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Obras de contenção de barragens tiram moradores de suas casas no Bela Vista, em Itabira

Estruturas tubulares foram instaladas a grandes profundidades para proteger zona urbana de possíveis rompimentos de barragens. Foto: Ramon Bitencourt

Enquanto o temor pela futura expansão da Vale assombra os moradores em Vila Amélia e causa medo à comunidade quilombola do Capoeirão, o que tira a saúde mental dos moradores do bairro Bela Vista são os reparos necessários para evitar o rompimento de barragens de rejeitos de minério deixadas pela exploração realizada no passado, em Itabira. O temor foi relatado pelos moradores na segunda-feira (15), durante uma visita da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que buscou ouvir a população sobre os danos causados pela exploração de minério de ferro realizada pela Vale. 

Os bairros Bela Vista e Nova Vista vivem à sombra do Sistema Pontal, constituído por uma barragem principal e seis diques alteados a montante. Quatro deles, mais distantes dos bairros, já foram descaracterizados (estabilizados e deixaram de receber rejeitos). Os dois maiores e ainda não descaracterizados são os diques Minervino e Cordão Nova Vista, justamente os mais próximos dos bairros.

De acordo com Luiz Parada, gerente da Vale responsável pela descaracterização, a previsão é que o processo seja concluído em 2029. Neste mês de setembro, a Vale concluiu a construção da estrutura de contenção a jusante (abaixo) do Sistema Pontal. A obra é uma medida preventiva para reforçar a segurança durante as obras de descaracterização dos dois diques mais próximos à área urbana. Com 330 metros de extensão, a obra se caracteriza pela fixação de uma fileira de estruturas tubulares de concreto. Cada uma das colunas tem entre 1,2 metro e 1,5 metro  de diâmetro. A altura máxima de cada uma delas é de 4,75 metros de altura, mas a profundidade de algumas chega a 29 metros.

Os moradores do Bela Vista mostram imóveis cheios de rachaduras que surgiram após o início das obras de fixação das colunas. “Há pontos em que a mesma trinca percorre três imóveis” afirmou Lucas Mageste, da Fundação Israel Pinheiro, responsável pela ATI dos moradores do Bela Vista.

A Vale informou ter utilizado na obra uma tecnologia de cravação de estacas metálicas circulares que teria permitido a redução da vibração, geração de poeira e ruído. Ela também afirma ter adotado, durante as obras, providências como a umectação constante das vias, a fim de reduzir a poeira no ar, além de monitoramento contínuo da qualidade do ar, dos níveis de ruído e de vibração.

Foto: Ramon Bitencourt

As garantias foram repetidas pelos funcionários da Vale aos moradores, durante a visita de segunda (15), mas isso não tranquilizou ninguém. “Antes eu não tomava remédio nenhum. Hoje eu tomo remédio para pressão e para dormir. Eu durmo assustada, com medo de tudo. Minha pressão já foi para 22 por 10. Eu vou ficando sozinha no bairro”, afirmou Raimunda da Costa, que vive no Bela Vista há 50 anos.

Mais de dez famílias do Bela Vista, vizinhas de Raimunda, foram transferidas para hotéis ou casas de aluguel pagos pela Vale, em função das obras de descaracterização das barragens. Outros moradores dizem já ter encontrado cobras e escorpiões em suas casas, que teriam fugido do local onde as máquinas pesadas passaram a operar.

Uma obra de readequação sanitária também causa problemas entre a Vale, moradores e a prefeitura. Um dos obstáculos é que a empresa vincularia a reforma da rede de esgotamento sanitário à transferência, para o município, de uma área de sua propriedade ocupada pela população. O município resiste, uma vez que isso significaria assumir a responsabilidade pela indenização aos moradores pelas benfeitorias, que serão eliminadas pelas obras.

A deputada Bella Gonçalves (PSOL) ressalta que a obra feita pela Vale é necessária, mas é preciso discutir com os moradores para lhes garantir melhores condições de vida durante sua realização. “O que vemos hoje aqui é uma total falta de perspectiva sobre o futuro”, avaliou.

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