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UFMG pede desculpas por comprar corpos do Hospital Colônia de Barbacena

UFMG pede desculpas por comprar corpos do Hospital Colônia de Barbacena

Hospital Colônia de Barbacena onde mais de 60 mil pessoas morreram em decorrência dos maus-tratos. Foto: Reprodução/Centro Cultural da Saúde

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) formalizou um pedido público de desculpas à sociedade brasileira por ter adquirido, ao longo do século XX, cadáveres vindos do Hospital Colônia de Barbacena para atividades de ensino. A manifestação foi divulgada pela Faculdade de Medicina da UFMG e reconhece que a prática atingiu a dignidade de pessoas internadas em uma instituição que se tornou símbolo de violações em massa de direitos humanos no país.

Em nota, a universidade afirma que o Hospital Colônia e outras instituições psiquiátricas mineiras foram palco de uma das mais cruéis violações de direitos humanos já praticadas no Brasil. A declaração, assinada pela então reitora Sandra Goulart Almeida, destaca que muitas pessoas internadas morreram, foram enterradas como indigentes ou tiveram os corpos enviados a escolas médicas para aulas de anatomia. 

Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a medida é resultado de uma atuação conduzida pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em Minas Gerais, dentro de um inquérito civil público voltado a apurar responsabilidades e buscar reparação ligada à antiga política de internação compulsória em Barbacena. Para o MPF, a iniciativa integra um conjunto de ações de Justiça de Transição, voltadas à verdade, à memória e à reparação simbólica de vítimas de graves violações de direitos. 

As investigações apontaram que corpos de pessoas mortas no hospital eram comercializados para instituições de ensino médico. O MPF afirma que registros históricos indicam que a Faculdade de Medicina da UFMG esteve entre as principais adquirentes, com centenas de corpos registrados, sobretudo a partir da década de 1960. 

A resposta institucional da universidade inclui medidas além do pedido de desculpas. Entre elas estão ações de memória em diálogo com grupos da luta antimanicomial, a restauração do livro histórico de registro de cadáveres e a inclusão do tema nas disciplinas de anatomia. O MPF também informou que a UFMG se comprometeu com uma cerimônia pública, com a inserção do histórico das violações de direitos humanos na saúde mental e da compra de corpos nas disciplinas de Anatomia e História da Medicina, além da criação de espaços de memória em três áreas da Faculdade de Medicina. 

Desde 1999, a UFMG mantém um programa de doação de corpos para estudo anatômico baseado em consentimento voluntário, descrito como prática legal e ética e alinhada a padrões internacionais. Nesse contexto, o Conselho Federal de Medicina aponta que o uso de corpos humanos segue sendo parte relevante da formação médica, por permitir o estudo direto das estruturas e das características reais do organismo. A entidade afirma que peças sintéticas e recursos tecnológicos podem complementar o ensino, mas não substituem a observação em cadáveres, considerada importante para a compreensão detalhada da anatomia, desde que respeitadas as normas legais e a dignidade dos doadores.

O Hospital

O Hospital Colônia de Barbacena foi criado em 1903 e transformado ao longo do século XX em um espaço de confinamento em massa. A trajetória da instituição é lembrada por órgãos públicos e por espaços de memória como uma referência extrema de violência institucional no campo da saúde mental. O Museu da Loucura, instalado em Barbacena, resgata essa história e apresenta o antigo Colônia como marco central da evolução do debate psiquiátrico no Brasil. 

A dimensão da tragédia é uma das razões pelas quais o nome do hospital segue atravessando gerações. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) registrou, em evento sobre a luta antimanicomial realizado em 2025, que mais de 60 mil pessoas morreram no antigo manicômio entre as décadas de 1930 e 1980, vítimas de frio, fome, diarreia, tortura e eletrochoque. Na mesma reconstrução histórica, o órgão afirmou que estimativas indicam que 70% dos internados não tinham sofrimento mental. 

A lotação do hospital também ajuda a explicar o colapso humano vivido no local. Segundo o MPMG, a unidade foi criada para 200 vagas, mas chegou a reunir mais de cinco mil pessoas ao mesmo tempo. Entre os internados estavam pobres, crianças, pessoas em situação de rua, mulheres estigmatizadas, homossexuais, opositores políticos e outros grupos empurrados para o manicômio como forma de exclusão social.

A repercussão do caso também se conecta ao processo mais amplo de revisão da política manicomial brasileira. A Lei nº 10.216, de 2001, redirecionou o modelo assistencial em saúde mental e consolidou um marco de proteção de direitos das pessoas com transtornos mentais, tornando-se um dos pilares da reforma psiquiátrica no país. 

Em Barbacena, a memória desse passado foi convertida em espaço permanente de reflexão. O Museu da Loucura, criado em 1996, funciona no terreno do atual Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena e foi concebido para preservar documentos, objetos, imagens e registros do antigo Hospital Colônia. O espaço se tornou uma referência nacional para o debate sobre a história da assistência psiquiátrica e sobre a necessidade de tratamento pautado por direitos humanos.

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