes da pandemia”, lembra Cristiano.

Garcia redesenhou sua atuação para o formato drive-in, em palestras e pequenos eventos empresariais. “Eu tive a oportunidade de fazer muitos serviços empresariais, por exemplo, o que me ajudou muito. Empresas que realizavam reuniões dentro de carros ou ônibus. Montei a estrutura de som em diversas áreas empresariais em Mariana, em Ouro Preto, em Itabira”.

União

Com o desafio de reposicionamento do negócio e do sustento das famílias, a saída foi evadir para outras áreas. Cristiano, Wenderson e Thiago se reencontraram no mesmo mercado, o de frete e de transporte de cargas, hoje a principal atuação dos três expoentes dos eventos. 

Sem a receita da carreira que prosperava até a chegada da pandemia, os três usaram do que tinham: os veículos que auxiliavam o transporte de equipamentos e estruturas. “Eu tinha um caminhão, que transporto os equipamentos, e pensei em utilizá-lo, sem recorrer a outras áreas até pela necessidade de investimentos que eu não poderia fazer no momento. Aproveitei o caminhão e comecei a trabalhar com transportes e frete”, conta DJ Miro. 

Cristiano Cunha também deu novo uso à caminhonete particular. “É de onde vem meu sustento atualmente. Ainda há algumas mensalidades de contratos da TopSom, mas pequenas. O que era minha principal fonte de renda representa 10%, no máximo, da minha renda atual”, estima.

Thiago Garcia, que também ingressou no fretamento, agregou outros bicos, como de motorista. “Eu venho matando um leão por dia. Tenho um amigo que é dono de uma locadora de carros; às vezes presto serviços de motorista para ele, buscando veículos”.

A vida vai voltar ao normal?

O ano de 2021 parecia o caminho para a retomada gradual, mas um revés acertou em cheio o setor com a piora nos indicadores da pandemia. Os números mais críticos afrouxaram nas últimas semanas, mas longe de dar ao país e à região o mesmo horizonte de nações que já se arriscaram a eliminar a máscara como item obrigatório. 

“Parte dos clientes, claro, desistiu dos eventos. No entanto, a maioria dos contratos que celebrei foi congelada à espera de um momento seguro para serem realizados. Quando voltar eu acredito que será com força total”, afirma DJ Miro, esperançoso.

Cristiano não é tão otimista. “A única solução é, abaixo de Deus, a vacina. Dificilmente voltará com a mesma força logo ao fim da pandemia”. O que é consenso entre eles é que o poder público poderia ser mais atuante no socorro aos profissionais que atuam com eventos. “O poder público pode fazer e pode fazer muito para auxiliar o setor de eventos. Sem dinheiro você não consegue se mexer. Para você ganhar dinheiro, você precisa ter dinheiro”, crava Cristiano.

Buffet remodela atuação e penetra mercado do delivery

Se há um setor que cresceu em 2020, é o de delivery. A modalidade que deve permanecer forte por um longo período foi uma das alternativas para ajudar a manter serviços como o de buffet. Luciane e Diego Perdigão, da empresa itabirana D’Lu Buffet, contam que reviram o modelo do próprio negócio para se adequarem ao novo normal, hoje com pratos especiais para atender a clientela em casa. 

“A nossa mudança foi drástica. Trabalhávamos mais fortemente com eventos quando as aglomerações eram normais, e agora redirecionamos para o delivery de produtos. Aos poucos, a gente vem vencendo nossas adversidades, com muito jogo de cintura e criatividade”, destaca Diego. 

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