Mãe itabirana transforma drama pessoal em luta pela causa autista

Débora Gomes é mãe de dois autistas severos e utiliza sua difícil trajetória como incentivo a outras famílias com realidades parecidas

Mãe itabirana transforma drama pessoal em luta pela causa autista
Foto: Arquivo pessoal
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Débora Gomes é pedagoga, tem 44 anos, e é mãe de Samuel e Davi Gomes, ambos diagnosticados com autismo severo. Sua trajetória é marcada pela busca constante por tratamentos eficazes, principalmente, para Davi. Há alguns meses, a itabirana criou uma vaquinha (com a qual você pode contribuir clicando aqui) cujo objetivo é garantir o tratamento adequado para o adolescente de 14 anos e outros autistas.

Neste 2 de abril, Dia Mundialde Conscientização do Autismo, conheça a história desta batalhadora mulher, que transformou seu drama pessoal em uma luta pela causa.

Como começou

Há 14 anos, a vida da jovem Débora Gomes mudou para sempre. Diagnosticada desde a juventude com endometriose, doença crônica que modifica o funcionamento normal do organismo, a itabirana fez vários tratamentos e já estava decidida sobre a retirada do útero, mas uma surpresa aconteceu. Débora descobriu estar grávida de gêmeos.

Segundo ela, a gestação de Davi e Samuel, hoje com 14 anos, seguiu sem intercorrências, o parto foi normal e os primeiros exames deram bons resultados. Porém, com apenas um ano, a itabirana começou a perceber alterações no comportamento de Davi. Morando em Passabém àquela altura, Débora procurou a ajuda de um especialista e foi surpreendida. Ao contrário do que imaginava, ela não tinha apenas um filho autista. Samuel também foi diagnosticado com o transtorno.

A partir daí, a pedagoga de 44 anos, mesmo morando em um local com poucos recursos, procurou todos os tipos de informações e tratamentos. Davi e Samuel mal haviam completado os quatro anos e já haviam sido submetidos à fonoaudiologia, psicologia e terapia ocupacional.

Foto: Arquivo pessoal

Em Itabira

Decidida a voltar para a terra natal, Débora Gomes levou seis meses para conseguir a transferência e teve de deixar os filhos sob os cuidados dos avós na terra de Drummond. Ela relembra o difícil período no qual dividia sua rotina entre Itabira e Passabém.

“Finalmente consegui me mudar para Itabira, mas pouco tempo depois meu marido ficou desempregado e tivemos novos desafios, até que ele conseguiu uma colocação fora da cidade. Cheguei a montar um apartamento, mas a rotina era impossível de administrar sozinha, mesmo os meninos gostando de lá. Voltei para a casa dos meus pais, onde tudo aos poucos foi sendo adaptado para a convivência segura dos meninos. Trancas nos portões, travas de segurança, proteções nos apagadores, retirada de todo tipo de decoração e objetos soltos, entre outras tantas”, detalha.

Com o passar do tempo, quando a família já era acolhida em uma rede de apoio que envolvia familiares, colegas de trabalho, igreja e outros, ficou claro que a situação era ainda mais complicada. Ambos possuíam um autismo severo, e Davi era quem exigia mais cuidados.

Sua rotina era marcada por restrições alimentares, pouca sociabilidade, inquietação, falta de contatos visuais, dificuldade de fala e intensas crises sensoriais. Segundo Débora, as medicações eram muitas e muito fortes, levando a família a ter preocupação com os efeitos colaterais a médio e longo prazo.

Davi chegou a tomar 17 comprimidos por dia quando os pais decidiram recorrer à cannabis. O tratamento até começou de forma promissora, mas não evoluiu. E com a chegada da puberdade, o quadro do adolescente se agravou.

“Há aproximadamente 10 meses, tive um dos momentos de maior desespero desde o diagnóstico. No momento em que saíamos para a escola, Davi entrou em crise e se debateu com tanta violência que, em fração de segundos, deu um tapa no vidro da janela e atravessou o braço, tendo parte da carne arrancada profundamente na parte interna do cotovelo. Foi um pesadelo! Ele perdeu muito sangue, teve que ser operado, convulsionou e ficou três dias internado. Sofri tanto nestes momentos, achei que iria perder meu filho. Me senti culpada e impotente”, conta Débora.

O jovem Davi Gomes, de 14 anos. Foto: Arquivo pessoal

Avanço

Embora tenha sido traumático, o episódio foi um divisor de águas na busca por soluções. Algum tempo depois, Débora foi apresentada a um especialista em ECT (Eletroconvulsoterapia). Segundo ela, além de ter sido tratado como um “case de estudo”, o tratamento passou a fazer diferença na vida de Davi, mas apresentava muitas contrapartidas.

O acompanhamento por ECT só é possível em Belo Horizonte, obrigando a família a viajar três vezes por semana, saindo de casa às 4h da manhã. Com isso, há um desgaste físico e emocional decorrentes das viagens, além dos custos muito altos e a dependência de um carro da Prefeitura de Itabira.

Desta forma, a solução encontrada foi tratar o autismo severo de Davi em Itabira. E para chegar ao objetivo, Débora criou uma vaquinha cujo objetivo é arrecadar R$ 21 mil, que seriam utilizados na capacitação de um profissional especialista em neuromodulação magnética e aquisição do aparelho. Segundo a pedagoga, outros autistas também poderão se beneficiar do tratamento e ter uma qualidade de vida maior.

“Davi não será o único a ser beneficiado com a aquisição do ECT, e é por isso que hoje eu afirmo que eu sou apenas uma ferramenta nos propósitos maiores de Deus para a comunidade autista. Eu já caí várias vezes, mas a cada obstáculo Ele me fortaleceu e abriu novas portas. E sempre que isso ocorre, eu não entro sozinha, eu levo pelas mãos outras mães e outros autistas na busca por uma melhor qualidade de vida”, ressalta Débora.

A itabirana ainda garante: a aquisição do aparelho é apenas a ponta do iceberg.Meu propósito não para aqui. Minha jornada ainda é longa, tenho que pensar no futuro destas crianças que se tornarão adultos e até idosos. Mas quando isso acontecer, nós, pais, estaremos aqui para dar-lhes o suporte que precisam? É preciso desde já preparar uma casa de acolhimento para autistas. É por tudo isso que eu digo que a vaquinha é a ponta do iceberg, ela é um investimento para toda a comunidade autista de Itabira e região, que ainda poderá beneficiar pessoas com depressão crônica e outras morbidades psiquiátricas”, completa.

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