A Vale vai embora! E daí?

Se “pedra que brilha” tivesse vocação prévia para a agropecuária, por exemplo, não ficaria refém de precária safra. Contudo, é minério.

A Vale vai embora! E daí?
Foto: Assessoria de Comunicação/ FIP/ATI/Itabira
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A Vale vai embora! E daí? Esta sentença tem fatais dois pontos: a interjeição espanta e a interrogação berra. A desconstrução do utópico eldorado de Mato Dentro está muito próxima. O fim da picada evidencia-se, logo ali, na linha do horizonte. A verdade é única, incontestável. O tempo voa na velocidade de vagabundo cometa errante. A relação da mineradora com Itabira funciona como samba de uma nota só. Um manjado refrão sempre martelou a cabeça da população: “um dia, o minério acaba”. Outra variação do mesmo verso — de forma bem mais contundente — tamborilava “minério não dá duas safras”.  A advertência foi óbvia, no entanto, despercebida. Alguns velhos sonhadores acreditavam no mito da imortalidade da “monumental jazida” de hematita e um punhado de itabirito (a rocha marginal).

No começo — bem no limiar do século passado — a descoberta do “tesouro” itabirano explodiu como uma bomba nas Gerais. A boa-nova significaria o fim do pé no atoleiro socioeconômico da pólis setecentista. A mais expressiva manifestação do inaudito otimismo foi o icônico texto “Vila de Utopia” do poeta Carlos Drummond de Andrade. A obra literária escancara a indisfarçável euforia dos moradores da “cidadezinha qualquer”. Saboreiem a deliciosa falta de noção da gente de lá. Quanta inocência!

“É curiosa a Vila de Utopia, posta na vertente da montanha venerável e adormecida na fascinação de seu bilhão e 500 milhões de toneladas de minério com um teor superior a 65% de ferro, que dará para ‘abastecer quinhentos mundos durante quinhentos séculos’, conforme garantia o visconde do Serro Frio”. 

Mais à frente, Drummond mostrou o desvario do professor Labouriaux. O mestre botou mais lenha na fogueira da ilusão.

“Os números que exprimem a quantidade de minério de Itabira são astronômicos: de tão grande tornam-se inexpressivos”.

É pena. Lamento informar que a “imensurável inexpressividade” nasceu com prazo mínimo de validade. Algo não deu certo com a calculadora (ou bola de cristal) dos “mais antigos”.  A reserva mineral de 500 séculos literalmente virou pó em apenas oito décadas. Muito lamentável. Os desiludidos dos anos 1940 cometeram erro de estimativa de apenas 625%. Uma derrapada bem distante da famosa margem de equívocos do instituto Datafolha.

A Vale vai embora? E daí! Já vai tarde (ou cedo demais) e deixa para a posteridade escombros ambiental de todas as formas, como esqueletos de barragens e ex-imponentes montanhas. Não adianta chorar o leite derramado, mas se “pedra que brilha” tivesse vocação prévia para a agropecuária, por exemplo, não ficaria refém de precária safra. Contudo, é minério.

Um constrangedor acontecimento histórico se perpetuará como amarelada fotografia na parede do imaginário local: a sociedade itabirana caiu no conto da perenidade do ferro. A Vale vai embora! E daí? Não há muito a fazer. O futuro só a Deus pertence e espero que Ele haja. Até mesmo para reparar a atual grotesca falha humana. Então, só resta suplicar para que as próximas gerações perdoem as omissões nossas de cada dia.

Sobre o colunista

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

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