A comovente submissão do povo russo produziu o czar Vladimir Putin

O russo é naturalmente pacato e submisso. Bem diferente de alguns personagens de Dostoiévski e Tolstói

A comovente submissão do povo russo produziu o czar Vladimir Putin
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A Rússia é um lugar misteriosamente encantador. Esse país do Leste Europeu tem vasta e diversificada manifestação cultural. A literatura de lá sempre iluminou o mundo com gênios do gênero. Apenas três exemplos dessa sumidade de escrever: Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói e Ivan Turguêniev. A música clássica também produziu um talento de escola. Aqui se fala de Piotr Ilitch Tchaikovsky. O sublime compositor criou algumas obras-primas como “O Lago dos Cisnes”, “Abertura 1812” e “Concerto para Piano e Orquestra nº 1” (simplesmente maravilhoso). Não se pode esquecer — em meio a essa constelação de brilho tão intenso — o magistral “Ballet Bolshoi”. A arte russa, portanto, é exuberante.

Mas como definir os moradores dessa banda do planeta? São homens e mulheres independentes, humanamente expansivos e amantes da liberdade. Desculpe-me decepcioná-los. Não é nada disso. O russo é naturalmente pacato e submisso. Bem diferente de alguns personagens de Dostoiévski e Tolstói. Uma situação constrangedora resta muito clara: a sociedade russa tem carência de czares. Essa constatação é bastante óbvia. A elite local e os mujiques (ou camponeses) suportaram a tirania da família Romanov durante 370 anos. Em quase quatro séculos, esse clã gestou as mais sórdidas figuras. A população foi oprimida por ditadores com explícitos problemas mentais. Ivan, O Terrível, o primeiro czar, é o mais icônico exemplar dessa casta.

A rara revolta popular de 1917, porém, acabou com a autocracia dos Romanov. A massa se rebelou contra as atrocidades de Nicolau II e literalmente botou pra quebrar. Consequência dessa improvável rebelião. A corte imperial foi escorraçada de São Petersburgo (capital da Rússia na época). A insurreição deixou um momentâneo vácuo no poder. Então, os oportunistas bolcheviques — sob o comando de Vladimir Ilitch Ulyanov (Lenin) — entraram em cena. Dessa forma, os “comunistas” assumiram o protagonismo num sistema praticamente feudal.

Mas, atenção. Essa nova ideologia é uma peça de ficção. A doutrina sociológica (e filosófica) de Karl Marx e Friedrich Engels sempre foi uma utopia. A teoria não se sustenta na prática. A verdade, portanto, é uma só: pragmaticamente o comunismo não passa de pretexto para a implantação de ditaduras de direita e esquerda. Os déspotas de direita assumem o poder para defender o povo do perigo de um suposto comunismo. Já os tiranos da esquerda se perpetuam no governo para pretensamente livrar o proletariado da exploração da burguesia. Tudo não passa de conversa para boi (ou ditadores) dormir.

A promessa de “aniquilamento” da classe burguesa foi o cartão de visita do segundo czarismo. Com a morte precoce de Lenin, Josef Stalin tomou as rédeas do Estado. O secretário-geral do Partido Comunista foi um dos homens mais cruéis de todos os tempos. O “czar vermelho” até se transformou num herói da Segunda Guerra Mundial. Não por talento bélico, mas por simples acaso. Veja bem. A asnice e prepotência endêmica de Adolf Hitler causaram a derrota do exército nazista, na Rússia, em 1943. O fuhrer foi massacrado por um tal “general inverno”, o mesmo que dizimou as tropas de Napoleão Bonaparte, quase um século antes. Para a felicidade geral do mundo, Hitler não se dava bem com livros de história. Se folheasse algumas páginas desses compêndios, teria percebido a inviabilidade de se tentar invadir Moscou em pleno inverno.

Mas voltemos ao ponto. O genocida Stalin provocou a morte de cerca de oito milhões de pessoas durante os 26 anos da sua falsa gestão comunista (1927 a 1953). O “edifício” ideológico dos czares da “foice e martelo”, porém, só começou a ruir literalmente em 9 de novembro de 1989. A demolição do Muro de Berlim foi o início do fim. A União Soviética virou pó em 1991 e a República Russa saboreou relativa democracia até 31 de dezembro de 1999. A partir daí, começou o terceiro czarado. Entrou na passarela global, nessa ocasião, o “neoczar” Vladimir Vladimirovitch Putin, que conserva todos os vícios dos seus patéticos ancestrais. A nova realidade até seria cômica, caso não fosse um perigoso atalho para a tragédia das tragédias. Afinal, Putin não é um psicopata qualquer. O atual morador do Kremlin é dono de um arsenal com cerca de seis mil ogivas nucleares. Como se vê, o sujeito tem potencial para botar um ponto final na aventura humana no planeta. Enquanto isso, o povo russo está onde sempre esteve: mergulhado na sua eterna indolência. É o fim.

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

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