UFMG pede desculpas por comprar corpos do Hospital Colônia de Barbacena
Pedido público reconhece uso de cadáveres de pacientes no ensino de anatomia e reacende debate sobre violência manicomial no Brasil
A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) formalizou um pedido público de desculpas à sociedade brasileira por ter adquirido, ao longo do século XX, cadáveres vindos do Hospital Colônia de Barbacena para atividades de ensino. A manifestação foi divulgada pela Faculdade de Medicina da UFMG e reconhece que a prática atingiu a dignidade de pessoas internadas em uma instituição que se tornou símbolo de violações em massa de direitos humanos no país.
Em nota, a universidade afirma que o Hospital Colônia e outras instituições psiquiátricas mineiras foram palco de uma das mais cruéis violações de direitos humanos já praticadas no Brasil. A declaração, assinada pela então reitora Sandra Goulart Almeida, destaca que muitas pessoas internadas morreram, foram enterradas como indigentes ou tiveram os corpos enviados a escolas médicas para aulas de anatomia.
Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a medida é resultado de uma atuação conduzida pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em Minas Gerais, dentro de um inquérito civil público voltado a apurar responsabilidades e buscar reparação ligada à antiga política de internação compulsória em Barbacena. Para o MPF, a iniciativa integra um conjunto de ações de Justiça de Transição, voltadas à verdade, à memória e à reparação simbólica de vítimas de graves violações de direitos.
As investigações apontaram que corpos de pessoas mortas no hospital eram comercializados para instituições de ensino médico. O MPF afirma que registros históricos indicam que a Faculdade de Medicina da UFMG esteve entre as principais adquirentes, com centenas de corpos registrados, sobretudo a partir da década de 1960.
A resposta institucional da universidade inclui medidas além do pedido de desculpas. Entre elas estão ações de memória em diálogo com grupos da luta antimanicomial, a restauração do livro histórico de registro de cadáveres e a inclusão do tema nas disciplinas de anatomia. O MPF também informou que a UFMG se comprometeu com uma cerimônia pública, com a inserção do histórico das violações de direitos humanos na saúde mental e da compra de corpos nas disciplinas de Anatomia e História da Medicina, além da criação de espaços de memória em três áreas da Faculdade de Medicina.
Desde 1999, a UFMG mantém um programa de doação de corpos para estudo anatômico baseado em consentimento voluntário, descrito como prática legal e ética e alinhada a padrões internacionais. Nesse contexto, o Conselho Federal de Medicina aponta que o uso de corpos humanos segue sendo parte relevante da formação médica, por permitir o estudo direto das estruturas e das características reais do organismo. A entidade afirma que peças sintéticas e recursos tecnológicos podem complementar o ensino, mas não substituem a observação em cadáveres, considerada importante para a compreensão detalhada da anatomia, desde que respeitadas as normas legais e a dignidade dos doadores.
O Hospital
O Hospital Colônia de Barbacena foi criado em 1903 e transformado ao longo do século XX em um espaço de confinamento em massa. A trajetória da instituição é lembrada por órgãos públicos e por espaços de memória como uma referência extrema de violência institucional no campo da saúde mental. O Museu da Loucura, instalado em Barbacena, resgata essa história e apresenta o antigo Colônia como marco central da evolução do debate psiquiátrico no Brasil.
A dimensão da tragédia é uma das razões pelas quais o nome do hospital segue atravessando gerações. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) registrou, em evento sobre a luta antimanicomial realizado em 2025, que mais de 60 mil pessoas morreram no antigo manicômio entre as décadas de 1930 e 1980, vítimas de frio, fome, diarreia, tortura e eletrochoque. Na mesma reconstrução histórica, o órgão afirmou que estimativas indicam que 70% dos internados não tinham sofrimento mental.
A lotação do hospital também ajuda a explicar o colapso humano vivido no local. Segundo o MPMG, a unidade foi criada para 200 vagas, mas chegou a reunir mais de cinco mil pessoas ao mesmo tempo. Entre os internados estavam pobres, crianças, pessoas em situação de rua, mulheres estigmatizadas, homossexuais, opositores políticos e outros grupos empurrados para o manicômio como forma de exclusão social.
A repercussão do caso também se conecta ao processo mais amplo de revisão da política manicomial brasileira. A Lei nº 10.216, de 2001, redirecionou o modelo assistencial em saúde mental e consolidou um marco de proteção de direitos das pessoas com transtornos mentais, tornando-se um dos pilares da reforma psiquiátrica no país.
Em Barbacena, a memória desse passado foi convertida em espaço permanente de reflexão. O Museu da Loucura, criado em 1996, funciona no terreno do atual Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena e foi concebido para preservar documentos, objetos, imagens e registros do antigo Hospital Colônia. O espaço se tornou uma referência nacional para o debate sobre a história da assistência psiquiátrica e sobre a necessidade de tratamento pautado por direitos humanos.




