Celular, tablet, televisão… as telas já fazem parte da rotina de muitas famílias — inclusive na primeira infância. Mas, quando o assunto é desenvolvimento da linguagem, surge uma dúvida cada vez mais comum entre os pais: afinal, o excesso de telas pode atrapalhar a fala?
A resposta, baseada em evidências científicas, é: sim, pode impactar — e bastante.
O que acontece no cérebro da criança?
Nos primeiros anos de vida, o cérebro da criança está em intensa formação. É nesse período que ela aprende a se comunicar, observar expressões, imitar sons, responder ao nome e interagir com o outro.
A linguagem não se desenvolve apenas por ouvir palavras. Ela depende, principalmente, da interação.
Quando um adulto conversa com a criança, espera sua resposta, faz pausas, interpreta gestos e responde às tentativas de comunicação, ele está construindo conexões fundamentais para o desenvolvimento da fala.
Já o uso excessivo de telas tende a reduzir essas trocas. A criança passa a ser mais espectadora do que participante — e isso faz diferença.
O que dizem os estudos?
Pesquisas recentes mostram que quanto maior o tempo de exposição às telas nos primeiros anos de vida, maior o risco de atrasos na linguagem, especialmente na fala expressiva.
Além disso, estudos apontam que o uso frequente de dispositivos eletrônicos pode diminuir a quantidade e a qualidade da interação entre pais e filhos — justamente o principal combustível para o desenvolvimento da comunicação.
Instituições como a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendam evitar o uso de telas antes dos 2 anos de idade e limitar o tempo nas idades seguintes, sempre com supervisão.
Então, o problema é a tela em si?
Mais do que demonizar as telas, o ponto central é entender o equilíbrio.
O problema não está apenas no tempo de uso, mas no que a criança deixa de vivenciar enquanto está exposta às telas: brincar, explorar, interagir, olhar nos olhos, tentar se comunicar.
Nenhum aplicativo substitui uma conversa real.
O que os pais podem fazer na prática?
- Priorizar momentos de interação no dia a dia
- Conversar, narrar ações e responder às tentativas de comunicação da criança
- Evitar o uso de telas como forma principal de entretenimento
- Se houver uso, que seja por tempo limitado e, preferencialmente, com um adulto junto
Um olhar atento faz toda a diferença
Cada família tem sua rotina e seus desafios, e o objetivo não é gerar culpa — mas sim informação.
Observar o desenvolvimento da linguagem desde cedo e fazer pequenos ajustes na rotina pode ter um impacto muito positivo no futuro da criança.
Se houver dúvidas sobre o desenvolvimento da fala, buscar orientação profissional é sempre um passo importante. A avaliação precoce permite identificar necessidades específicas e orientar a família de forma adequada, respeitando o tempo e as características de cada criança.
Sobre a autora
Thaís Martins Fernandes é fonoaudióloga, mestre em ciências fonoaudiológica, aperfeiçoada em reabilitação neurológica infantil. Atua com avaliação e acompanhamento de crianças com atrasos de linguagem e desenvolvimento, além de orientação familiar.
Atende na Clínica Integrar, oferecendo um olhar individualizado e baseado em evidências para cada criança.
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