Por muito tempo, ouvimos que precisávamos ser resilientes a qualquer custo. Quantos treinamentos você já participou onde resiliência era a palavrinha da vez? A mensagem que mais recebíamos era: você precisa ser forte, aguentar firme, sem reclamar, sem demonstrar qualquer sinal de fragilidade. Como se a vida fosse um teste de resistência onde vence quem suporta mais dor em silêncio. E esse passou a ser o alvo de muitos de nós: dar conta, seguir em frente sem fraquejar. Mas ao longo do tempo temos visto o quanto essa é uma ilusão perigosa. Não somos máquinas programadas para funcionar sem descanso. Não somos capazes de suportar tudo sozinhos. Somos seres humanos com emoções, limites e necessidades. Cansamos, choramos, temos altos e baixos e às vezes precisamos parar para recalcular a rota e então recomeçar. Infelizmente, para muitos, reconhecer essa realidade e lidar com ela ainda não é natural.
Lembro-me quando há alguns anos atrás li o livro da renomada Brené Brown, “A coragem de ser imperfeito”. Como foi libertador poder abraçar a minha imperfeição e entender que a vulnerabilidade não é vergonha, é a base da coragem e da conexão humana. E, ao escrever esse texto, fico pensando: como assim precisamos ser lembrados da nossa humanidade? Onde foi que permitimos esse discurso da resiliência a qualquer custo nos fazer esquecer que nossas fragilidades são parte da nossa existência e colocar um fardo tão pesado em nossa própria jornada?
Estamos no Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio e precisamos mais do que nunca, falar sobre Saúde Mental. E falar sobre Saúde Mental passa pela coragem de reconhecer nossa vulnerabilidade e fraqueza, em uma cultura que impõe cada vez mais a força, a performance e a aparência de controle. É preciso coragem de se expor, de se permitir ser visto como realmente é, sem máscaras. É nesse lugar que podemos viver com mais leveza, é onde nasce a empatia, a criatividade e o senso de pertencimento. Não somos tão fortes e precisamos reconhecer isso.
O apóstolo Paulo já acessava essa sabedoria ao dizer: “quando sou fraco é que sou forte”. (2 Coríntios 12:10). Em sua fé, ele sabia que sua força não vinha dele mesmo e enxergava suas fraquezas como oportunidades para o poder de Cristo ser demonstrado. Ao fazermos isso, reconhecendo a nossa vulnerabilidade e fraqueza, podemos abrir mão do orgulho e autossuficiência, que são grandes obstáculos para que possamos nos conectar uns aos outros e admitir: “não estou bem”, “preciso de ajuda”, “não consigo lidar com isso agora”. Somente reconhecendo nossa fraqueza é que poderemos experimentar a potência e a força do cuidado, do apoio mútuo e da conexão. Quando deixamos cair as máscaras é que conseguimos construir relações autênticas, nas quais a saúde mental encontra solo fértil para florescer.
Nesse setembro amarelo, a dica é:
- Reconheça seus limites – você não precisa dar conta de tudo;
- Peça ajuda – abrir-se ao outro é um ato de confiança e de humanidade;
- Seja sincero consigo mesmo – não minimize sua dor, nem se cobre perfeição;
- Valorize sua humanidade – ser vulnerável é o que nos conecta de verdade.
Sobre a colunista
Nina Magalhães é mãe de três, Terapeuta Ocupacional, mestre em Educação e Saúde e certificada como Educadora Parental e Consultora em Encorajamento. Palestrante e escritora, atua em diversos projetos em defesa da infância.

